Hoje meu filho ouviu que parecia um mendigo
Que pedia esmola por ser tão pobrinho
Que pedia esmola por ser tão pobrinho
Por não poder comprar uma calça
E a graça, uma brincadeirinha, vinda de pessoa querida,
E a graça, uma brincadeirinha, vinda de pessoa querida,
Me deixou estilhaçada
E diante de muitos por quês
Me vejo considerando as pobrezas no mundo
E os valores que passamos por falas tão poderosas e ingênuas
Tão massacrante o olhar do outro e as múltiplas verdades
E diante de muitos por quês
Me vejo considerando as pobrezas no mundo
E os valores que passamos por falas tão poderosas e ingênuas
Tão massacrante o olhar do outro e as múltiplas verdades
Sim, a calça tinha um furo
O furo que eu não tapei
A verdade é que convivo com muitos furos
E escolho de quais deles vou me ocupar
A primeira coisa foi a culpa!
O que ele tem que ouvir
Pelas minhas escolhas e imperfeições
Uma ponderação de gravidade:
Eu deveria me importar mais com essas coisas?
Lembrei-me de conversarmos juntos
Eu e ele sobre furos em roupas
Roupas essas que peço que ele use
Que gaste, que usufrua
Roupa que não preservo, ao contrário
Vejo roupa gasta e me orgulho
Roupa vivida pelos sonhos do meu filho
E costuro? As vezes sim!
Tiro um tempo e vão várias de uma vez
Mas esse tempo não é sempre
O sempre é gastar a roupa
E levo e trago e brinco e aposto
E não vejo no furo nem problema nem desleixo
E não vejo pobreza, não ligo muito...
Lembro do meu pai já no fim da vida
Que usava suas roupas gastas e confortáveis
E nem tão belas, nem preservadas
Mas que iam pra rua
Ele já nem ligava
Pros olhares que sobre ele pairavam
Sobre os pensamentos que viriam
E noto algo assim em mim também
Eu que não sei me vestir bem
Nem pobre nem com mais dinheiro
E que as vezes uso calça com furo na coxa
Também por não achar roupas tão confortáveis
E não ter, de fato, grana pra mandar fazer
Ou o tempo pra procurar o bastante
Uma calça que me dê prazer
Eu que não subo nas árvores
Eu que pouco sento no chão
Eu que não me arrasto, nao dou pirueta,
Não uso minhas roupas de forma tão fundamental
Eu não sou minhas roupas
Ou sou eu mesma a esburacada?
Meio esfarrapada?
Alguém vê beleza assim em mim?
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