quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O carrinho negro

 Fui fazer compras maiores de hortifruti. O carro me deixara dois lances de escada abaixo do estabelecimento e pergunto preocupada ao que parecia ser a dona dali: tem carrinho pra levar as compras? Afirma que sim. Pego a vontade tudo o que preciso e ao final, no caixa, peço o carrinho.

O carrinho tinha dois braços fortes e cor negra. Fiquei tão embaraçada. Não era possível que fosse isso. Mas era. A proposta era que eu o acompanhasse. Esse que tudo aguentava e a quem o peso das minhas compras caberia. Queria deixar tudo ali mas já estava pago. Disse que iria levar aos poucos, que não se preocupasse. Riu pra mim. Ou de mim? Garantiu-me que estava acostumado. 

Dividimos as caixas. Carreguei o máximo que conseguia. Ele incomodado, reclamou. A dona do estabelecimento sem entender ou entendia, parecia incomodada. Ele também carregou coisas minhas... que desconforto. Dois andares, um corredor... abri o carro pra pôr as compras. Ele aguardou, precisava da caixa.

Nunca mais voltei. Como que ainda tratam pessoas assim? "Ah, Ana, mas ele é pago pra isso. Ele ganha com isso. Ele precisa desse emprego"... é gente! As vezes a gente precisa mesmo de algum apoio. Precisa de um trabalho. Um trabalho que acaba com seu corpo, que te massacra de alguma forma, ele precisa ser muito bem pago. Aquele menino paga com o corpo. Como pagam os trabalhadores de funções pesadas. Trocam sua saúde por sua subsistência imediata. E quando não tiverem saúde pra trabalhar serão descartados. E como sempre receberam só uma ajuda pra não morrerem de fome, não têm reservas. E agora lhes resta a saúde pra cuidar e o dinheiro pra ganhar. 

Não entendo nenhum trabalho pesado como um mal necessário. Eles dão seu preço, alguns me dirão. É verdade, as vezes ganham o quanto cobraram. Mas não é simples assim. Herdeiros da desigualdade pedem o quanto vale o seu serviço. Não porque assim acreditam ou o quanto precisam num mundo ideal. Se encaixam num sistema perverso que transforma pessoas em carrinho de carga. Talvez porque se não for carrinho de carga corre o risco de não ser nada.

Existência

Muito tenho pra dizer sem saber quem pra ouvir
Eco! Eco! Eco!
Me escuto.
Eco! Teco! Meço!
As palavras vão se torcendo, aparecendo outros sentidos. E os sentidos, as vezes tão certos, nem sempre escritos, causando um equívoco aos que lêem. Ela disse isso, dirão. E as vezes disse mesmo. Mas não era bem isso. Eu queria dizer...
Era outra coisa. A coisa nunca dita, que eu mesma não sei. Procuro saber, perdida em mim, no mundo, perdida aí. Você sabe?
Claro! Quem não sabe? O que saberia? Sabe que você é um ser no mundo? Poderia ser qualquer um. Quem você é? Que anda fazendo consigo? Vou levá-lo a beira do cais...
Ou no alto das árvores. Ou no vento que inventa. Quem venta?
Vem tu. Vem que te espero, de braços abertos e alma sedenta. Dos bons encontros, das muitas cores, dos universos. Incrível o mundo quando estamos juntos.
Ah, chá! Acho que precisamos de um tempo. De uma verdade compartilhada, do pensamento aberto. Olha pra mim. Eu existo aqui.

sábado, 19 de novembro de 2022

Aniversário

 Hoje é meu dia de aniversário. Ontem quando estava quase chegando a hora eu pensei que faria 36 anos. "Nossa! Um arremedo de gente", pensei. Depois achei que não. Não sou uma quase gente ou cópia mal feita - fui conferir no dicionário a precisão do nome. Apenas chego aos 36 anos sem um lugar no mundo do qual me orgulhe. Profissionalmente nem preciso comentar, mas vou. Escolhi das profissões que considero mais próprias a mim, mas não fui capaz de conseguir trabalhar. Depois de escolher a psicologia escolhi a psicanálise. E chego ao brilhante momento em que me pergunto se serei capaz de trabalhar com ela algum dia. Não por incompetência propriamente, já que até considero minha trajetória satisfatória e tem tudo a ver com como vejo o mundo. Mas por insegurança. Trabalhar justamente com o não-saber porém no lugar de suposto-saber. Ocupar lugar de furo com certo semblante de mestre. Trabalhar com transferência sem responder à demanda quando me sinto mal com a sensação da impotência. Ainda posso incluir a demanda do nosso tempo e a questão das redes... Psicanálise é o meu amor. Será um caminho sem volta? 

Daí investi na família. Sonhei com filhos bem resolvidos, amorosos e sei lá o que mais. E o que tenho é uma maternidade que nunca dá conta do que eu queria e filhos desaforados e desrespeitosos. Maravilhosos também, mas arrisco dizer que sinto-me mais infeliz que feliz com a forma das coisas. Também não consigo me ver sendo muito diferente de quem sou nesse quesito.

Já meu marido, sonhei que seríamos felizes para sempre. Ele não é feliz. É bem lamentável. Sim, não é exatamente eu. Mas construímos uma vida juntos. Juntos. Uma vida que pra ele tem pouco valor ou ânimo de viver.

Agora, tendo localizado um pouco onde estou, vamos lá: 36 anos...