segunda-feira, 31 de março de 2025

Tudo prontinho

Quando eu vim para esse mundo ele já estava assim: prontinho. As coisas funcionam muito bem e sinto-me bastante adaptada.
As idas pra montanha me fazem pensar num outro tempo, de coisas menos prontas.
Quando fui na primeira tempestade o sentimento foi de desespero. O que desespera é o despreparo. E se eu ficar molhada? E se me perder sem abrigo? E se não souber me defender? Eu fui desavisada.
Mas no meu mundo há previsão do tempo. Hoje eu olho a previsão do tempo - que ainda erra muito - e com ela me organizo. Uso de plástico para me abrigar e para proteger as coisas. Não me orgulho disso mas o plástico ocupa lugar central para nossa sociedade, essa desse mundinho onde caí em 1986. 
E, aprendendo a enfrentar a chuva e o frio, me pergunto sobre o secar. Na montanha não tem varal. Chego em casa e a água chega encanada numa máquina que lava minhas roupas molhadas e as estendo numas cordas para que sequem logo. Um dia inventaram o varal. Antes faziam como faço na montanha: estendo sobre uma pedra bem exposta ao sol e, se tivermos num dia bem quente, rapidinho resolve aquela uma ou duas peças de roupa.
Aos poucos fui pensando em mim. Eu também tão prontinha. No momento talvez minha melhor versão de mim mesma, venho me esmerando nesse propósito.
Eu e meu mundo, tão estáticos e tão mutantes. Há um tempo não havia celular. O feminismo também avançou tanto nos últimos tempos e nos perguntamos sobre nosso lugar acompanhando esse zeitgest. Achando, eu mesma, que penso e sou, quando na verdade isso também é uma mistura do que sou pensada e do mundo que se apresenta pra mim. Nós e nossas questões.
Quanto de mim é mutável? Quanto de mim é possível avançar? O quão prontinha eu realmente estou? E o quanto sou capaz de avançar na direção do que eu acredito e que acreditam por aí?
Quero estar pronta pro impossível. E assimilar o inassimilável. Percebendo que o desespero de um tempo é o prazer da vivência em outro, estando pronta para atravessar as adversidades.

 É preciso saber viver!

"Quem espera que a vida
Seja feita de ilusãoPode até ficar malucoOu morrer na solidãoÉ preciso ter cuidadoPra mais tarde não sofrerÉ preciso saber viver
Toda pedra do caminhoVocê pode retirarNuma flor que tem espinhoVocê pode se arranharSe o bem e o bem existemVocê pode escolherÉ preciso saber viver
É preciso saber viverÉ preciso saber viverÉ preciso saber viver
Saber viver."

quinta-feira, 6 de março de 2025

Mulher na montanha

Hoje foi dia de mulheres
Mais para loucas
Seres com quereres
De horas poucas

Subimos atrasadas 
Um tanto atarantadas
Nos perdemos no caminho
E encontramos um boi sozinho

Boi não, vaca!
Pensamos se era mana
Mas tememos: bruaca!
Tratamento tão sacana

Tocamos ela da frente
A gente com medo dela
E ela com medo da gente
Nos esgueiramos com cautela

Subimos o morro com lanterna
O escuro não nos afugenta 
Entre nós energia terna
De um lado calma e de outro atenta

Os assuntos muito construtivos
Desde amigos e família 
Até menstruação e meditativos
Relação de amigas, pura poesia

E chegamos muito sozinhas
As estrelas lindas, um céu tão forte
Partilha de coisas minhas
Entre o receio e o apreço pela morte

Nossa barraca, nossa segurança 
As comidas gostosas que partilhamos
Vivendo do presente e de lembrança 
Essa energia que dali levamos

Os vagalumes, o silêncio 
Valorizamos cada momento 
Recarregando, me reverencio
Aproveitando esse sentimento 

Olho para mim, me localizo 
Olho pra fora, objetivo 
E volto enfim, me autorizo
No meu universo me realizo