domingo, 23 de outubro de 2022

Roupas rasgadas

 Hoje meu filho ouviu que parecia um mendigo
Que pedia esmola por ser tão pobrinho
Por não poder comprar uma calça
E a graça, uma brincadeirinha, vinda de pessoa querida, 
Me deixou estilhaçada
E diante de muitos por quês
Me vejo considerando as pobrezas no mundo
E os valores que passamos por falas tão poderosas e ingênuas
Tão massacrante o olhar do outro e as múltiplas verdades

Sim, a calça tinha um furo
O furo que eu não tapei
A verdade é que convivo com muitos furos
E escolho de quais deles vou me ocupar

A primeira coisa foi a culpa!
O que ele tem que ouvir
Pelas minhas escolhas e imperfeições
Uma ponderação de gravidade: 
Eu deveria me importar mais com essas coisas?

Lembrei-me de conversarmos juntos
Eu e ele sobre furos em roupas
Roupas essas que peço que ele use
Que gaste, que usufrua
Roupa que não preservo, ao contrário
Vejo roupa gasta e me orgulho
Roupa vivida pelos sonhos do meu filho

E costuro? As vezes sim!
Tiro um tempo e vão várias de uma vez
Mas esse tempo não é sempre
O sempre é gastar a roupa
E levo e trago e brinco e aposto
E não vejo no furo nem problema nem desleixo
E não vejo pobreza, não ligo muito...

Lembro do meu pai já no fim da vida
Que usava suas roupas gastas e confortáveis
E nem tão belas, nem preservadas
Mas que iam pra rua
Ele já nem ligava
Pros olhares que sobre ele pairavam
Sobre os pensamentos que viriam

E noto algo assim em mim também
Eu que não sei me vestir bem
Nem pobre nem com mais dinheiro
E que as vezes uso calça com furo na coxa
Também por não achar roupas tão confortáveis
E não ter, de fato, grana pra mandar fazer
Ou o tempo pra procurar o bastante
Uma calça que me dê prazer
Eu que não subo nas árvores
Eu que pouco sento no chão
Eu que não me arrasto, nao dou pirueta, 
Não uso minhas roupas de forma tão fundamental

Eu não sou minhas roupas
Ou sou eu mesma a esburacada?
Meio esfarrapada?
Alguém vê beleza assim em mim?




quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Sabe ler e escrever?

Essa é uma pergunta para todos do senso do Ibge. E é uma das que considero mais emocionantes.

Tem umas três ou quatro versões de resposta, lembrando que é um questionário sem margem pra subjetividade. Mas... como quem faz a pergunta é uma pessoa e como quem responde é uma pessoa, ela aparece, a bendita subjetividade!

Primeiro subtipo: o que tem um histórico já mais estabelecido quanto ao acesso à educação: sabe ler e escrever? Sim. Um sim quase cansado, a pergunta parece redundante, boba, meio absurda. Só falta a pessoa perguntar: tá pensando que eu sou o quê?

O segundo subtipo é o de famílias em ascensão educacional. Uma maioria sabe ler, mas a mãe, a avó, o avô não sabem. Se orgulham muito em falar dos que sabem, quando alguém da família chega à universidade é citado ainda que não tenha sido perguntado. Algumas famílias se orgulham daquele que "terminou os estudos" o que significa que concluiu o ensino médio.

O terceiro grupo é o que não sabe ler ou escrever. Acontece de dizer logo que não sabe e acontece também de dizer que sabe escrever o próprio nome. O que me chama a atenção nesse grupo é uma tristeza para responder a isso e um similar de pedido de desculpas, algo que justifique aquela situação, em geral um relato sobre a precoce inserção no mercado de trabalho e a necessidade de lutar pela sobrevivência.

E essas pessoas muitas vezes não apenas não sabem escrever, intelectualmente acabam se desenvolvendo menos, vivem uma vida de precarização. E quando você olha toda conjuntura parece tão absurdo cogitar que aquele ser não teve outro futuro, não foi capaz de algo mais, por falta de esforço, como julgam alguns... e ainda, o segundo grupo, dos que tiveram a oportunidade de estudar um pouco mais, em sua maioria não o fizeram vencendo as intempéries exatamente mas sim tiveram apoio dos que não puderam fazer o mesmo. 

A meritocracia é uma injustiça sem precedentes. Julgar uma pessoa por seu insucesso é desconhecer sua história e subjetividade.