sábado, 19 de fevereiro de 2022

Catástrofe em Petrópolis

Água, água, água

Vai com a terra, vai com as pedras

E leva onde passa

Carrega mesmo, cria estrondos, limpa escostas e enche os rios.

Treme o chão, derruba casa, carrega ônibus, faz uma onda. Carro sobre carro.

Derruba os muros, carrega o chão, cria pânico na população.

Acaba a luz, não tem mais água, pra onde fugir? Não tem mais nada.

Água vai indo, vai diminuindo. E quanta destruição...

Noite de longas caminhadas. De violência de toda parte. A violência até da consciência que não capta a realidade.

De incertezas: você está bem? Ufa, eu também.

E de certezas: não atende, não sei onde está. Faz anúncio: desaparecida.

E se criam os pontos de apoio pra tanta gente que não tem mais chão nem colchão. Que não sabe bem como começar de novo. Como se faz isso? De onde partir?

Tem criança sem espaço, sem roupas, querendo brinquedos.

E tem brinquedos na lama, lançados, sem suas crianças.

Tem bombeiros, defesa civil, ambulância, polícia, exército, cachorros farejadores, helicópteros, máquinas, caminhões e mais caminhões, reportagem, curiosos. Muitos sons, uns cheiros, vertigem. Bipes e sirenes de toda sorte.

Choros convulsos, pernas bambas e braços fortes.

E procura por vivos. E procura por mortos. Querem ver os corpos, enterrar seus amores. E se falta quem faça se juntam pessoas e remexem na terra, puxa uma laje. Ali, logo ali vamos encontrá-la. E nada. E nada. 

E a desaparecida? Poxa, vida... falecida. Meus sentimentos. Lamento. 

A outra foi encontrada com vida! Mas sem o pai, a mãe e o irmão. Entubada, com terra no pulmão. Gritou na queda e foi encontrada muitos metros depois, sem roupas, meio enterrada.

Tem casa inteira onde não se pode entrar. Vai cair, vai desabar, vai ser esmagada por uma pedra, pela casa de cima, pela encosta desprotegida.

E entra e sai. Não, não cai. Não parece. Aposto que não. Um aperto no coração. E a chuva e o trovão. Sai. Sai. Sai. Correria, apreensão.

As minhas coisas. A minha vida. A minha história. Não!



terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Mulher não se cuida (3)

Uma linda mulher já tem cabelos brancos desde jovem. E, jovem, opta por não pintar suas madeixas.
Há uns poucos que valorizam. E verdadeiramente, acredito. Mas uma maioria crítica: parece velha. Outro tanto: não se cuida. 
É isso. Como uma maioria pinta os cabelos, a que não pinta é descuidada e de aparência envelhecida. Justo? Nunca. Conseguiremos treinar nossos olhos para enxergar uma mulher com seus cabelos naturais e ver beleza?
Essa fala de que a mulher que não se monta é a que não se cuida me aborrece. Mulher que se cuida:
Pinta as unhas
Pinta os cabelos, muitas vezes os alisa
Arranca seus pêlos da virilha, das axilas, das pernas, dos braços, do buço, das sobrancelhas, do queixo, de cima do dedão, da linha da barriga (esqueci alguma parte?)
Esconde as rugas
Não deixa gordura
Esconde os poros do rosto, amplia, curva os cílios, colore a boca, a bochecha, as pálpebras, contorna os olhos
Usa colares, brincos, pulseiras, tornozeleiras, anéis

E provavelmente faltou coisa pra essa mulher cuidar.

Se cuida, mulher. Pra não cair no corpo sitiado, comandado, na estética ordenada. Se cuida pra não ficar deprimida. 
Se cuida pra estar na vida. E na vida escolha quais dessas ordens você vai seguir pra estar inserida e pra se sentir querida.




Mulher não se cuida (2)

 Outro aspecto que eu super valorizava era o meu peso e aparência. Mulher bonita é a magra. Recentemente até vejo umas mulheres gordas e as acho bonitas. Provavelmente de roupas... meus olhos, semelhantemente aos seus, foram treinados a contemplar beleza em corpos magros.

E eu não conseguia fazer dieta. Mas queria muito ser magra. Então eu resolvi pular uma refeição. Foi a solução ideal pra mim. Chegava a noite e eu optava por dormir ao invés de comer, afinal dormindo eu não sentiria fome. O problema é que as vezes  eu corria pra escola de manhã contando que comeria por lá. E ficava tonta... e tinha certo orgulho de que meu método era razoavelmente eficaz.

Também me interessava a bulimia, já que a anorexia me parecia distante da minha realidade. Quando soube da existência dessa prática ou, em outras palavras, dessa doença, achei muito promissor! Eu seguiria sentindo o sabor das coisas, comendo compulsivamente mas depois poria pra fora. Um breve desconforto e eu poderia manter momentos de prazer. Por um tempo fiquei receosa de isso se tornar mesmo uma questão pra mim. Passou.

E por toda a minha vida sempre que emagreci fui considerada mais bonita. Inclusive por mim mesma. Não importa se estou anêmica, se passo tontura, se ponderava vomitar a comida, eu me cuidava. Manter um peso adequado é coisa de mulher que se cuida. Nas fotos estou ótima.

Mulher não se cuida (1)

 Qual mulher? Talvez todas.

Se cuidar no universo feminino significa o quê?

Ho ho ho! Significa uma montagem em cima do que se é.

Ainda me lembro de eu, pequena pequena, dizendo a uma amiguinha ainda menor que eu que o melhor, mais certo e mais bonito era descolorir os pêlos do braço.

Naquele dia aproximou-se de mim uma mulher, bem mais velha e eu a considerava muito bonita, pra me mostrar seu braço de longos pêlos finos e pretos afirmando que era possível ser bonito sem descolorir. Nem sei qual a minha opinião na época sobre aquela estética, mas lembro bem da sensação desconfortável de ser desmentida. O que aconteceu foi que tive que reavaliar minha verdade. Nunca me disseram que o braço bonito era o de pêlos descoloridos. No entanto, quando eu ia à praia notava que a preocupação das mulheres que eu gostava era  marca do biquíni e a descoloração dos pêlos. Talvez graças a esse evento eu abandonei logo a segunda prática, mas a primeira me acompanhou por longos anos. Eu achava linda a marca do biquíni, sexy. E eu não passava protetor solar a fim de tê-la. Podia ser vermelha, efêmera, mas eu cavava a marquinha do biquíni o mais que pudesse.

Também já passei muitas situações desagradáveis por causa de depilação. Porque, você sabe, ne? Mulher bonita, que se cuida, é depilada.

E aí você junta: depilação com água oxigenada (é o que se usa pra descolorir os pêlos). Arde. O sol da marca do biquíni na minha cara eu detestava. Mas sim, eu era puro elogio quando voltava marcada de sol, com pêlos descoloridos. Os carniceiros pela rua uivavam ao me ver passar. E eu me sentia bela.