Relato de "parto" com violência obstétrica na M. Maria Amelia
Pensei se dividiria... Me senti atropelada pelo meu próprio parto e envergonhada por ter passado por várias dessas etapas.
Por volta de meia-noite começaram discretas contrações. Eu ainda não sabia que eram contrações. Era ligeiramente desconfortável duraram pouco e se repetiram, o que me fez pensar que poderia ser o início do meu trabalho de parto. Quando entendi que eram mesmo, se intensificaram eu me senti feliz. Finalmente o meu filho viria. Eu havia preparado a mala do meu filho, faltava preparar minha. Parei de assistir o filme que estava vendo e me pus com meu marido a selecionar os itens restantes bem como todo o equipamento para o alívio da dor que havíamos separado e planejado ao longo do tempo. Conforme foi aumentando a dor, eu fui ficando um pouco assustada com a intensidade que tomava conta do meu corpo. Não demorou para que eu não desse mais conta de arrumar a mala e felizmente os itens que poderiam ser esquecidos estavam anotados para caso isso acontecesse. Meu marido terminou essa tarefa sozinho enquanto eu estava sentada numa cadeira de plástico dentro do box tentando aliviar a dor. Nesse momento havia uma quantidade de dor considerável mas suportável que seguia aumentando não em duração nem intervalo mas em intensidade. Noto que desde o início as contrações eram razoavelmente ritmadas e pouco espaçadas já muito no início tinha umas contrações de 4 em 4 minutos e quando se tornaram de 3 em 3 minutos ou até menos já eram bastante intensas e quando digo intensas lamento não poder descrever precisamente do que se trata. Isso porque uma das minhas decepções se inicia em não acreditar e é uma coisa que só pude dizer posteriormente: eu não acreditava que poderia ser tão insuportável o que aconteceria nas próximas horas. Eu acreditava que quando eu lia as mulheres dizendo que passaram por situações muito insuportáveis que isso era uma condição individual e que outras passam o dia fazendo coisas normais. Eu imaginava que eu poderia passar o dia fazendo coisas normais e o que me aconteceu foi que de meia-noite às 3:00 da manhã eu não tinha a menor condição de continuar em casa. O meu prédio é muito silencioso e eu, que também sou muito silenciosa, percebia que a qualquer momento os meus gemidos poderiam ser ouvidos por terceiros o que me preocupava. Decidi ir para o hospital. Descer as escadas do prédio andando lentamente e parando a cada contração e depois no carro foi bastante difícil. E eu só ficava satisfeita pelo direito de vocalizar a minha dor. Os buracos na rua eram muito incômodos e as sacolejadas interagiam com meu corpo e provocavam contrações. Doía muito, apesar disso o meu marido foi maravilhoso em me localizar onde estávamos chegando e vagarosamente me levou da forma como combinamos tentando me causar o mínimo de incômodo. Ele foi incrível. A rampinha de acesso da mma eh pequena. Andava como um zumbi e parava nas contraçoes. Parei 2x na rampa. Ou seja, contraçao talvez a cada minuto... Quando chegamos na maternidade já estranhei um pouco a recepção. Na ocasião que fiz a visita me surpreendeu o bom humor, o sorriso no rosto tanto da atendente como dos seguranças e de quem nos recebeu lá em cima. Todos pareciam satisfeitos e orgulhosos de trabalhar naquela instituição. Quando cheguei na madrugada, todos tinham cara de madrugada, naturalmente. Eu passei pela avaliação em contrações dolorosíssimas. A enfermeira que realizou minha admissão ainda foi gentil me informando sobre o toque: vou inserir um dedo e, posteriormente, vou inserir o outro dedo e foi contabilizando o que acreditava serem 5 cm de dilatação. Ela ficou preocupada apenas com a minha pressão que deu 14 por 9 e convocou uma médica do hospital para decidirem que ala seria a minha. Fui fazer uma cardiotocografia. Eu compreendo que fazer esse exame possa ser importante e que ele não configura como violência mas para mim foi extremamente violento e eu gostaria de ressaltar: extremamente (!), já que mais uma vez eu não poderei definir a dor que eu sentia. Nessa dor posso dizer que há posições em que tudo parece pior e uma delas para mim foi estar deitada na maca imóvel. Era quase impossível e eu sofri muito durante aquele exame, gemendo, me contorcendo o mínimo possível e, como o meu filho estava se mexendo muito, a enfermeira passou todo o exame ao meu lado caçando o coração do bebê e reposicionando os eletrodos, pressionando a barriga. Foi o inferno e eu compararia isso a uma sessão de tortura facilmente. Chegou uma hora em que ela disse: não dá mais, ela não aguenta mais. E eu chorei desesperadamente pois a sensação que eu tinha há muito tempo é de que eu não aguentava mais e a cada vez que eu pensava "eu não aguento mais", esse limite precisava ser ampliado. Durante o exame foi o primeiro momento em que eu me arrependi de não ter doula. Há sim uma questão institucional com isso. Entrou outra enfermeira onde estávamos: "fulana, tem gente pra admissao". Ela explicou que precisava acompanhar o coraçao do bebê. A outra diz: "tem doula". Ela respirou fundo e disse que realmente não dava. Que carteirada é essa? Perguntei mil vezes se eu seria recebida diferente por não ter doula... Nunca foram claros comigo.
Passei pela avaliação da médica nesse momento pois aparentemente esse exame deu ok, e a médica fez um novo exame de toque e me informou que eu estava entre 5 e 6 cm pediu para que remedissem minha pressão. E embora a primeira remediçao tenha dado 16 por 8, outra enfermeira insistiu em usar outro aparelho e disse 11 por 7... intervalo de menos de 2 minutos entre mediçoes. Muito estranho... E graças a essa enfermeira fui para o setor de parto normal. Era pouco antes de 6 da manhã e foi a última vez que mediram minha pressao durante todo tp.
Subi estranhando algumas coisas. Por exemplo: eu estava com muita dor e sentar na cadeira de rodas me parecia demais. Pedi para sentar só quando chegasse lá em cima. Os funcionários pareciam não compreender a minha intenção, que não me saculejar na entrada e saída do elevador era importante, não entendiam que a cadeira passando pelos trilhos da porta causavam um incômodo corporal imenso diante de um corpo que já está extremamente sensível. Apesar disso, saindo do elevador eu entrei na cadeira de rodas que me levou até o quarto. Não entendo até agora porque era tão importante andar aqueles metros em uma cadeira de rodas considerando que eu dizia fazer diferença. Entrei no quarto. Eu esperava algo mais acolhedor. Mas mais do que isso esperava que os equipamentos fossem mais disponíveis. Só encontrei a bola de pilates e o chuveiro. A Cadeira do Papai estava quebrada e não ficava fixa e a maca/cama não era assim tão diferente de uma cadeira normal obstétrica. O tal do cavalinho, nada e a banqueta, depois de solicitada pela 4a vez, nao tava disponivel. As luzes brancas e frias, bem invasivas, hostil, hospitalar. Quis usar o chuveiro. Era sistema de boiler. Demorei muito a conseguir regular e em pouco tempo, durante uma contracao, do nada a temperatura subiu bastante, imagino que alguem tenha dado descarga na suite ao lado. Conclusao: ou me queimava ou me mexia durante a contraçao. Doeu me mexer e doeu desistir do chuveiro... Durante todo tp, nas contraçoes eu queria ficar quieta. Andar so me dava mais dor.
Em algo tipo 1 hora veio uma moça, delicada, quis saber se estava tudo bem, ouviria o bebê e oferecia toque. Eu aceitei e ela ouviu o Davi, que estava bem, e me disse que estava com 6, achou ele alto e disse que eu podia usar a bola. Eu a essa altura havia "aprendido" a unica coisa que me deixava um pouco melhor durante as contracoes: uma leve agachadinha e pressao em pontos bem precisos nas costas. Segui com meu metodo, acreditando naquela maldida frase de que mulheres sabem parir. Depois de 1h30 veio outra moça, mesma coisa, escuta e toque. Dessa vez recusei a maca. Pedi se nao escutaria comigo em pe (na outra visita eu quase morri nessa de vai pra maca, sai da maca, ouve o bebê... Putz que eternidade de dor intensa!). Pra minha surpresa ela topou. Ouviu, tudo bem, o toque ou nao teve jeito ou nao teve toque, nao lembro. Lembro algo no sentido de nao ter evoluído nada e o bebê estar alto. Sugeriu a bola. Eu disse a ela que a outra moça tb sugeriu mas que doia muito. Ela foi bem enfatica dizendo que eh isso mesmo, que vai doer mais e o bebê vai encaixar e que eh assim que as coisas sao, que eu suportaria a dor, que era natural. Sentou na bola pra me mostrar. Segure aqui, quando vier a contraçao você faz movimentos assim, bem amplos, quando a contraçao acabar aproveita a cama e descansa pra próxima. Essa moça não foi doce, inclusive foi uma dessas pessoas que entra no quarto como se nada tivesse acontecendo, fala alto, espera que responda... Ela me orientou e foi a melhor pessoa com quem topei por lá. Se dependesse da minha "sabedoria" nao ia usar a bola nunca. Doia muito. Em 1h30 eu tinha pulado de 6 pra 9 de dilataçao, doeu horrores e entrei quase num transe. Só eu sei a que custo! A cada contraçao eu me esforçava, eu quase morria mas ia adiante, eu chorava, eu gemia, rangia os dentes... Mas a coisa foi acontecendo. A essa altura eu já tinha pedido analgesia, ela me disse pra segurar mais um pouco, veio com os contras sugerindo que eu segurasse mais um pouco. Eu no fundo não queria analgesia e concordei. Eu não me sentia tendo escolha, mas era muito claro pra mim que em sã consciência eu jamais desejaria passar por aquilo. Gente, na minha experiência parir foi uma coisa muito, mas muito violenta. E aqui começa a violência de fato, a violência institucional.
Veio uma moça, também blasé como muitos, do tipo fala alto e espera respostas como se nada estivesse acontecendo. Foi ela quem aferiu meus 9cm. Não aceitou ouvir o bebê em pé, reclamou na minha demora em estar em posiçao, reclamou que eu pedia para aguardar passar a contraçao, ignorava que eu dissesse que doia muito.
Me ofereceu de estourar a bolsa justificando que aceleraria o processo. Quis. Eu estava em desespero. Disse que tinha que ser durante contraçao. Eu nao conseguia, gritava, implorava pra nao fazer. Acabou aceitando muito a contra-gosto tentar estourar a bolsa no intervalo. Me pediu pra fazer força, eu fiz e ela conseguiu sem grandes dificuldades. Eu a odeio, eita pessoa sádica! A bolsa continha como que um caldo de ervilha mais ralo. Ela se orgulhava de ter estourado e descoberto meconio. Me disse que agora corriamos contra o tempo. Saiu da sala e retornou não muito tempo depois outra moça, mais tranquila, ouviu o bebê, tava tudo bem. Em pouco tempo veio essa louca de novo. Chegou com a macaca, perguntou se eu sentia vontade de fazer força e eu disse que não.
Até estava tendo um duvida sobre isso, fazia as vezes uma força nao exagerada para tb não cansar, fazia porque aliviava em algum nivel a dor, mas nao bati todo esse papo com ela. Disse q nao e pronto. Ela veio: voce tem que fazer força. Eu perguntei porque aquilo tava acontecendo comigo, que eu entendia que naquele hospital nao teria isso. Ela ficou irada e meio debochadamente me disse: "minha querida todo mundo aqui que parir vai fazer força", que nenhum bebê nasce se a mae nao ajudar, que eu tinha que ajudar. Gente, que loucura! Nao dava pra discutir. Me mandou subir na maca pra fazer força. Eu disse que não queria a maca, que a maca era horrivel, que era insuportavel. Nao teve essa. Subi, me dirigia para fazer força (nao sei se nessa hora ou depois disso que ela viu que não havia mais colo do utero e que estava com dilataçao total). Fazia força e ela dizia q tava errado. Que tava no ombro, no pescoço, que não adiantava gritar, que se gritasse não ia dar certo. Me lembrava que era a força de fazer cocô... Eu tentava e ela foi metendo a mao pra dentro da minha vagina (acho que, generosamente, pra sentir se estava certo ou pra saber se o bebê descia... O motivo real era seu gosto pela tortura). Nem saberia dizer a você o que ela fez, se era um dedo, dois, tres, a mao inteira. Não me pediu nem comunicou que ia fazê-lo, mexia interno, doia horrores. E eh claro que dessa forma eu não conseguia mais nada, nem sei onde estava eu naquela sala. Ja sei, eu estava implorando pra parar e pedindo cesarea. Também pressionava a minha barriga para contrair. Quando a contraçao cessava ela vinha apertar, funcionava, doia muito. Nao era Kristeller, a ideia não era empurrar o bebê, mas contrair. Tambem ironicamente ao longo desse processo, antes dessa ultima cena, ela tentava auscutar meu filho e nao conseguia. Eu ja estava enlouquecida. Tentava perto do meu umbigo. Acabei ficando de pe. Expliquei pra ela que a moça anteriou havia o escutado ja entre a barriga e a pelve, tentando ajuda-la a encontrar. Mandou voltar pra maca, eu pedi pra tentar naquela posiçao. Ela disse: assim eu nao consigo. Ora diabo! Nem na maca...! Ela nem tentou e eu não disse nada, so pensava que queria meu filho vivo. Subi na maca e ouvi ela reclamando com outros dois que eles nao ajudavam em nada mexendo no celular. Atente-se ao fato que eu não sei quantas pessoas estavam na sala, que eu urrava de dor e que tinha contraçoes uma atrás da outra. Na maca ela ouviu o meu filho bem vivo e bem esperto ja na parte pelvica mesmo, onde eu havia dito. Apesar disso saiu da sala e voltou rapido depois da tortura que já lhes relatei dizendo pra eu escolher entre ocitocina e cesarea. Nem pisquei. Já tava pessimo sem ocitocina com essa pessoa. Foram preparar a cesarea enquanto eu tentava ficar de pe. Quiseram pulsionar minha veia durante contraçao. Gente... Não dava. Eu tremia toda. Me colocaram numa cadeira de rodas muito putos de terem de aguardar terminar a contracao pra isso. Corriam feito loucas, bateram minha cadeira contra umas duas ou tres coisas no caminho e eu contraindo... "Por favor, vcs precisam tomar algum cuidado comigo, eu to com muita dor." Se riam. "A gente ta cuidando, a gente tem que ir rapido." Chegaram na sala e, nao sei se era deboche, mas eu achei que sim, uma delas informou: "ela disse pra tomar cuidado com ela, ué a gente ta cuidando neh?" Na sala da cesarea eu so pensava na anestesia. Cade a anestesia? Os caras tavam putos porque a veia nao chegou puncionada. Alguem explicou: "ela nao deixou". Nessa sala os caras foram mais razoaveis e inclusive antes de dar a anestesia esperaram uma contracao. Enquanto tavam dando veio outra, nao soube se ia aguentar parada... Mas fez efeito a tempo. Nem se imagina como eu estava feliz com aquela cesarea. E dali nasceu meu filho e, depois de todo esse horror, ele era lindo, ele estava saudavel e eu me sentia alegre. Mas é inacreditavel e absurdo que tenha sido assim. Tudo o que eu idealizei foi um parto com respeito. E foi assim que aconteceu.
Obs: eu fiz um plano de parto em 3 vias e bem completo. Dizia que nao queria que estourassem a bolsa ou induçao para fazer força e muitas outras coisas.
Obs2: No quarto que fiquei havia 3 moças de parto normal. Apenas uma com laceraçao pequena (3 pontos), outra com mais pontos, mas não sei detalhes. E uma com laceraçao interna e externa...
Obs3: Meu marido me apoiou o tempo todo, me ajudando com massagem e com agua quente com uma toalha nas costas enquanto eu estava na bola. Pra ele foi muito dificil me ver naquele estado de dor. Ele ja estava muito abalado quando o circo dos horrores aconteceu. Eu não consegui me defender e ele também não conseguiu. Ficam as marcas pra nós dois... Talvez bastasse dizer: "quero outro profissional, não aceitaremos seguir com você"... Mas não fomos capazes. Não sei o quanto a doula interviria, mas ainda que não fizesse, a propria profissional agiria de outra forma. Eles separam os pacientes entre os que tem doula e os que nao tem...
Obs 4: havia espera por sala no corredor e na minha saída entraram rapido pra limpar e dar espaço pra outra. Sim, o fluxo faz diferença no atendimento.
Obs5: dá vergonha falar do meu estado tao fragil, ter tido medo de continuar e escolhido a cesarea ao inves da ocitocina (vergonha mas nao arrependimento), vergonha de não ter sido "forte" ou que menosprezem o que se passou comigo, como se eu fosse "fresca". E uma infinita tristeza com a realidade obstétrica atual e por me sentir vítima, quando fiz muito pra ser dona da situação. Todo o meu saber, naquele momento, serviu pouco.
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