terça-feira, 12 de março de 2024

Verdade

Eu quero uma verdade. Mas não toda. A minha, talvez. Não me diga pois posso não entender as palavras. Elas são dúbias, elas são falhas. Elas mentem. E eu minto também. Minto pra mim. Minto para todos. Fantasio-me. E você? Com que roupa vestiu-se hoje? 

Procura-se a Ana. Sem roupas, só a Ana. No dia de minha morte poderia entregar-me assim. Sem as palavras que me recobrem. Sem as roupagens que me escondem. Sem o pudor e os desconfortos de existir assim, crua.

Doem-me para uma universidade. E lá falarão de mim os jovens. Nada terei a dizer. Já terei ido. Terei dito tudo. Mas uma parte da minha verdade ficará na maca. E olharão pra ela sem entender nada. Como diariamente eu olho e não olho. Entreguem com meu corpo meus escritos. E ao menos alguns olharão para mim e serei eu. Chorarão minha partida?

Com tanta idade procuro minha substância e vejo que me encontro e me perco nessa busca. Às vezes tudo faz sentido. Às vezes nada faz sentido. E em geral estou boiando entre um tanto de sentido e outro tanto de sem sentido. É incrível como a verdade se esconde. Acho que tenho verdades contrastantes. Mas escolho a mais lógica e sigo, olhando pra ilógica com bastante interesse. Queria viver todas as minhas verdades. Mas o mundo me pede coerência. E eu também. 

Encarcero-me numa verdade. E parte do brilho diminui. É confortável, covarde, limitada, mas que escolha fiz e me fizeram? Eis que aqui estou. Tenho um tempo, uma escuta, o meu momento. E consigo permitir que o vento me sopre de tantos pensamentos.


sexta-feira, 8 de março de 2024

Mulher

 A mulher não existe, dizem uns por aí.

Essa mulher que não existe é A Mulher.  Diferente do homem com H maiúsculo, que cada vez mais mulheres dizem que não prestou... Coitados. Acreditaram nessa falácia da masculinidade. 

Mas a mulher com M maiúsculo a gente vem procurando por aí. E não acontece mesmo. E até as próprias mulheres ficam ali ditando as faltas a ser mulher. Ainda me lembro, na minha análise, eu procurando a substância que me garantia o meu lugar feminino...

E hoje é o Dia da mulher, que se acha e se perde reforçando o seu lugar. Existe, pede garantias, se empodera, luta pela vida. A sua e a de seus filhos. Povoa o mundo.

Mais um ano se passando. E a minha busca também é a delas. Os mesmos lamentos. Uma luta. 

Nesse vir a ser, penso  que eu queria ter...

a fé da minha mãe
o capricho da tia Neiva
a liberdade da tia Ivone
a organização da tia Sandra
a clareza do próprio lugar da tia Clara
a fineza da avó Emília
a dedicação da sogra Natercia
a entrega profissional da cunhada Tatiana
a sensibilidade da cunhada Biah
a praticidade da Aline
a sensatez da Angelita
a autenticidade da Juliana
a articulação da Janete
a força da Luciana
a persistência da Larissa
o comprometimento da Rosana
a disposição da Monika
a maternagem da Josi
a receptividade da Michelle
o humor da Patrícia
a segurança da Jaqueline
a disciplina da Bruna
o acolhimento da Rebecca
a inquietação da Camila
a cultura da Sônia
a oratória da Denise
a sagacidade da Cristiane
a clareza da Bianca
a sinceridade da Rosi
a gentileza da Sabrina
a ética da Ivana
a resiliência da Erediana
a alegria da Priscilla
o olhar da Maria
a delicadeza da Marianna 
a firmeza da Carol
a serenidade da Lélia...

E tantas outras queridas eu poderia citar com suas características marcantes. E como que não cabe num ser toda essa potência e multiplicidade do feminino. A gente vai se descobrindo. Pensando o que fizeram de nós e conosco e o que queremos de nós e conosco. Tenho tirado umas fotos minhas. Só minhas.





sexta-feira, 1 de março de 2024

Trabalho, desejo e dinheiro

Uma boa parte da minha vida foi tentando dizer que meu valor não está no dinheiro que (não) ganho.

O valor das coisas não é possível de ser traduzido apenas por dinheiro. Muito menos o de pessoas.

É possível ser feliz com pouco dinheiro. É possível fazer valer a pena...

A precariedade, se não é muita, movimenta.

Venho fazendo uma vida que vale a pena com pouco.

E ei de me convencer que, se eu tiver a chance de ter algum dinheiro, que eu poderei ser feliz também. 

Que eu seguirei não sendo o dinheiro que recebo.

Que sou digna de receber algum dinheiro.

Eu quero ouvir o impossível. E saber fazer com o não-saber. Acertar onde não vi. 

Nada de terrível há de acontecer, apesar do medo. Será incrível. Quando a gente caminha na direção do desejo dá um frio na barriga. 

E entre o pesadelo de cair no abismo e o sonho de ser alguém, a escolha de uma profissão sem garantias, gabaritos e fórmulas.

Que quero eu do mundo? Que quero eu de mim? 

Eu vou! Eu vou! 

Caminhando contra o vento... Eu vou. Por que não? Eu vou.