segunda-feira, 20 de maio de 2024

Sendo mulher

 Nasci numa situação bem delicada. Vinha ali uma menina. Filha de outra mulher e de um homem que tem mulher. Tem mulher, a mulher o tem? Eles eram casados. Há uma outra mulher, uma mocinha ainda tão nova e também filha. Rompimentos, problemas...

Fui crescendo. Na escola eu não devia ser tão alta, mas era a maior da classe. E nem tão gorda. Mas a minha coxa dava duas da de um amigo meu. E não devia sentar assim ou assado. Bunda pra trás, peito pra frente, me disseram.

Quando adolesci, meus interesses eram muitos. Aliás desde sempre... eu era a sereia, eu era a princesa, eu iria casar, ter filhos, segundo me contam, uns 20 mais ou menos. Eu sempre fui apaixonada. E quando ficava confusa sobre meus muitos amores me culpava: como posso não ter a certeza sobre de quem eu gosto? Eu não queria ser uma piranha, ser piranha era feio...

E procurei um parceiro. Parceiro pra viver melhor, compartilhar a vida. Essa vida tão cheia de percalços. Melhor não ter filhos... E com muitos encontros e desencontros com possíveis parceiros, acabei me aventurando pela Internet. Não podia. Mas eu só estava de papo com muita gente. E como proibido é mais gostoso e eu era muito apaixonada, aconteceu. 

Eu tinha 13 e ele 19. Hoje entendo  e legitimo as preocupações e proibições do meu pai. Mas a verdade é que eu gostava muito mais da confiança e liberdade da minha mãe. Namoramos. 

Eu, muito precisada de um amor.

Ele, muito precisado também.

Mas eu achava que era só eu. Oferecia-me como objeto. Parecia que era pra ser assim. Fazia-me de boneca. Fazia charme. Dizia coisas que não sentia. Sentia um turbilhão dentro de mim. Afinal: como se namora? Cumprimos cada um com o seu papel? Quem é esse tal? Quem quero ser nessa relação? E fomos construindo... construindo... casamos.

Era para ser o dia mais feliz de nossas vidas. Mas foi tenso, intenso, fizemos um caminho pelas nossas próprias pernas. Pernas ainda verdes e procurando firmeza. Fomos fortaleza um pro outro. Fomos ombro, aconchego, mobiliamos, passeamos, acordamos e dormimos cheios da alegria de estarmos juntos. Segui estudando. Ele seguiu estudando e trabalhando. Cada um procurando seu lugar no mundo. Mas o nosso lugar um com o outro era a certeza que precisávamos pra estar vivos.

Fui aprendendo a ser diferente. Aprendendo que as coisas não são sempre como parecem ser. Elas são como a gente fizer ser. E a gente pode. Fui descobrindo e não cesso de descobrir que existir é fluido e que se estiver respirando, se o coração bate, podemos estar vivos e inventando um jeito de ser feliz. Fui confiando nessa construção, nas possibilidades de que o belo se faça. Comecei a ter uma pequena vontade de ter filho.

Que será do mundo sem nossa contribuição? Eu pensava. Ele também. Fomos planejando  um filho que seria o efeito de um amor verdadeiro, de um lar agradável, de respeito. E veio a zika, desesperos, atravessamentos. Nasceu. Lindo, perfeito. Veio a alergia -aplv- e veio o que é a maternidade. 

O pai voltou a trabalhar. A mãe, em frangalhos, tentando dar conta do impossível. O pai, no seu possível, tentando dar apoio à mãe. De quantos desencontros se faz um verdadeiro encontro? Sentia-me traída pela própria natureza. Não era mais a minha fantasia que sustentava essa maternidade mas um certo dito inscrito nas células que nos faz reproduzir a espécie.

Quisemos outra chance, outra vez, um companheirinho pro pequeno, mais aprendizado. E veio. Tudo novo de novo. Novos desafios se impunham, novas perspectivas, olhares para o mundo. Toda a delicadeza de gestar e parir um filho tem mesmo a ver com o tamanho do que podemos enfrentar acompanhando esse desenvolvimento de seres que vieram do encontro dos corpos. Em especial para o corpo que é emprestado a esse ser para que ele próprio se constitua em diferentes aspectos.

E como a gente faz, a gente leva, a gente vive é também o que acreditamos, nos aprisionamos, repetimos. Ser mulher é ocupar esse corpo que precisa encontrar lugar próprio. Ser mulher, incompletude mais próxima da plenitude. Mulher é mesmo ser divino, gerador da vida. E estou tão cansada que quase adormeço aqui escrevendo.