sexta-feira, 8 de julho de 2022

Pouca merda

 Tive o prazer de reviver a escuta do cotidiano alheio passeando de ônibus. As realidades, os olhares, as escutas tão diferentes, tão de outro mundo, há um fosso entre nós. E curto participar de alguns desses segmentos de vida como quem assiste a um filme.

Hoje o rapaz dizia eloquente que ao ter anunciado conhecer o juiz/desembargador/promotor (já não lembro ao certo a função) o outro olhou pra ele e pensou: "não é pouca merda não".

Para além de ele ter intuído o pensamento do outro, a expressão "não é pouca merda não" ficava ecoando na minha cabeça. Não é pouca merda, ou seja, é muita merda... e é melhor ser muita merda que pouca merda. E eu? Eh... acho que sou pouca merda. Mas prefiro ser pouca merda que muita merda, embora as vezes me seria bem útil ter uns contatos que me elevassem a uma merda maior.

A verdade é que conhecer o tal "juiz" era uma carteirada. Os homens brigavam segundo o relato que eu acompanhava. E percebi que era um tipo de situação que sempre me deixa muito ocupada psíquicamente, atormentada. Um tentava se sobrepor ao outro. Os fatos que cada um evocava se encavalavam e as palavras anunciavam que a civilidade estava ameaçada. Medo. E diante do risco de esfacelamento ele se aprumava, uma merda completa que era com seu amigo juiz. 

Como muitas conversas do tipo não tenho o desfecho. Já não me lembro se depois do "pouca merda" eu devaneei nesses pensamentos de Ana ou se voltei a me concentrar em minha leitura ou se o papo teve outros rumos, desceram da condução, enfim.




Eu sou apenas um rapaz latino americano - Belchior

Principais resultados

Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas trago de cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino tudo é maravilhoso
Mas trago de cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino tudo é maravilhoso
Tenho ouvido muitos discos conversado com pessoas
Caminhado meu caminho
Papo, som, dentro da noite
E não tenho um amigo sequer
Que ainda acredite nisso não
Tudo muda
E com toda razão
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas sei que tudo é proibido
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido até beijar você no escuro do cinema
Quando ninguém nos vê
Mas sei que tudo é proibido
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido até beijar você no escuro do cinema
Quando ninguém nos vê
Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer
Ao vivo é muito pior
E eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco
Por favor não saque a arma no "saloon"
Eu sou apenas o cantor
Mas se depois de cantar
Você ainda quiser me atirar
Mate-me logo à tarde, às três
Que à noite tenho um compromisso e não posso faltar
Por causa de vocês
Mas se depois de cantar
Você ainda quiser me atirar
Mate-me logo à tarde, às três
Que à noite tenho um compromisso e não posso faltar
Por causa de vocês
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto
Nada, nada é misterioso, não
Na na na na na na na na

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Pensamento, voa!

 Ainda me sinto jovem demais, inexperiente demais, com poucas habilidades e certezas. 

Farei 36 anos esse ano. Encaro minha existência com razoável desprezo. Acho dificil arriscar outra existência mais digna pra mim mesma. Mesmo percebendo que estou na minha oportunidade de existir e que, por pior que seja o resultado, o máximo que me acontece é o não existir.

Noto que aprendi algumas coisas e que penso de uma forma da qual me orgulho. Sinto-me menos presa a questões aparentemente menores mas por ali algumas me abocanham. 

Entendi que entre eu e o dono do mundo ou o mais vil cidadão há muitas diferenças, mas que no básico somos a mesma coisa. Os anseios humanos, as fragilidades, o que importa... é igual. Mas diante das aberrações da realidade se faz diferente com isso que é o mesmo.

Esse amontoado de órgãos orquestrados que funcionam mais ou menos do mesmo modo e que nos governam, dos quais somos reféns e senhores, eles somos nós. E não somos. Ou somos? Essa fagulha que pensa e sente, dependente de um cérebro.

Quero que a vida me queira. Mas as vezes desdenho dela. E a quero. E nem tanto.

Eu quero andar com a minha confortável calça rasgada. Sentir-me bela com todos os pêlos que meu corpo me deu e sem me ferir para extrai-los. Curar-me de acometimentos com as ervas da natureza, sem laboratórios. Aprender a gostar dos alimentos certos, com os quais meu corpo se alegra em silêncio. Sou ludibriada pelos sabores que meu corpo rejeita secretamente e a longo prazo, mas se alegra imediatamente, efusivamente. Anseio por ser acolhida nas minhas incertezas, que são tantas. Quando olho pra mim vejo uma moça cheia de ideias, cheia de vontade, cheia de capacidades e querendo se dar. Insegura, cheia de medos, olhando pras incompetências que se estabelecem com inveja. 

E sonho com o momento em que eu me baste mais. Preciso que não seja mais só sonho. Tenho 36 anos, quase.