Água, água, água
Vai com a terra, vai com as pedras
E leva onde passa
Carrega mesmo, cria estrondos, limpa escostas e enche os rios.
Treme o chão, derruba casa, carrega ônibus, faz uma onda. Carro sobre carro.
Derruba os muros, carrega o chão, cria pânico na população.
Acaba a luz, não tem mais água, pra onde fugir? Não tem mais nada.
Água vai indo, vai diminuindo. E quanta destruição...
Noite de longas caminhadas. De violência de toda parte. A violência até da consciência que não capta a realidade.
De incertezas: você está bem? Ufa, eu também.
E de certezas: não atende, não sei onde está. Faz anúncio: desaparecida.
E se criam os pontos de apoio pra tanta gente que não tem mais chão nem colchão. Que não sabe bem como começar de novo. Como se faz isso? De onde partir?
Tem criança sem espaço, sem roupas, querendo brinquedos.
E tem brinquedos na lama, lançados, sem suas crianças.
Tem bombeiros, defesa civil, ambulância, polícia, exército, cachorros farejadores, helicópteros, máquinas, caminhões e mais caminhões, reportagem, curiosos. Muitos sons, uns cheiros, vertigem. Bipes e sirenes de toda sorte.
Choros convulsos, pernas bambas e braços fortes.
E procura por vivos. E procura por mortos. Querem ver os corpos, enterrar seus amores. E se falta quem faça se juntam pessoas e remexem na terra, puxa uma laje. Ali, logo ali vamos encontrá-la. E nada. E nada.
E a desaparecida? Poxa, vida... falecida. Meus sentimentos. Lamento.
A outra foi encontrada com vida! Mas sem o pai, a mãe e o irmão. Entubada, com terra no pulmão. Gritou na queda e foi encontrada muitos metros depois, sem roupas, meio enterrada.
Tem casa inteira onde não se pode entrar. Vai cair, vai desabar, vai ser esmagada por uma pedra, pela casa de cima, pela encosta desprotegida.
E entra e sai. Não, não cai. Não parece. Aposto que não. Um aperto no coração. E a chuva e o trovão. Sai. Sai. Sai. Correria, apreensão.
As minhas coisas. A minha vida. A minha história. Não!