Mulher, vida ou morte?
Cama cama cama
Treme
Vira os olhos
Olho
Olho
Olho
Branca
Fria
Treme
Dor
Fica de pé
Branca
Branca
Treme
Deita de bruços
De lado
Geme
Olhos fechados
Ei, fica aqui, hein?
Treme
Silêncio
Banheiro
Agua fria
Sem roupa
De roupa
Nada mais importa
Água
Dor, muita dor
Chuveiro
Silêncio
Chuveiro
Água fria
Fraqueza
Treme
Senta no chão
Dor
Treme
Dor
Deita
Não cabe
Não importa
Sem força
Dor e mais dor
Tudo está molhado. Há 4 mulheres no banheiro. Duas no box, duas pela porta.
- quer comer? Onde está o aparelho de pressão? Não apaga, tá? Que tem pra dor aí? Liga pra farmácia...
- está sem pilha, só tem novalgina, mas abaixa a pressão...
- era isso mesmo? Já se viu esse quadro? Posso providenciar o remédio agora.
- Dor. Dor. Dor.
Silêncio...
As da porta saem.
- Olha, se você achar que vai desmaiar, por favor, não vá... diga que quer ir, que está melhor. Precisamos fugir.
E bebe o suco, e toma o remédio que demorou a chegar. E vamos pra cama. E voltamos pra água. Toalha e apoio, pressão nas costas. Não alivia?
Nada alivia.
Faz
Está morrendo
Dor
Desliga a água
Liga a água
Toalha de travesseiro
Queijo
Não Sim Bom
Dói muito
Tô sentindo
Olho aberto
Ofegante
Acho que vou vomitar
- ela vai ficar bem, o pior já passou.
Alívio.
Dor
Um pouco de privacidade
Vaso
- ei, tá tudo bem?
Queijo
Vamos pro quarto
Deita
Senta
Dor
Tempo
Tempo
Tempo
Vamos embora.
Saldo: uma vida e uma morte.
quinta-feira, 21 de maio de 2020
segunda-feira, 18 de maio de 2020
Filhos e o amor próprio
Filhos e o amor próprio
Nasce um filho. Que lindo!
É uma perfeição sem tamanho.
E se a boca for igual a do pai,
que detesta a própria boca,
no filho é maravilhoso demais
aquele detalhe que foi sempre hostilizado,
nasce no filho embelezado.
E assim, além do vínculo com o filho,
novo ser,
algo muda
no nosso modo de ver
a nós mesmos.
Quando a criança vai crescendo
começam os aborrecimentos:
vontade própria é um tormento!
E a criança grita,
como dizem por aí: faz pirraça.
E nós pais começamos a pensar bem
o que fazer com tal desgraça
Por aqui tentamos perceber
O que aquilo diz da criança
E a cada choro consentido
Que conseguimos ver sentido
E escutando e acolhendo
Tambem a nós nos recolhemos
Das crianças que fomos um dia
Nos olhamos com alegria.
E quando não somos tão felizes
E gritamos, estouramos
Também a nós mesmos açoitamos
Nao são meros deslizes
A dança flui no nosso pequeno
Não pondera os movimentos
Uns mais rápidos outros serenos
Uma plástica dos sentimentos
Livre livre livre
Que assim ele se preserve
Que o olho do mundo lhe seja mais leve
E possibilite a ele a espontaneidade
Pois nos roubaram a liberdade
Tornaram feia, sexuada, inválida
E vendo-o tentamos resgatá-la
Mudamos nossa voz
Arqueamos nosso corpo
Educamos nosso olhar
E recebemos a nós mesmos
No que somos e no que fomos
Psiquê e organismo
Nasce um filho. Que lindo!
É uma perfeição sem tamanho.
E se a boca for igual a do pai,
que detesta a própria boca,
no filho é maravilhoso demais
aquele detalhe que foi sempre hostilizado,
nasce no filho embelezado.
E assim, além do vínculo com o filho,
novo ser,
algo muda
no nosso modo de ver
a nós mesmos.
Quando a criança vai crescendo
começam os aborrecimentos:
vontade própria é um tormento!
E a criança grita,
como dizem por aí: faz pirraça.
E nós pais começamos a pensar bem
o que fazer com tal desgraça
Por aqui tentamos perceber
O que aquilo diz da criança
E a cada choro consentido
Que conseguimos ver sentido
E escutando e acolhendo
Tambem a nós nos recolhemos
Das crianças que fomos um dia
Nos olhamos com alegria.
E quando não somos tão felizes
E gritamos, estouramos
Também a nós mesmos açoitamos
Nao são meros deslizes
A dança flui no nosso pequeno
Não pondera os movimentos
Uns mais rápidos outros serenos
Uma plástica dos sentimentos
Livre livre livre
Que assim ele se preserve
Que o olho do mundo lhe seja mais leve
E possibilite a ele a espontaneidade
Pois nos roubaram a liberdade
Tornaram feia, sexuada, inválida
E vendo-o tentamos resgatá-la
Mudamos nossa voz
Arqueamos nosso corpo
Educamos nosso olhar
E recebemos a nós mesmos
No que somos e no que fomos
Psiquê e organismo
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