domingo, 25 de dezembro de 2022

Processo de desenvolvimento

 "Quando a gente gosta é claro que a gente cuida

Fala que me ama só que é da boca pra fora

Ou você me engana ou não está madura" Caetano Veloso - Sozinho


Hoje passei por tantas dificuldades e ao final do dia me via cantando essa música e pensando... é... não estão maduros. Não estão maduros. As vezes algumas peripécias pesam mais. As vezes pela qualidade as vezes pela quantidade.
Tivemos um dia puxado. Mas desde muito cedo que por qualquer parada na rua a inquietude dos meninos, e especialmente do Davi estava exacerbada. Mexe em tudo, se roça, desobedece - detesto essa palavra, mas é isso - ignora, escala lugares impróprios, enfim! Uma lenha só. Estávamos exaustos. Não bastasse, eu teria que aguardar muito tempo ou ir pra casa por outros meios. Preferi ir de ônibus com eles e bolei todo um roteiro de andar de guarda-chuva - o que é muito legal - e trocar de ônibus no terminal, passando pelo túnel e descer pegando chuva e pulando nas poças até em casa. Foi muito bom. O riso correu solto. Nao teve "não pode", no máximo pedia que não se afastassem de mim. E tudo deu certo. Chegamos em casa e um preferiu o banho quente no chuveiro, o outro o banho gelado na piscina. Ok. Todos foram atendidos. E eu tentei curtir um pouco da piscina também. Toda molhada, apesar do dia meio frio, tínhamos o coração quente, troquei de roupa e fui. Pouco depois entrei em casa, deixando o mais velho no meu box e indo dar banho no mais novo, que já estava ali há uns minutos. Quando chego o banheiro está absolutamente molhado. E quantas mil vezes eu lhe pedi pra não molhar? 4 anos de tentativas de piso seco. Sequei, falei sério, me chateei. Fui dar banho no outro. Um cheiro no banheiro... logo saquei: meu sabão líquido... mas não! Era meu óleo seve.... briguei, me chateei e levei ele pro banheiro dele. Dividiria o box com o irmão. Chego no banheiro e o miúdo está em cima de um banco que pegou para alcançar o creme de cabelo. Ou seja, sempre, onde eu não estava, algo de errado acontecia. E logo depois de toda aquela atividade de ônibus, chuva, cumplicidade que fortaleceu nossos laços, nos aproximou, irreverências. E pra mim aparecia uma interrogação a respeito do amor. 
Com a cabeça no lugar eu consigo descentralizar a atenção de mim mesma e entender que eles estavam em processos de forma independente de mim. Então, ao invés de fazerem as artes PARA me irritar, afrontar, etc. Eu posso ver que eles fazem aquilo que lhes parece muito interessante apesar de mim, ou ainda, absolutamente sem me considerar, dando voz apenas à própria vontade. E eu sinalizo a minha existência, reclamo o trabalho que sobra pra mim por causa dessas escolhas, dos produtos que foram gastos para fins que não são os seus. Infelizmente é comum eu jogar-lhes afirmações em forma de perguntas que são nocivas: você quer estragar? Você quer jogar no lixo? Você sabe que é errado, você quer me ver irritada? E eu sei que não é nada disso. Apenas o brincar vem na frente. A criação, invenção, diversão vem em primeiro plano. Não é sobre mim. É pra muito além de mim. Eu não estou na cena.
Mas me canso. E sigo na árdua tarefa de dar contorno, de dizer que sim: existe o outro, limite. E eu percebo em mim uma demanda que é a seguinte: em nome do amor por mim não façam essas travessuras. 
E volto à música: "quando a gente gosta é claro que a gente cuida". A gente cuida. E o que é o ato de cuidar do ser amado? Qual o limite entre dar de si e ser apagado nos próprios desejos? Um equilíbrio possível...
"Fala que me ama só que é da boca pra fora" quem poderia afirmar isso? Como a gente sabe o que mora no outro e de que forma? Quais os nossos limites diante das limitações desses outros?
"Ou você me engana ou não está maduro"... pois é! E quando fica maduro? Quando a gente aprende a amar direito? Quem atesta? Quando a tpm vai ser a responsável ou você mesma? Quando é "coisa de homens" ou responsabilizamos aquele que fez conosco um compromisso? 
Quando a gente é mãe existe um futuro que nos assombra. O futuro que entregamos e o futuro que nos assola. E com meus filhos com 4 e 6 anos eu me pergunto sempre sobre esse quando. Quando melhora a empatia? Como cada um deles vai se relacionar com seus pares se doando mais ou menos, com mais ou menos receptividade e entrega. E o respeito? Quando vão se distanciar reconhecendo um certo cenário que os cerca, respeitando as regras dos lugares, as pessoas que eles prezam...
Em que ponto cada um de nós está nesse processo? Somos criança-adulto?


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