sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Festa de São João

Eu me anuncio como não-religiosa. Vivo entre o ateísmo e o agnosticismo. 

Eu não tenho mais escola há tempos. Mas a escola dos meus filhos felizmente também é minha.

E nessa escola se faz uma festa junina muito bonita, cujo ápice eu considero o ritual da fogueira. É como se fosse um registro da beleza do que acontece naquela casa, a Casa Áurea. 

No entanto, eu de reconhecer, é um ritual carregado de espiritualidade. E me pergunto intrigada, onde essas falas, dirigidas ao transcendental, me toca no meu íntimo.

Eu que, não religiosa, se há um pai nosso coletivo, me emociono.

Eu que, numa subida de montanha, sou capaz de adjetivar como "divino" algo de extrema beleza.

Eu, que visito de tempos em tempos a religião onde cresci e que de alguma forma me habita, cuja máxima que mais valorizo é a integração com a natureza.

"Senhor São João, venha receber essa festa linda que fizemos pra você. Com a santa luz divina, ilumina o meu batalhão. É humilde essa oferenda, é de bom coração." E "meu são João, meu são João, hoje será sua festa. Saldemos sua bandeira! São João mandou, são João mandou cantar e dançar a noite inteira para louvar a fogueira."

Me emociono.

Vou começar pelo óbvio: os professores da escola, que entram ritualisticamente e, passando o fogo uns para os outros, acendem a fogueira da festa. Ali são queimadas todas as picuinhas e desavenças. Mesmo que no dia seguinte esteja tudo igual. Ali eles evocam e atuam o que se pretende: que sejamos uma comunidade iluminada e quente, onde uns apoiam os outros promovendo o crescimento e desenvolvimento dessa coletividade. Fala do âmago da instituição e sua missão. É muito bonito e simbólico.

Mas tem algo de transcendente, algo nessa evocação do santo - que aliás eu acho muito honesto, já que fazemos a festa de São João nos meses de junho e nos afastamos dele chamando de festa junina. Gostamos tanto que acrescentamos festas julinas e até agostinas. Mas é originalmente uma festa de São João. É parte da cultura. E ali o cara é invocado, convidado a estar presente e presenteado. E à ele se pede a santa luz divina. 

Me emociono.

É tão difícil sustentarmos coletividades. Diferenças são nossos pontos fortes mais fracos. Temos dificuldades de relacionamento, de entendimento, de existir. Erramos querendo acertar. Não gostamos de estar errados. Temos medo de nos desestruturarmos sem um amparo egoico que garanta: eu sou. Haja santa luz divina para nos mantermos de pé. Somos seres sociais apesar de todas as dificuldades que se impõe às nossas inserções sociais. Manter um coletivo de pé com ideais colaborativos é um ato de coragem, ousadia, haja amor, força e luz para manter movimentos como esse de pé.

O santo não me invade. Ele é outro, não tem relação direta comigo. Não é nem Deus nem filho dele. Eu bem sei que se invocarem Deus eu posso passar da emoção ao arrepio. Acredito mais num santo que num Deus. Santo é aquele que, de carne e osso, conseguiu uma firmeza de propósito que conferiu a ele um reconhecimento. Eu não reconheço santidades, eu desconfio dos milagres, mas eu acredito no ser humano e na sua capacidade de transcender.

E na escola é o que é preciso: transcender em busca de um objetivo comum: a melhor educação para aquelas crianças. Uma formação integral, considerando as multiplicidades. Hoje foi essa festa! Que nossa escola consiga atravessar suas próprias pequenezas a caminho de uma santificação. Ou seria cientificação? Como me diziam: ciente fica são. É por aí!

14/07/2025

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Vazio

 Hoje eu ia ao Hospital. Eu sou meio distraída e fiquei irritada comigo mesma em ter ido para o hospital errado. Fui de ônibus e eu não simplesmente errei a parada: eu entrei, peguei meus documentos, informei o quarto e o nome da paciente. O quarto estava vazio e eu rapidamente percebi a minha gafe.

Peguei um táxi, coisa que não faço há anos. Quando sentei e pedi para me levar, senti um embrulho no estômago. Percebi, naquele momento, para onde eu estava indo. 

Fui pra emergência e me pediram para ir ao prédio ao lado. Eu parecia ter esquecido que existia o prédio ao lado. Desci a rampa com um mal estar maior ainda. Lembrei da sala de espera antes de estar nela. O tempo na fila para dar os documentos pareceu uma eternidade. 

Abriu-se um portal para um mundo melhor e mais bonito quando eu abri a porta do quarto. Estava tudo bem. Aqueles olhos conhecidos, calmos e vivos, me receberam.

E só consegui entender melhor tudo isso quando fui descrevendo minha ida, minha recusa -depois tão evidente- em estar naquele lugar.

Lembrei das sensações... Da inconformidade de que o mundo seguisse como se nada estivesse acontecendo. O minuto de silêncio é tão necessário apesar de insignificante. A vida corria lá fora de mim e eu estava num silêncio eterno. A minha vida fora sugada por aquela morte. Nada tinha cor, nada parecia bom. Nada era o que tinha de melhor. Queria me juntar ao nada. Deixar de ser.

Lembrei dos pinheiros que me observaram naquela tarde e recolheram minhas lágrimas. Contei com eles, os observei como se pudessem ser meus amigos. Neles nada era fútil, nada era inútil. E meus pensamentos de vazio eram, de algum modo, compartilhados.

Lembrei do entra e sai de gente doente, com corpos em falência, de olhar para as pessoas pensando o quanto elas estavam atravessando em silêncio e sem a chance de poder parar. Ver os olhos ativos, operacionais, sem que eles descrevessem o desespero da incerteza que o hospital traz. As pessoas vivem com cada dor escondida...

Não estive na sala onde vi o corpo dele sem ele pela primeira vez. Retirei um pouco dos cabelos dele pedindo autorização a um enfermeiro. Seria um crime a violação dos cabelos de um morto? Estão na minha cômoda. Tão vivos e tão mortos...

E essa narrativa não culmina em nenhum lugar. É apenas isso: um testemunho. Ela será enterrada junto e dentro de mim. Todas essas emoções que me pertencem, essas memórias perturbadoras que me acompanham, essa ausência infinita, foram enterradas dentro de mim para que eu pudesse me juntar às pessoas operacionais, que andam por aí vivendo com dores bem escondidas. Esse buraco que é tão grande e profundo que só saindo de perto dele para poder voltar a enxergar colorido e o mundo fazer algum sentido. Mas quando a gente chega assim: tão perto; todas as graças parecem vazias de palavras .