sexta-feira, 12 de julho de 2019

Eu e as roupas

Nunca me entendi com as roupas. Não que eu quisesse ficar sem elas, eu gosto de roupas, de me sentir bonita, de estar arrumada. Eu gosto do conforto. Aí começa o problema... conforto e roupas e beleza. Também há de se pensar que sou mulher.
Quando eu era bem nova e não contava com muito mais de 10 anos eu ganhei uma roupa bonita, um conjuntinho laranja florido cujo short era soltinho como uma saia. Me sentia esvoaçante e bela. Meu pai reclamava.
Belo dia saí assim. Mas voltando pra casa numa rua movimentada de carros e erma de pessoas, um carro cheio de homens parou ao meu lado e uma mão bateu no meu traseiro. Nessa época eu começava a experimentar a realidade de ser mulher e viver assédio nas ruas. Nao entendia bem que era assédio, me sentia bela e desejada. Mas naquele dia eu só senti medo. E a culpa da roupa... porque eu já sabia que talvez não devesse usar aquela roupa. Não contei nada, mas aprendi a lição.
Muitas vezes quis comprar roupas e o pouco dinheiro disponível limitava minhas escolhas. As vezes eu ganhava rouoas e, para ter o direito de escolha, trocava tudo. E or vezes levei aquela calça liiinda, mas que nunca combinou com mais nada. Enfeitava meu armário e meu sonho de vesti-la. Também muitas vezes encaro roupas como uma utilidade menor e me sinto num gasto supérfluo se uma roupa custa mais do que eu ache que devo pagar.
Roupas devem cobrir, devem esconder, devem melhorar. Roupas são a embalagem mais significativa. Roupas que apertam, que valorizam, que incomodam. Roupas confortáveis, de casa, furadas. Roupas enfurnadas, que um dia quem sabe uso... roupas de gorda, de magra. A roupa que ficou apertada. A roupa encolheu! Ou eu engordei? Roupas que pinicam, que espetam. Roupas que são lindas, mas me deixaram com frio. Roupas pra dormir. Boa noite.

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