domingo, 28 de fevereiro de 2021

Momento 23

 Já estou indo. Já vou, já vou, tá? Eu sei que o corpo não espera. 

São 23h e tudo foi normal, mas agora, 23, e a vida parou. 23 anos, 23 horas, 23. Preciso de uma folga para enterrar. Preciso folga, que parem a morte. A morte é delinquente  (...) é bandida, é ameaça, é grito -Ah!!!

E por mais que eu proíba, ela insiste em matar. E mata de tristeza, da profunda tristeza da vida, do não saber fazer, amar, falar. De não saber perder. E nesse momento 23 da vida, antes que o dia acabe ou ainda cedo o bastante para não passar desprevinido pela vida - porque ela morre - se evidencia o amor. Amei? Amei o bastante? Fui amado? Fui amado o bastante? -essa também aparece. Tolice! Nunca fui amado o bastante - será que fiz tudo, que fiz o máximo, um máximo  tao grande quanto o meu amor? Poxa... e morreu mesmo assim?

Como sou limitado diante da minha grandeza de ser. Limitado. Morte.

O limite é a morte. Mas estou vivo. Vivo! Eu não vejo a morte. Ela que me vê.

Eu vivo, o dia passa. Amanhece, anoitece. A vida passa. Mas é porque existe um momento 23 que eu não vou esperar. Não dá pra esperar. O corpo não espera, e eu já vou.

(...)

Eu vou cuidar do meu amor, que arde, que explode, que é vida. E que tem limite.


23/11/2009. Meu pai faleceu dia 28/11/2009.

Penso em ter um espaço pra escrever e mostrar.



Mostrar... essa é a questão. Por um lado me encolho e não quero que me vejam, meu interesse é olhar. Olho quieta. E às vezes por trás das câmeras, mais que olho, tento capturar a imagem.

Daquilo que produzo, seja por escrita com letras seja pela escrita com luz (a photo grafia), em geral não mostro. É muito eu, muito isso, muito do que não se pode dizer. E justamente por isso vai escrito e no que escrevo e contorno vejo que não disse, ou que não foi tudo, ou tanto. Sempre me falta.

Apesar dos pesares há ainda outros temas a compartilhar. Esses sim mais práticos, mais fáceis, daquilo que aprendi como se faz ou como não se faz. Por exemplo, tenho gatas, Ai, que lindas, que meigas, como é bom ter seu carinho ao chegar. Aprendi um pouco a lidar com gatas, ao menos as minhas. Aprendi mais recentemente a como não se conduzir uma mudança de apartamento. Foi duro, mas eu aprendi. Essas pequenas coisas me animam mais de lhes dizer. Dizer a vocês que não me conhecem... E que, por fantasia minha, podem viver um pouquinho -bem pouquinho- melhor se souberem de algumas dessas coisas que eu aprendi. E eu também acho que posso aprender com vocês. E ser um pouquinho mais feliz até que é uma coisa boa.

É tudo tão ambivalente. Quero escrever pra mim. Não ser vista e não ser julgada. Não ser reduzida à sua opinião. Quero escrever pro mundo, oferecer algo do que sou. Ser alguém aos seus olhos mas não aceitar não ser pela mesma perspectiva. Ter os poucos a quem credito validade no dito, outros muitos que passem, que caminhem enquanto lhes for útil.

Abri um novo espaço, que fique aberto até saber o que faço.

11/12/2014