terça-feira, 27 de maio de 2025

Em mim

Eu estava lá 
Pensava como quem está lá 
E vivia tudo que de lá existe em mim

Logo no início lembrava
O quanto da primeira vez pareceu fácil em alguma medida
E que fui reposicionando os tempos
Os marcos de cada pedaço de chão 

E lembrei de uma gargalhada
Via num certo trecho uma cabeça sob as águas 
E naquele outro tinha ele sentado no chão me olhando cansado
As mãos dela levantadas, vitoriosa daquele momento de existência 
E ao fundo toda a beleza do mundo

Eu me via acompanhada mesmo só 
Eu que estava só estando acompanhada

Sentia a presença e a saudade

Devo informar que estive com eles?
Ou que aquele terreno ainda guarda em si memórias daquele dia?

O sol descia. 
Minha perspectiva era essa:
A de ver o sol se pôr 
E ver o sol nascer
Como acontece todo dia
Todo dia
Todo dia

E eu estou lá apenas um dia
Um dia de exaustão 
De imensidão 
Em mim
De imersão 

Em mim



terça-feira, 20 de maio de 2025

Sentido da vida

O sentido da vida...

Qual é? 


Sem essa resposta, mais moça, pensava em dar fim à minha. 
No entanto, também sem sentido para a morte, prosseguia. Eu fui inventando prazeres de viver. 
Hoje meu pequeno, de apenas 8 anos, trouxe esse sem sentido a partir da dor. Vejo que para mim, talvez para todos, a dor é o que vem mesmo pôr a vida em cheque. Dor de existir. E a vida, quando é possível ser vivida, traz o prazer de existir. 
O quanto queremos viver é que corre nas veias. Respiramos involuntariamente, o coração bate, bate, bate e tudo acontece a fim se que estejamos aqui. Alguns planejam intervenções para elevar o tempo de vida ao infinito. Nunca quis! 
O quanto queremos morrer é o quanto não queremos a dor. Não sabemos ao certo sobre a morte e tudo o mais. Um tudo tão pra sempre. A vida, finita, não diz nada sobre o infinito da morte. Aquele que está garantido ao fim do processo. Tentando aproveitar o que há.
E o que há? Eis... O quê?
Vamos falar da falta?
O nosso desejo, aquele que nos mantém vivos, fala da falta. A falta, dor, que nos puxa pra morte. A vida é uma dança.
E, dançando há 38 anos, sinto o horror de ver meu filho olhando pra essa falta, dizendo do sem sentido da vida e no sentido que a morte faz ao zerar todas as dores. 

Um lado meu se mata
Outro quer salvá-lo. 
Um lado meu concorda
O outro acha absurdo.
Um lado meu tampona
Para que ele não veja o óbvio.
Outro lado deseja vida
Para mim e principalmente para ele.
Um lado meu se desespera
Sem a certeza de que saberei dar sentido
O outro pensa: é o que mais saberei
Um lado meu é traço suicida
O outro lembra que ele é puro signo de vida

E oscilando entre a vacilação e o acerto, vou rodopiando, pulando, levantando os braços, movendo a cabeça graciosamente, abaixando e levantando, e entendendo que ele vai cada vez mais entrar nessa dança do humano, abandonando sua criancice, seu mundo encantado e se assenhorando das verdades difíceis de suportar. 

sábado, 17 de maio de 2025

100 anos

O meu avô fez 100 anos. Ele nasceu em 1925. A verdade é que nem imagino o que é ter assim tantos anos e nem espero que ninguém cuide de mim assim por tanto tempo. 
O ser humano nasce desamparado e sobrevive se cuidarmos de sua vida. E envelhece cada vez mais tarde, e para ser longevo é preciso que cuidem, cuidem e cuidem. 
Estive lá a fim de comemorar. Eu que sou tão ausente quanto sinto que meu avô foi para mim. Não por nenhum problema entre nós exatamente, mas por um certo fosso entre nossos mundos. Talvez pela diferença de gênero ou porque ele é assim diante do próprio afeto. Faz muito tempo que nossos encontros são muito pontuais. Pouco me lembro de meu avô ativo na minha infância. Lembro dos relógios que eu ganhava a cada natal. Eu usava o relógio! Desconfio se era ele quem escolhia... Depois passei a ganhar dinheiro.
E hoje tenho filhos que têm bisavô. Eu não conheci nenhum dos meus. Eles também pouco conhecem o velho Altino. Parecem tê-lo como paradigma de o que é uma pessoa com muitos e muitos anos, já mais próxima da morte. De vez em quanto me pedem garantias: quem morrerá primeiro na nossa família será o vovô Altino, né? E sou obrigada a dizer que embora seja provável, não é sempre assim. Meu pai é minha maior prova disso. Pra eles é difícil entender por quê têm bisavô mas o avô se foi... Pra mim também passa algum registro do injusto e inexplicável da vida.
Comemos boa comida, havia flores e sorrisos. Todos tentaram conviver harmoniosamente apesar das tensões geradas pelo simples encontro. Pouco simples, na verdade.
Ele ficou feliz. Parecia mesmo satisfeito com tudo aquilo. E me pergunto sem conseguir adentrar nesse universo: feliz de quê? Feliz como? Feliz? Eu consigo entender tantos "apesar de" a partir dos quais se possa ter felicidade aos 100 anos. Mas confesso que, se por um lado eu fui para me fazer presente e que, assim, ele se sentisse feliz ou mais prestigiado, eu pouco consigo alcançar esse encontro como algo a ser deveras computado. Mas fez marca para mim e para a família.
Percebo que de forma geral as pessoas muito mais se relacionavam entre si que com o aniversariante. Houve um momento, após o corte do bolo, em que o vi sozinho. Todos matracando e ele comendo seu bolinho. Sentei ali e tentei inventar um assunto: "e aí, Vô? De que você se lembra de quando tinha essa idade?" E apontei pro Davi, que brincava animado com a cadeira de rodas. Meu avô rapidamente trouxe as imagens dele com os amigos descendo ladeiras com carrinhos de rolimã. Me explicou sobre o volante precário e a ausência dos freios. Faziam um calombo de areia para dar uma certa freiada no final da rampa e eram lançados. Os mais habilidosos saiam de pé. Chamei Davi para escutar a história que veio com ainda mais detalhes. Ele ficou animadíssimo de olhar pro menino Altino, um personagem que parecia nunca ter existido e disse: "nossa! Parece bem divertido mas bem arriscado!", e o vovô concordou com sorriso no rosto. Comentei um pouco como que a infância mudou de lá pra cá. Por um lado mais protegida, por outro, passaram a ter as marcas da tv, dos videogames, dos celulares, cada vez mais segura dos perigos das ruas, com corpos sem tônus e sem risco e mentes vulneráveis e viciadas.  Percebo que, nesses flashs de encontro, o sentido existe. O fato de que ali estavam as filhas dele, a família do irmão dele - que faleceu nos últimos anos...-, alguns dos netos e também os bisnetos, de alguma forma é a comemoração de todas as nossas vidas. Sem ele não teríamos nós. Ele faz parte do que é um ponto de origem, uma parte de história, um traço ancestral. Algo do que funda ele é transmitido a cada um de nós, sem que saibamos exatamente o quê. Algo que vive nele desse acumulado de 100 anos de vida e perpetua. E a história segue seu rumo. Segue seu rumo. A vida e a morte se entrelaçando. E percebo que eu estou aqui, presente, envelhecendo ano após ano, atravessando um tempo em outro tempo. Se passam os anos... Comemoramos. 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Gostares

 Quando eu gosto muito de alguém eu dou a ela atenção 
Mas atenção demais é melação (?)
Quando eu gosto demais de alguém eu dou a ela espaço 
Mas espaço demais é abandono (?)
Quando eu gosto muito de alguém eu dou a ela presentes
Mas presentes demais são vazios (?)
Quando eu gosto demais de alguém eu saio bastante com ela
Mas sair demais é evitar o espaço íntimo (?)
Quando eu gosto muito de alguém eu gosto de ficar em casa juntinho
Mas só ficar em casa juntos dá uma sufocação (?)
Quando eu gosto demais de alguém eu digo a ela a verdade
Mas só verdades, quem poderia suportar?
Quando eu gosto muito de alguém eu tento deixar tudo colorido 
Mas sem atravessar as dificuldades da vida há relação?
Quando eu gosto demais de alguém eu preparo para ela as melhores iguarias
Mas comida não pode ser o único afeto que nos sustenta (?)
Quando eu gosto muito de alguém eu permito que ela invada meu espaço para não se sintir ferida
Mas desde quando relação abusiva é o que eu chamo de amor?
Quando eu gosto demais de alguém eu quero que ela goste dos meus gostos
Mas e se ela não gostar tanto assim?
Quando eu gosto muito de alguém eu quero ser vista e ouvida na minha singularidade.
E somos capazes de encontrar o outro em sua singularidade?
O que se dá nunca é o que o outro quer. O que o outro quer, em última instância, nao temos pra dar. Escolher nossos amores é uma arte. Receber o amor do outro é uma arte.

Quando a gente gosta de alguém é preciso muita paciência, tolerância, vontade de encontro, ver graça na diferença. O outro não é um espelho. Ou nao é apenas isso. E quem sabe podemos amar e ser amados apesar de.