sexta-feira, 21 de abril de 2023

Coisas são coisas

 Meu pequeno maior filho, o que quando tinha dois anos se tornou grande, afinal agora havia seu recém-nascido irmão, está percebendo com bastante clareza o valor de coisas e pessoas. Começo a perceber que em breve ele conseguirá ver beleza na velhice embora tanto se faça para que ela seja precarizada. Já tem um tempo que me diz que pessoas são mais importantes que coisas e com isso entende que seus objetos lhe estão à serviço. Às vezes preciso lembrar que também devemos cuidar das coisas, mas confesso um gosto tremendo quando ele me mostra a blusa absolutamente cheia de terra com orgulho e dizendo: "essa blusa conta a história de um tombo meu". E olho e ouço e lavo... pois já contou e já podemos viver novas histórias. Mas há histórias que nem sempre basta lavar.  Ainda tenho roupas furadas pelo dente do cão que avançou sobre mim. Uso, gosto da blusa, conto a história do furo não remendado por mim. Não uso na rua, guardo para a minha intimidade.
Vejo ele, meu filho, tão safo, tão capaz de dar tchau a um objeto ou a me dizer que ele ou a diversão dele ou o que importa pra ele é sempre mais importante que qualquer objeto. Quero cada vez mais sentir-me capaz também. Receber de meu filho as minhas próprias lições e deixar pra trás objetos que não me servem mais.

Aprendendo a morrer

 Estou envelhecendo aos poucos desde sempre. Mas agora fica mais claro, mais visível e sentido. Olho os mais novos de um certo altar, como se as experiências que tive valessem algo. E valem. Percebo que muitos deles têm a me ensinar, começo a perceber certo constrangimento. 
Acho que essa verdade bateu em mim mais forte quando, outro dia, subi a Pedra de Itaipava. Conversávamos eu e outros dois moços. Eu com 36, o rapaz que parecia o dobro mais velho que eu tinha 32 ou 34 e o mais jovem dez a menos que ele, com 22 ou 24. E percebi que eu era a mais velha, coisa que jamais teria se passado pela minha cabeça. E, ao mesmo tempo que me sentia tendo muito a lhes acrescentar, os via ali tão sagazes na subida da montanha e a me esperar. A me esperar pelo atraso que tenho das minhas outras muitas funções que não incluem subir a montanha...
Então se por um lado reconheço pra mim um lugar de produtividade, afinal em tempos de capitalismo quem somos nós se não nos reconhecermos produtivos, por outro, mais uma vez me deparo com a minha produtividade tão aquém ao que eu merecia ou que o mundo merecia de mim. Tão verdadeira, pois me dou todo o dia, quase o dia inteiro. Às relações, à Escola, aos afazeres da casa. E se por um lado não vejo valor, por outro entendo que seja o valor em si: me dou ao que acredito, aos meus, à minha vida mais íntima. Mas perco um pouco de mim mesma. Inclusive a parte de mim que deseja ser psicanalista. 
Lembrei-me do meu pai. Quantas foram as vezes que mencionamos ele como alguém cuja potência foi pouco entregue? Deprimiu. Enquanto envelheço, sinto o tempo me amassando, espremendo a pergunta quem eu sou e a quê vim. Não queria ter destino amargo como o dele. Reconheço em mim uma potência que desconfio se seria validada no mundo. Preciso gritar ao mundo que tenho riquezas a oferecer. Há quem queira, preciso achar meu lugar.
E assim vou tentando que a morte faça sentido, que eu seja dispensável até para mim mesma, concebendo um fim lógico que perpasse meu emocional e, em plena paz, com a missão cumprida, eu me vá e me despeça de mim sem tanta saudade.

Eu canto, tu cantas

Hoje estou correndo. Estou com pressa. Já é amanhã. Tenho que arrumar. Tenho que limpar. Tenho que lavar. E tenho filhos. Já era hora deles dormirem e eu apressada e precisando ser rápida.

E então me irritei internamente um pouco com a exigência de que precisa ser a mamãe. Tenho coisas a fazer.

Parei. Respirei. Eles estavam exaustos, ontem dormiram tarde e, portanto, dormiram pouco. Já tínhamos apagado umas pequenas labaredas... e entendi que melhor pra mim era ir eu mesma.

E apaguei as luzes, e dei neles um beijo e boa noite. E respirei fundo, acalmei minha alma e iniciei a cantar Cazuza. Depois migrei pra um ponto de umbanda que fala das rosas. E então Cidade Negra. Cantei ainda Leva no seu bumbar e fiquei saudosa do meu pai.

Enquanto eu estava ali, me acalmando do tanto de coisas que eu tinha pra fazer e escolhendo as músicas que eu gostaria de lhes entregar hoje, percebi o presente que dava a mim mesma a cada dia que podia dedicar uns minutos a cantar pros meus pequenos. O quanto aquele momento diferia de todo o resto dentro de mim. E agora me pergunto onde ou pra quem vou cantar quando eles prescindirem de mim para adormecer.