quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Lanterna

 Hoje estou sozinha. Fazendo café para mim mesma. Eu gosto de café. 

Fiz um pouco de tudo que faço nessas manhãs sem filhos, sem marido, só eu. Resolvo, produzo, limpo, escuto. Hoje escutei psicanálise e música. Eu sempre escuto psicanálise e música. Entrevistas...

Eu estou na lanterna dos afogados. Que tipo de problemas nosso corpo comporta? Quais problemas eu vou eleger para validar, exprimir e escancarar que eu sofro?

Quando eu não quis ter filhos era porque eu sabia a dor de viver.

Quando eu quis ter filhos foi porque eu apostei na beleza de viver.

E venho querendo observar como que viver significa, apenas, manter-se vivo. No sentido de que não há regra senão a de ocupar o próprio corpo. Corporificar.

Eu sempre quis, em algum lugar, pôr um fim na minha infeliz existência.

Eu sempre quis uma existência mais feliz.

Imaginava que ser feliz era um estado de plenitude. E é, né? Cadê?

Fui aprendendo a ver beleza na falta, nessa desgraça da existência. Mas, é bem verdade, é preciso um olhar. O olhar que dá corpo. A beleza está na subjetivação, na validação de algo. E o horror é seu oposto: a zerificação e invalidação daquilo que somos.

Quando meus filhos me culparem pela vida serei forte. Eu, culpada e glorificada, fonte de gente. Eu que povoo o mundo. 

Adiei meu suicídio por uns anos. Tem feito sentido. Vou seguir subindo a montanha. Superando as pedras que rolam se não me assolam. Buscando escutar e me encontrar. 


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Ana Luiza

 Meu nome é Ana Luiza. Dos meus pertencimentos vieram os nomes Ferraz, da família materna, Taves da família paterna e Bukowitz, marcando minha escolha amorosa e enlace no casamento. Quando me casei podia escolher como ficaria meu nome. Logo resolvi que não tiraria nenhum dos sobrenomes antigos. Não sabia se colocaria ou não o sobrenome novo. Me disseram: coloca!

Depois me arrependi do sobrenome novo. E reafirmei. E ponderei. E gostei. Mas fato é que meu nome mais nome ou, melhor diria, meu nome de frente é Ana Taves.

Apesar disso, meus pais às vezes me chamavam de Ana Luiza. Em geral era grave. Meu pai me chamava de Luiza eventualmente. Quando aparecia um paciente novo eu me identificava como Ana Luiza, queria que me levassem com alguma seriedade. Um amigo muito querido também muitas vezes me chama de Luiza. Adoro. Nem sei explicar... Acho que é porque o amor entre nós não está em questão. E, certo de quem sou, chama-me Luiza.

Quando eu era pequena, bem pequena, tipo ontem, eu era uma Ana Luiza que estudava com outra Ana Luiza. Ela, a Aninha. Eu, a Ana Luiza. Ela, lider das crianças, tão doce, tão graciosa. Eu, sozinha, procurando amigos, eu cheia de inveja da Ana Luiza, a Aninha.

Mudei de colégio e logo tive a chance de me tornar a Ana. Sem Luiza, claro! A Ana cujo apelido natural seria Aninha. E essa história já contei no início do blog. Mas eu queria era falar outra coisa. Esses dias eu estava com umas pessoas. Umas pessoas a quem estou me entregando aos poucos e cuidadosamente. Que sabem que me chamo Ana. Um dia se surpreenderão ao saber que sou Ana Luiza. E lá pelas tantas falaram da Ana. Outra, mas não notei. E eu disse algo que refutava o que estava sendo dito sobre mim. Eu, a Ana. Mas logo disseram que era outra. E o cabra seguiu dizendo: Ana tem um monte!

Ora bolas! Acredita que essa frase tá aqui reverberando? Já sou Ana há bem uns 30 anos. Será agora que vou me chamar Ana Luiza pra ser menos um monte e mais eu? Ser a Aninha já não me fascina. Mas ser Ana Luiza me leva num lugar que não reconheço. Ana tem um monte é mentira! Aposto! Ainda mais Ana Aninha. Ana Taves. Ana eu.