quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Sabe ler e escrever?

Essa é uma pergunta para todos do senso do Ibge. E é uma das que considero mais emocionantes.

Tem umas três ou quatro versões de resposta, lembrando que é um questionário sem margem pra subjetividade. Mas... como quem faz a pergunta é uma pessoa e como quem responde é uma pessoa, ela aparece, a bendita subjetividade!

Primeiro subtipo: o que tem um histórico já mais estabelecido quanto ao acesso à educação: sabe ler e escrever? Sim. Um sim quase cansado, a pergunta parece redundante, boba, meio absurda. Só falta a pessoa perguntar: tá pensando que eu sou o quê?

O segundo subtipo é o de famílias em ascensão educacional. Uma maioria sabe ler, mas a mãe, a avó, o avô não sabem. Se orgulham muito em falar dos que sabem, quando alguém da família chega à universidade é citado ainda que não tenha sido perguntado. Algumas famílias se orgulham daquele que "terminou os estudos" o que significa que concluiu o ensino médio.

O terceiro grupo é o que não sabe ler ou escrever. Acontece de dizer logo que não sabe e acontece também de dizer que sabe escrever o próprio nome. O que me chama a atenção nesse grupo é uma tristeza para responder a isso e um similar de pedido de desculpas, algo que justifique aquela situação, em geral um relato sobre a precoce inserção no mercado de trabalho e a necessidade de lutar pela sobrevivência.

E essas pessoas muitas vezes não apenas não sabem escrever, intelectualmente acabam se desenvolvendo menos, vivem uma vida de precarização. E quando você olha toda conjuntura parece tão absurdo cogitar que aquele ser não teve outro futuro, não foi capaz de algo mais, por falta de esforço, como julgam alguns... e ainda, o segundo grupo, dos que tiveram a oportunidade de estudar um pouco mais, em sua maioria não o fizeram vencendo as intempéries exatamente mas sim tiveram apoio dos que não puderam fazer o mesmo. 

A meritocracia é uma injustiça sem precedentes. Julgar uma pessoa por seu insucesso é desconhecer sua história e subjetividade.

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