Tive o prazer de reviver a escuta do cotidiano alheio passeando de ônibus. As realidades, os olhares, as escutas tão diferentes, tão de outro mundo, há um fosso entre nós. E curto participar de alguns desses segmentos de vida como quem assiste a um filme.
Hoje o rapaz dizia eloquente que ao ter anunciado conhecer o juiz/desembargador/promotor (já não lembro ao certo a função) o outro olhou pra ele e pensou: "não é pouca merda não".
Para além de ele ter intuído o pensamento do outro, a expressão "não é pouca merda não" ficava ecoando na minha cabeça. Não é pouca merda, ou seja, é muita merda... e é melhor ser muita merda que pouca merda. E eu? Eh... acho que sou pouca merda. Mas prefiro ser pouca merda que muita merda, embora as vezes me seria bem útil ter uns contatos que me elevassem a uma merda maior.
A verdade é que conhecer o tal "juiz" era uma carteirada. Os homens brigavam segundo o relato que eu acompanhava. E percebi que era um tipo de situação que sempre me deixa muito ocupada psíquicamente, atormentada. Um tentava se sobrepor ao outro. Os fatos que cada um evocava se encavalavam e as palavras anunciavam que a civilidade estava ameaçada. Medo. E diante do risco de esfacelamento ele se aprumava, uma merda completa que era com seu amigo juiz.
Como muitas conversas do tipo não tenho o desfecho. Já não me lembro se depois do "pouca merda" eu devaneei nesses pensamentos de Ana ou se voltei a me concentrar em minha leitura ou se o papo teve outros rumos, desceram da condução, enfim.