sexta-feira, 5 de maio de 2023

Um crime chamado violência obstétrica

 "a ideia de violência obstétrica, termo que vem sendo criticado, pois revela aquilo mesmo que se quer esconder (...) embora não esteja tipificado como crime ... " 

Não esteja tipificada como crime

AINDA não esteja tipificada como crime

Ainda não...

Categorizada como crime.

Crime!

É disso que se trata quando uma mulher, de posse de seus sonhos e fantasias, investimentos, tanto amor e dores do parir é submetida à tortura obstétrica. O momento da luz se torna escuridão.

- Mamãe, como foi o dia que eu nasci?

E não sei o quanto conto, pois a resposta do que me atravessa é de tanto pesar e tristeza que acho injusto dizê-lo a quem não merecia que assim tivesse sido, a quem escolho, com razoável esforço, relatar os momentos preciosos, únicos e belos que também se fizeram presentes por ter sido seu dia de chegada.

Mas de toda violência à mulher que se denuncia com clareza hoje, essa foi a que me atingiu de forma mais avassaladora. Ainda que eu perceba que a violência à mulher é feita em maiores ou menores doses desde nosso nascimento.

E após essa vivência no meu corpo, em algumas muitas situações tive que validar meu discurso para mim mesma porque nos meus próximos minha fala foi invalidada, questionada, havia desconfiança. Subia meu sangue, representificava a cena de um crime. Um crime sem nome próprio, sem lugar, será que foi? E eu grito que sim, que não pode, que é absurdo. Como podem vocês não me ouvir?

Hoje, quando li aquela frase, eu entendi mais um pouco do que se trata o que me aconteceu: crime! E essa palavra, um significante de peso, deu mais um rumo para aquele acontecimento. E revisitando meus processos internos me entendo: se quis matar a médica foi porque na verdade nada me amparava pela via do simbólico, da ordenação social. Não é crime. Ainda. Ninguém fez nem fará nada, o que fica é um real sem destino. Sorte a minha - e dela também - que diante do inefável eu mesma fui dando nomes, contornos, saindo da passionalidade, tentando caminhar. Mas agora estou tendo mais clareza. Ainda não é crime... um dia será? O que me aconteceu foi algo de um social adoecido, grotesco, violento. Pra além de ato, pra além do que é em si, faltava uma palavra de destino, que quem teve de dar fui eu, mas ainda não tinha nome. Que um dia fique bem claro, que se possa reivindicar direitos, que os destinos estejam escritos, que haja interdição. Violência obstétrica é "CRIME"!


Obs: o trecho citado é do livro "Como criar filhos no século XXI", p.85, de autoria da Vera Iaconelli.

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