Existem pessoas irresponsáveis. Todas são. Porque não é possível responder por tudo. No entanto, há algumas que vão se irresponsabilizando ao infinito. E, no limiar entre a irresponsabilidade, o azar e a tragédia, um motociclista empina sua moto na contramão e atinge outra pessoa. Ele responde pelo seu crime abandonando seu corpo contorcido no chão. Não está mais presente para que possamos xingá-lo ou para ver a quantidade de problemas ele causou num corpo alheio.
O corpo alheio é do meu amigo. Foi atingido pela moto. Tangido por uma brincadeira irresponsável... "Que saudades", é o que digo a ele todas as vezes que nos falamos. É um amor antigo e especial na minha família. Com ele temos diversas fotos maravilhosas que nos lembram os bons momentos vividos e registrados. Nossas conversas madrugada a dentro, o olhar que recebe reciprocamente de forma tão vasta. Hoje recebe no corpo bastante dor, diversas cirurgias com ferros que possam substituir seus ossos.
As responsabilidades que ele assumia estão com cargo aberto para quem possa fazer muitos dos seus feitos até mesmo em termos de auto-cuidado. Alguém que lhe escove os dentes, após tanto tempo tendo assumido essa função consigo mesmo.
Vivo. Ele reocupará um lugar. Tendo tido a chance e a dor de não ocupar mais. É uma morte em vida onde o corpo sofre reconstituições e a vida também precisará tomar outra forma, ainda que ele escolha por reassumir exatamente de onde parou.
Quando ele voltar a escovar os próprios dentes, a mão que segura a escova não será a mesma. Ele precisará aprender a segurar de novo. E ele sentirá a dor de conseguir. Poderá escovar os dentes com autonomia, observando, entendendo, de quantas graças se faz uma escovação de dentes.
As relações assumiram pausas. É bem verdade que, como ele está vivo, as pessoas se fazem presentes. Mas é uma presença diferente. Um reencontro de muitas possibilidades. De coisas que não foram ditas e agora serão. De cuidados que não foram postos e agora aparecerão. De dívidas e saldos...
De quantos desvios de rota precisamos para validarmos e considerarmos a preciosidade de estar vivo? O que é encontrar o outro, vivo como eu?
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