Naquele dia eu quase não sabia meu próprio nome. Com medo de me perder de mim de vez me ancorei no afeto. E como todo bom amor, ele me daria o melhor, seu ser. Pedi: por favor, não me dê. O que eu quero nem eu mesma sei. Se me ofereces uma resposta eu saberei que é a sua. Para um problema desse tamanho é preciso que na resposta eu possa assumir autoria. E pedindo apenas companhia recebi a presença, um presente. Poucas palavras, muita verdade. Vamos cantar? Sim. Sempre.
E num momento de abertura me pareceu que uma música era a minha resposta.
Porque depois de muitos dias chorando possibilidades, "todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou". O tempo urgia, dias vinham e iam e a resposta não se fazia clara mas até não tomar a decisão era ter decidido. "Mas tenho muito tempo, tenho todo tempo do mundo" para viver o que se apresentar. "Todos os dias antes de dormir lembro e esqueço como foi o dia", dias iguais, dias em que a gente chorava sem saber o que esperar, imaginando possibilidades e sem clareza diante delas. "Sempre em frente. Não temos tempo a perder" e chegaria o tempo de decidir. Decidir que o "nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo", que nosso filho era feito desse suor, dessa vida e investimento. Abrir mão disso seria concretamente um sangue amargo "e tao sério". Tão sério pra mim decidir por interromper a gestação. Tão terrível diante da nossa construção tão bonita e que desse "e selvagem! Selvagem! Selvagem" dos corpos, do encontro, havia dentro de mim um filho, desejado, idealizado e, naquele momento, o seu possível. E eu sabia que ele viria pleno, eu o via, eu o sentia. "Veja o sol dessa manhã tão cinza". Ele era o sol, ele era tudo, apesar das circunstâncias que faziam a manhã cinza. "A tempestade que cheha é da cor dos seus olhos castanhos". Castanhos... eram os olhos do meu filho. E a tempestade... Meu Deus! Quem saberia o que atravessamos? E cheia de coragem eu queria receber essa criança. "Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo", que meu filho não teria doença alguma, que eu não precisaria aprender a ser feliz com uma dificuldade desse tamanho. Mas tínhamos tempo se precisássemos. "Temos nosso próprio tempo, temos nossos próprios tempo, temos nosso próprio tempo" ainda faltava bastante para termos certeza do que seria nosso futuro. "Nao tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas" porque embora eu confiasse que viria essa criança maravilhosa, embora investir no meu ventre fosse a minha vontade e era querendo muito o nosso sonho, deixar as luzes acesas era saber que era melhor garantir, que o medo ainda nos pertencia no âmago. E, na verdade, toda gestação é uma caixinha de surpresa... nunca existiu garantia. "O que foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido, ninguém prometeu", ninguém nunca sabe qual a circunstância de nascimento de um filho ou que dificuldades irá enfrentar. Sempre virão dificuldades para vencermos. Mas antes, essa fantasia do filho perfeito é muito forte para todas. Ninguém planeja um filho pensando que pode cair em você a pequena possibilidade de algo fora do previsto acontecer. E passei a pensar que acontecesse o que fosse "nem foi tempo perdido... somos tão jovens" nós aprenderíamos a ser bons pais de uma criança da forma que ela viesse. "Somos tão jovens", temos a plasticidade necessária para inventamos felicidade diante dos percalços da vida. "Tão jovens! Tão jovens!", temos muito pra viver juntos, temos tanto construído apesar de tão jovens. Nada poderá fazer de nós tão infelizes que não possamos aprender a contornar, a usufruir, a viver de outro modo. Temos um ao outro e teremos o nosso filho. E ele virá pleno de saúde. Mas se não vier aposto: aprenderemos a ser felizes de novo.
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