sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Vazio

 Hoje eu ia ao Hospital. Eu sou meio distraída e fiquei irritada comigo mesma em ter ido para o hospital errado. Fui de ônibus e eu não simplesmente errei a parada: eu entrei, peguei meus documentos, informei o quarto e o nome da paciente. O quarto estava vazio e eu rapidamente percebi a minha gafe.

Peguei um táxi, coisa que não faço há anos. Quando sentei e pedi para me levar, senti um embrulho no estômago. Percebi, naquele momento, para onde eu estava indo. 

Fui pra emergência e me pediram para ir ao prédio ao lado. Eu parecia ter esquecido que existia o prédio ao lado. Desci a rampa com um mal estar maior ainda. Lembrei da sala de espera antes de estar nela. O tempo na fila para dar os documentos pareceu uma eternidade. 

Abriu-se um portal para um mundo melhor e mais bonito quando eu abri a porta do quarto. Estava tudo bem. Aqueles olhos conhecidos, calmos e vivos, me receberam.

E só consegui entender melhor tudo isso quando fui descrevendo minha ida, minha recusa -depois tão evidente- em estar naquele lugar.

Lembrei das sensações... Da inconformidade de que o mundo seguisse como se nada estivesse acontecendo. O minuto de silêncio é tão necessário apesar de insignificante. A vida corria lá fora de mim e eu estava num silêncio eterno. A minha vida fora sugada por aquela morte. Nada tinha cor, nada parecia bom. Nada era o que tinha de melhor. Queria me juntar ao nada. Deixar de ser.

Lembrei dos pinheiros que me observaram naquela tarde e recolheram minhas lágrimas. Contei com eles, os observei como se pudessem ser meus amigos. Neles nada era fútil, nada era inútil. E meus pensamentos de vazio eram, de algum modo, compartilhados.

Lembrei do entra e sai de gente doente, com corpos em falência, de olhar para as pessoas pensando o quanto elas estavam atravessando em silêncio e sem a chance de poder parar. Ver os olhos ativos, operacionais, sem que eles descrevessem o desespero da incerteza que o hospital traz. As pessoas vivem com cada dor escondida...

Não estive na sala onde vi o corpo dele sem ele pela primeira vez. Retirei um pouco dos cabelos dele pedindo autorização a um enfermeiro. Seria um crime a violação dos cabelos de um morto? Estão na minha cômoda. Tão vivos e tão mortos...

E essa narrativa não culmina em nenhum lugar. É apenas isso: um testemunho. Ela será enterrada junto e dentro de mim. Todas essas emoções que me pertencem, essas memórias perturbadoras que me acompanham, essa ausência infinita, foram enterradas dentro de mim para que eu pudesse me juntar às pessoas operacionais, que andam por aí vivendo com dores bem escondidas. Esse buraco que é tão grande e profundo que só saindo de perto dele para poder voltar a enxergar colorido e o mundo fazer algum sentido. Mas quando a gente chega assim: tão perto; todas as graças parecem vazias de palavras .

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