terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Insuficiência

Não fui o suficiente. A vida segue morrendo apesar de mim. 
Eu me tornei suficiente: vivo apesar da morte. Ela me persegue. E rio, brinco, eu arrepio! Eu morro um pouco, eu vejo a morte. Eu vejo beleza na tristeza da morte. Também choro... E vivo!
Não sou auto-suficiente porque preciso dos outros, dos olhares, das escutas. Preciso ouvir, olhar, estar junto. Eu gosto do encontro, ainda que seja sempre parcial. É uma parcela de vida e que me interessa.
E entre não ser o suficiente mas ser algo suficiente, danço, não me entregando nem ao desespero nem à cega esperança. Aposto. Invisto. Me visto de uma disposição de viver.
Interrogo os olhares que me vêem. Vários sorriem pra mim. E quanto aos olhos que choram ao meu redor? Avalio minha posição. O que posso fazer por eles? Não quero mais me enroscar nessas lágrimas. Caída na lama por não tê-las segurado... Por não ser o bastante. De fato não sou, mas essa também não é mais a minha função. Me eximo de salvar o mundo. Me eximo de dar conta dos restos que não me pertencem. E me salvo em minhas próprias lágrimas, das quais ninguém jamais há de dar conta.