Essa caminhada é um sonho há muitos anos. Sempre pareceu tão grande, tão longe, tão difícil. Hoje é realização, experiência e vontade de voltar.
Precisava me preparar, ter energia e pernas pra subir muito, precisava saber o caminho, entender os riscos, organizar tantas coisas. Foi o projeto mais ousado após o nascimento dos filhos.
Precisava de uma parceria. Eu não topava ir sozinha e o Diogo foi a melhor companhia que eu poderia ter tido. Eu fiquei tão feliz de estar com um amigo tão querido e termos também um tempo rico e intenso de trocas.
A subida não foi fácil mas dá vontade de dizer que foi. Não pensei em desistir. Soube, um passo após o outro, que eu conseguiria. E a alegria dessa certeza junto às belas paisagens energizavam ainda mais o caminhar. A cada momento que eu pensava que agora sim a subida ficaria mais suave vinha outro trecho íngreme. E olhava pra trás, já havia vencido tanta altura, estava indo tão bem! A cada marco que chegava eu pensava: "eba! Já! Achei que seria pior". E assim fui indo até o Chapadão.
Quanto mais em cima mais silêncio e beleza. As montanhas que víamos como gigantes foram ficando em nossa altura até as olharmos de cima pra baixo. A vegetação que vai ficando menos densa, as flores singelas de altitude, beija-flores e outros passarinhos que nos acompanhavam pelo caminho faziam tudo valer a pena. Houve um momento que nos meus devaneios me parecia que a morte por ali seria plena, que era o sentido em si mesmo, que nada mais era realmente importante. Sentia-me parte da natureza e a natureza ecoava dentro de mim.
Chegando ao Chapadão, animados, perguntamos a uns passantes sobre o Mirante Graças a Deus. Estávamos em dúvida se ele já havia passado. Responderam e tal mas perguntaram: "estão sabendo da mudança de tempo né? Vem temporal por aí. É... mudança de tempo no meio da madrugada. Não pense assim não, vai dar tudo certo.". Acabou o meu passeio e a minha alegria. Eu esqueci, só esqueci de ver a previsão do segundo dia. Vi da subida mas não do segundo dia. Achei que tinha capa de chuva na bolsa. Diogo não tinha porque, como ele disse: confiou em mim. E confiança dele martelava na minha cabeça. Como também martelava a culpa de uma vida misturada com incompetência, irresponsabilidade e dúvidas sobre ser e não ser alguém.
Fiquei mais cansada. Minha mente não desfrutava mais. Pesava a manhã de brigas em casa entre as crianças e o marido irritado com a corrida da manhã e as mudanças de planos para o início da empreitada, a sensação que pairava já há uns dias de que tudo poderia dar errado a qualquer momento. Um dito que exigia: se prepare melhor pra isso. E estava dando errado por minha causa. Um pouco eu me sentia dando errado como em tudo. Eu e errado bem imbricado.
Apesar de dentro de mim já estar chovendo, havia sol, continuávamos indo muito bem, a tarde ia ficando mais alaranjada e o castelo aparecereu já não tão longe, imperando misteriosamente em sua grandeza. Desconfiava o quanto meu amigo Diogo estava de fato em paz ou o quanto o fazia para diminuir meu pesar. Ponderava dentro de mim o quanto de aborrecido ele poderia estar comigo, o quanto dele estava ali por mim e não por auto-realização e ainda o quanto ele já preferia nem ter subido no sol, quem dirá saber de passar perrengue com chuva. Ele era suave o tempo todo.
E eu era a responsável por todo risco que pudéssemos passar. E por todas as preocupações de terceiros, o trabalho do marido no dia seguinte que dependia da minha presença junto aos filhos, o ter filhos pra criar. O papel de responsabilidade por mim e pelo Diogo que eu assinara na entrada do parque... que idéia subir uma montanha dessa! Onde eu estava com a cabeça?!
Quando chegamos fomos recebidos por um jovem rapaz que nos sinalizava o caminho. Era o Uriel, super amável e quem mal conheci logo anunciei: estou preocupada com a chuva, não estávamos contando com isso.
Minha mente inquieta procurava soluções enquanto o Diogo e o Uriel preferiam esperar que cada coisa acontecesse em seu tempo: e se só chover amanhã a tarde? Não pense assim...
Mas eu penso. Minha cabeça é um furacão. Ainda mais se criei um problema, eu que busco ser tão correta, fixo atrás de uma solução. E além de procurar uma solução reproduzia ao mesmo tempo que desviava dos mais diversos xingamentos, desvalias, auto-depreciações. Os que tivessem sabido da minha empreitada, todos em eco me acusando de maluca, alguns até com um sorriso no rosto e carinho, outros com desdém e repreensão.
Perdemos o por do sol montando barraca. Eu que queria tanto já não fazia questão de nada. Quase não fui ver o castelo de perto. Ia ter perdido o melhor do passeio. Felizmente o Diogo iria com ou sem mim e o acompanhei. Minha lanterna mostrava o bizarro daquela existência gigantesca e tão milimetricamente posicionada cada uma das pedras monumentais, era de uma beleza indizível, era um presente estar ali.
Tentava manter o bom humor apesar de por dentro estar destruída. Voltamos pra perto do abrigo e o casal que subira na mesma tarde passou por mim. Troquei com eles: vocês estão sabendo da chuva? Eles estavam sabendo e estavam preparados pra chuva, não me deram muita bola não.
Dormimos ainda sob as estrelas, algumas nuvens. Eu estava cansada. O corpo bem moído da subida mas menos do que eu esperava, os ombros um pouco magoados com o peso, mas nada significativo. Não foi difícil desligar, mas assim que as primeiras gotinhas bateram no teto da barraca eu as ouvi: que merda! Agora sim o caos estava se anunciando de forma mais presente. Pergunto ao Diogo: agora realmente está chovendo, o que vamos fazer? E ele seguiu impassível: vamos aguardar para ver como estará de manhã. A impressão que eu tinha era de que ele só se preocuparia conforme as coisas acontecessem. Enquanto eu buscava saídas e uma definição clara de qual seria a forma de enfrentar aquela situação. Minha paz não estava em esperar o meu destino mas sim em costurá-lo com o máximo de ferramentas que eu pudesse. Dormi de novo. Acordava com a ventania sacodindo a barraca. Em alguma acordada mais longa eu encontrei umas saídas: não descer naquele dia, mas me preocupava a comida que não era muita; solicitar um guia para nos ajudar na descida (mas será que eu conseguiria essa proeza assim pra mesma hora e sem sinal de celular?), criar meios de reconhecer um caminho pra voltar se precisássemos. Pensava no André, meu companheiro, tanto preocupado como super crítico a mim. Pensava que ele podia aparecer na portaria do parque pra saber noticias e me perguntava se ele me arrumaria uma solução a distância. Meu maior receio era descermos e isso implicar em risco de vida: nos perdermos no Chapadão, molhados, no frio... que angústia! Uma amiga me contara uma história desse tipo: pessoas no Açú perdidos na chuva e no frio quase morrendo de hipotermia. Pensava com meus botões: que besta eu estar passando por isso!
Em algum momento Diogo foi ao banheiro e ao abrir a porta víamos que a chuva não era pouca e tinha bastante neblina.
Muita chuva e muito vento fizeram a barraca ceder à água, que foi entrando lentamente pelas paredes da barraca. O vento sacodia as paredes e jogava agua na nossa cara. Fui me ajeitando no saco de dormir de modo a conseguir descansar apesar de. Umas 3 da manhã eu estava bem acordada e Diogo me perguntou se eu ainda pretendia dormir, disse a ele que não sabia. Perguntou se eu queria cantar. Quis. Foi das coisas mais lindas que vivi na vida. A chuva lá fora, o vento que assusta, um nevoeiro danado, muita indefinição e medo e cantamos, revezadamente. Cantamos a chuva, o vento, as águas, os orixás e tudo que eu amo cantar. Conheci canções novas, todas belas, todas minhas. Isso que é viver. Não chorei, mas foi muito emocionante pra mim. Acabei depois de muitas músicas cochilando mais um pouco.
Ainda estava escuro quando percebi que algumas das minhas coisas estavam molhadas. Comecei a proteger outras pra manter o máximo de coisas secas. Mas ainda antes de 7 horas o saco de dormir, que era muito bom, começava a estar molhado ja mais internamente. E o piso fora do isolante também estava todo comprometido, minha calça ja tinha um ponto da coxa molhado. Eu não queria ficar ali mais nenhum minuto. Decidimos que íamos falar com o Uriel. Diogo ia ao banheiro e eu ia com ele pra já falarmos de uma vez. Mas ele não quis. Pediu-me que aguardasse pois nossos "estados mentais" eram diversos e ele temia que brigássemos. Eu não me via próxima dessa realidade, mas respeitei e aguardei. Só quis conferir: "você vai dizer a ele que está tudo molhado?", ele responde "não, porque não está", continuo: "ok, mas você vai dizer que está quase tudo molhado e que vamos nos molhar todos em breve?", ele concordou. Em pouco tempo ele retornou dizendo que podíamos ir pro abrigo. Peguei minhas coisas principais aliviada.
Fomos recebidos com saco de dormir seco, café quente e muita tranquilidade. Em pouco tempo descobri que ele sugeria que nós descêssemos e que levaria a gente até certo ponto e daria orientações. Sugeriu também que esperássemos o casal acordar porque melhor seria descermos os 4 juntos e que ele aconselharia o casal a não seguir a travessia pois era risco de vida.
Soube também que tinha 3 pessoas subindo. 3 pessoas subindo... 3 pessoas que escolheram subir com chuva, sem grandes vistas, sem abrigo. E o casal que seria convencido a não continuar. Sabia que eu me considerava uma irresponsável por não ter visto a previsão do tempo e também que entre eu e aquelas pessoas havia o abismo do conhecimento, elas deviam saber bem o caminho. Apesar disso, o que eu vivia com certo terror elas viviam por escolha. E o que eu queria era conseguir escolher ficar bem, continuar vivendo o sonho realizado, eu que há anos queria estar ali.
O casal demorou muito a decidir o que faria e resolveram dormir lá ainda naquele dia. Cheguei a cochilar no saco de dormir seco no quarto. Diogo pegou 3 livros que levara e escolheu um pra ler.
Acordei do cochilo com a ideia da capa de chuva que eu montaria. Consegui 3 sacos de lixo grandes e me pus a trabalhar. Ficou bom. Foi chegando a hora de o Uriel nos levar e fomos desmontar a barraca. Separamos coisas secas de molhadas. Ponderamos se conseguíamos deixar umas coisas pra trás a fim de facilitar a descida, o que ele assentiu.
Demos continuidade com o Uriel, que nos levaria até o mirante Graças a Deus. Pediu que fôssemos na frente para avaliar como nos saíamos. Acho que fomos tão lentos que ele logo assumiu a liderança o mais rápido que dávamos conta. Também muito no início ele nos orientou que não evitássemos as poças, mergulhássemos logo os sapatos e seguíssemos em frente. Foi muito bom! Gostoso. Muito menos desconfortável do que eu imaginava. Uma coisa é ficar com pé molhado na cidade, outra é descer 8km de vez em quando mergulhando o calçado.
Quando chegamos no Mirante, por algum motivo ele nos levou até o inicio da trilha, atravessando todo Chapadão com a gente. Ou achou que tinha muito nevoeiro ou quis mesmo me deixar mais tranquila. Ou não quis correr o risco de ter que sair mais tarde à nossa procura. Enfim! Quem sabe um dia saberei.
Descemos muito bem. Aproveitando as paisagens, aos pulos, com corridinhas e bom-humor. Um ou outro escorregão aconteceu, mas muito poucos e sem machucados, a descida era muito grata, sem oferecer risco ou dificuldade. Dava pra ter voltado com mais coisas...
Assim que consegui sinal alinhamos a chegada com o André. Deu tudo certo. Foi incrível.