segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Uma boa visita

Quase não nos vemos
Mas recebi hoje sua visita
Estranho em mim uma alegria
Diante da relação distante que temos

Não entendo por que me visita
E também não sei bem por que convido 
Contatos parcos, na superfície 
Pouco trocamos sobre a vida

Quando te vejo há um pouco dele
E você em mim também o vê 
Estaremos juntos em sua memória?
Estaremos juntos por uma lembrança?

Sou grata a você...
Por ter me recebido quando precisei 
Por ter sido você mesmo em sua família 
Por ter me levado, me buscado...
Na sua casa aprendi muito
Sobre outros universos
Outras formas de ser
Vi seus filhos maduros, ainda jovens 
Vi sua postura na vida
Conversamos e trocamos algumas vezes
Na sua casa fazia a principal refeição do dia
E te falei de temas difíceis 
Ouvi sua forma de ver
Queria saber meu lugar pra você 

Nunca saberei

Mas te convidei 
Você veio 
Trouxe presentes tão bacanas
E conversou com meus pequenos
Esse seu sorriso, esse seu jeito bonachão 
Nao sei bem o que somos
Será que cabe o meio-irmão?





segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Aventura

 Dizem que gosto de aventura. Eu gosto... aventura é estar vivo! Como não vislumbro o meu não-vivo, me aventuro. E menos do que queria. Há anos gostaria de ousar mais, rindo mais das idiossincrasias, não qualquer ousadia... E, ainda me preparando, fui curtindo outras aventuras:

Aventuro-me a atravessar ruas, apesar das velocidades e riscos inerentes, das cabeças ao vento,

Aventuro-me a manter um casamento, com seus bônus e ônus, investindo em relacionamento, construção, insistindo num necessário fantasiar,

Aventuro-me a criar filhos, às vezes quero desistir, às vezes insistir, às vezes modificar, e sigo entre flores e espinhos, num eterno semear cheio de fé,

Aventuro-me a ter bons amigos, sempre, para sempre, cultivar os laços apesar das distâncias, uma entrega da qual me orgulho e que sempre desejo e sempre falta,

Aventuro-me a ser psicanalista, a ouvir impossíveis, a encontrar subjetividades. Quero me aventurar mais, busco as incertezas onde mentiras sinceras me interessam,

E, por fim e não somente, me aventuro pelas montanhas. São, das aventuras, as menos aventureiras. Mais garantidas, mais certeiras, quase não me arrisco. Experiência que me dá vontade de voltar. As dificuldades vividas me mostraram que a superação é dentro de mim. A montanha ajuda. A montanha mostra. A montanha alimenta. A sede de seguir nos meus investimentos, as ponderações dos caminhos, do meu lugar. A certeza de um fim e da fração do planeta que ocupamos. Apenas ocupamos. Buscando a serenidade para  continuar e o vislumbre do não-ser. Se não for um vivo-morto, a aventura mesmo é viver. 22 de maio de 2024