quinta-feira, 11 de maio de 2023

Um novo tempo

Tenho encontrado pessoas para caminhar comigo
E aproveitar das belezas e da energia de estar viva sobre um planeta
Sigo com saudades das que sempre caminharam
Também dos outros solos, ares, pensamentos
Faço da escola a minha escola
Onde ensaio relações menos doentias
Criando expectativas mais realistas
Presente com mais clareza do meu lugar no mundo
E percebendo os muitos lugares dos que comigo estão
Dando as mãos quando os joelhos se dobram
Dobrando os joelhos, agradecendo, pés no chão
Oferecendo meu ser como sempre ou como nunca
Sendo recebida como nunca fui. Ou como sempre?
Um novo tempo, apesar dos perigos...

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Um crime chamado violência obstétrica

 "a ideia de violência obstétrica, termo que vem sendo criticado, pois revela aquilo mesmo que se quer esconder (...) embora não esteja tipificado como crime ... " 

Não esteja tipificada como crime

AINDA não esteja tipificada como crime

Ainda não...

Categorizada como crime.

Crime!

É disso que se trata quando uma mulher, de posse de seus sonhos e fantasias, investimentos, tanto amor e dores do parir é submetida à tortura obstétrica. O momento da luz se torna escuridão.

- Mamãe, como foi o dia que eu nasci?

E não sei o quanto conto, pois a resposta do que me atravessa é de tanto pesar e tristeza que acho injusto dizê-lo a quem não merecia que assim tivesse sido, a quem escolho, com razoável esforço, relatar os momentos preciosos, únicos e belos que também se fizeram presentes por ter sido seu dia de chegada.

Mas de toda violência à mulher que se denuncia com clareza hoje, essa foi a que me atingiu de forma mais avassaladora. Ainda que eu perceba que a violência à mulher é feita em maiores ou menores doses desde nosso nascimento.

E após essa vivência no meu corpo, em algumas muitas situações tive que validar meu discurso para mim mesma porque nos meus próximos minha fala foi invalidada, questionada, havia desconfiança. Subia meu sangue, representificava a cena de um crime. Um crime sem nome próprio, sem lugar, será que foi? E eu grito que sim, que não pode, que é absurdo. Como podem vocês não me ouvir?

Hoje, quando li aquela frase, eu entendi mais um pouco do que se trata o que me aconteceu: crime! E essa palavra, um significante de peso, deu mais um rumo para aquele acontecimento. E revisitando meus processos internos me entendo: se quis matar a médica foi porque na verdade nada me amparava pela via do simbólico, da ordenação social. Não é crime. Ainda. Ninguém fez nem fará nada, o que fica é um real sem destino. Sorte a minha - e dela também - que diante do inefável eu mesma fui dando nomes, contornos, saindo da passionalidade, tentando caminhar. Mas agora estou tendo mais clareza. Ainda não é crime... um dia será? O que me aconteceu foi algo de um social adoecido, grotesco, violento. Pra além de ato, pra além do que é em si, faltava uma palavra de destino, que quem teve de dar fui eu, mas ainda não tinha nome. Que um dia fique bem claro, que se possa reivindicar direitos, que os destinos estejam escritos, que haja interdição. Violência obstétrica é "CRIME"!


Obs: o trecho citado é do livro "Como criar filhos no século XXI", p.85, de autoria da Vera Iaconelli.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Elas e eu

Uma parte de mim é transtorno
Outra borboleta
Num dia deixo o sol
Me aquecer a face e a alma
Outro dia grito, me irrito
Me emociono
Funciono?
As vezes sou pensamento
Avôo
Noutras firmamento
Piso forte

Quantos nomes me dou?
Quantos nomes me dão?
Que me falta afinal?
Em que falto ou pra que sirvo?
Outro dia fiz um colar
Disseram que parece comigo
Será que alguém quer comprar?

E quantos corres!
Pego meus filhos
Com um dos olhos sorrio
Com o outro choro
Vou pro mar, vou caminhar, vou...
Às vezes reprovo
Com o que pareço?
De repente até me  esqueço

Nem eu me reconheço?
Procuro um nome novo
Que me dê um lugar no mundo
Aprendendo a ter apreço
Pelo que fui, sem nome, sem endereço
Ouço, me escuto: viva
Planejo, pelejo, transmito
Meu eu quebrado
Meu ser cansado
Apurando o espírito