quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Lanterna

 Hoje estou sozinha. Fazendo café para mim mesma. Eu gosto de café. 

Fiz um pouco de tudo que faço nessas manhãs sem filhos, sem marido, só eu. Resolvo, produzo, limpo, escuto. Hoje escutei psicanálise e música. Eu sempre escuto psicanálise e música. Entrevistas...

Eu estou na lanterna dos afogados. Que tipo de problemas nosso corpo comporta? Quais problemas eu vou eleger para validar, exprimir e escancarar que eu sofro?

Quando eu não quis ter filhos era porque eu sabia a dor de viver.

Quando eu quis ter filhos foi porque eu apostei na beleza de viver.

E venho querendo observar como que viver significa, apenas, manter-se vivo. No sentido de que não há regra senão a de ocupar o próprio corpo. Corporificar.

Eu sempre quis, em algum lugar, pôr um fim na minha infeliz existência.

Eu sempre quis uma existência mais feliz.

Imaginava que ser feliz era um estado de plenitude. E é, né? Cadê?

Fui aprendendo a ver beleza na falta, nessa desgraça da existência. Mas, é bem verdade, é preciso um olhar. O olhar que dá corpo. A beleza está na subjetivação, na validação de algo. E o horror é seu oposto: a zerificação e invalidação daquilo que somos.

Quando meus filhos me culparem pela vida serei forte. Eu, culpada e glorificada, fonte de gente. Eu que povoo o mundo. 

Adiei meu suicídio por uns anos. Tem feito sentido. Vou seguir subindo a montanha. Superando as pedras que rolam se não me assolam. Buscando escutar e me encontrar. 


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