sábado, 17 de maio de 2025

100 anos

O meu avô fez 100 anos. Ele nasceu em 1925. A verdade é que nem imagino o que é ter assim tantos anos e nem espero que ninguém cuide de mim assim por tanto tempo. 
O ser humano nasce desamparado e sobrevive se cuidarmos de sua vida. E envelhece cada vez mais tarde, e para ser longevo é preciso que cuidem, cuidem e cuidem. 
Estive lá a fim de comemorar. Eu que sou tão ausente quanto sinto que meu avô foi para mim. Não por nenhum problema entre nós exatamente, mas por um certo fosso entre nossos mundos. Talvez pela diferença de gênero ou porque ele é assim diante do próprio afeto. Faz muito tempo que nossos encontros são muito pontuais. Pouco me lembro de meu avô ativo na minha infância. Lembro dos relógios que eu ganhava a cada natal. Eu usava o relógio! Desconfio se era ele quem escolhia... Depois passei a ganhar dinheiro.
E hoje tenho filhos que têm bisavô. Eu não conheci nenhum dos meus. Eles também pouco conhecem o velho Altino. Parecem tê-lo como paradigma de o que é uma pessoa com muitos e muitos anos, já mais próxima da morte. De vez em quanto me pedem garantias: quem morrerá primeiro na nossa família será o vovô Altino, né? E sou obrigada a dizer que embora seja provável, não é sempre assim. Meu pai é minha maior prova disso. Pra eles é difícil entender por quê têm bisavô mas o avô se foi... Pra mim também passa algum registro do injusto e inexplicável da vida.
Comemos boa comida, havia flores e sorrisos. Todos tentaram conviver harmoniosamente apesar das tensões geradas pelo simples encontro. Pouco simples, na verdade.
Ele ficou feliz. Parecia mesmo satisfeito com tudo aquilo. E me pergunto sem conseguir adentrar nesse universo: feliz de quê? Feliz como? Feliz? Eu consigo entender tantos "apesar de" a partir dos quais se possa ter felicidade aos 100 anos. Mas confesso que, se por um lado eu fui para me fazer presente e que, assim, ele se sentisse feliz ou mais prestigiado, eu pouco consigo alcançar esse encontro como algo a ser deveras computado. Mas fez marca para mim e para a família.
Percebo que de forma geral as pessoas muito mais se relacionavam entre si que com o aniversariante. Houve um momento, após o corte do bolo, em que o vi sozinho. Todos matracando e ele comendo seu bolinho. Sentei ali e tentei inventar um assunto: "e aí, Vô? De que você se lembra de quando tinha essa idade?" E apontei pro Davi, que brincava animado com a cadeira de rodas. Meu avô rapidamente trouxe as imagens dele com os amigos descendo ladeiras com carrinhos de rolimã. Me explicou sobre o volante precário e a ausência dos freios. Faziam um calombo de areia para dar uma certa freiada no final da rampa e eram lançados. Os mais habilidosos saiam de pé. Chamei Davi para escutar a história que veio com ainda mais detalhes. Ele ficou animadíssimo de olhar pro menino Altino, um personagem que parecia nunca ter existido e disse: "nossa! Parece bem divertido mas bem arriscado!", e o vovô concordou com sorriso no rosto. Comentei um pouco como que a infância mudou de lá pra cá. Por um lado mais protegida, por outro, passaram a ter as marcas da tv, dos videogames, dos celulares, cada vez mais segura dos perigos das ruas, com corpos sem tônus e sem risco e mentes vulneráveis e viciadas.  Percebo que, nesses flashs de encontro, o sentido existe. O fato de que ali estavam as filhas dele, a família do irmão dele - que faleceu nos últimos anos...-, alguns dos netos e também os bisnetos, de alguma forma é a comemoração de todas as nossas vidas. Sem ele não teríamos nós. Ele faz parte do que é um ponto de origem, uma parte de história, um traço ancestral. Algo do que funda ele é transmitido a cada um de nós, sem que saibamos exatamente o quê. Algo que vive nele desse acumulado de 100 anos de vida e perpetua. E a história segue seu rumo. Segue seu rumo. A vida e a morte se entrelaçando. E percebo que eu estou aqui, presente, envelhecendo ano após ano, atravessando um tempo em outro tempo. Se passam os anos... Comemoramos. 

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