quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Noite

 Os olhos cansados que quase fecham

A tela que passo sem sentido

O silêncio da madrugada, um gotejar

Minha gata, quentinha companhia

Preciso ir, preciso ir

Um duro amanhã me aguarda

Descansar, estar pronta para aguentar

Realizar as tarefas, girar o dia

Empurrar com a barriga mais um pouco de vida

Meu prático destino, desatino?

Existo no desabrochar dos filhos

Num velho mix de sentimentos

Entre gostos e desgostos

Escolhas feitas e reafirmadas

Arrependimentos sem retorno

Sem estrada

Sem placa de direção ou regulação

Tateio  e sigo meu coração

Que agora me leva à minha cama

Sem forças para tomar banho e pôr pijama


sábado, 7 de outubro de 2023

O dia dos cães

Era um dia como outros dias
Chovia como em muitos dias
Estava muito muito frio e eu subia pesada das muitas roupas que vestia
Acompanhava-me uma tristeza característica daqueles tempos e uma esperança de um futuro que, de certa forma, eu já saboreava
Eu estava só
Eu era tão só
Eu sentia que estava atrapalhando por toda parte
Minha existência incomodava
Uma existência que exige uma prática, um olhar e um sustento
Existência inconveniente a minha
Até que eles correram até mim
Sentaram-se à minha frente
Fitaram-me nos olhos em silêncio
E me atacaram
Os dentes cravados em meu braço acolchoado de roupas
E latidos ensurdecedores e contínuos
O que fiz pra eles? Me perguntavam.
Existi. Passei por ali. As vezes eu mesma me perguntava: por que eu? Se a manhã toda eles latiram para outros aos quais não atacaram?
Devo mesmo ter feito algo. Talvez o meu silêncio, talvez a inconveniência do meu olhar ou da minha quietude e passividade.
Nunca saberei o que eu fiz...
Mas fui para o hospital, atrapalhando a rotina 
Ala de mulheres e eu sozinha
Pois algumas rotinas sequer foram atrapalhadas
Respondi por mim, eu sabia me falar
Só estava no lugar errado
E também por isso permaneci só
Algumas paredes ao lado estava ele
Que não podia entrar
Até ele eu caminhava, me punha a andar
Com ele fui me vendo e tendo para onde querer ir
Esse é um retrato de como sobrevivi até então e apesar de.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Fortaleza

 A vida nos oferece algumas bizarrices pra lidar. Quando meu segundo bebê tinha 2 meses aconteceu de aparecerem várias manchinhas em sua pele. As manchas, bem características, não nos chamaram muito a atenção mas logo nos pusemos a pesquisar sobre elas. Logo de cara foi assustador mas julgamos que o google era meio dramático e mostrava sempre as piores alternativas. Procuramos, procuramos... não havia muitas saídas. Entramos em páginas respeitáveis, centros de pesquisa de doenças raras. Era mesmo o que parecia ser: nosso menino tinha uma doença genética chamada neurofibromatose.

Quando tivemos essa certeza já sabíamos um pouco sobre a doença e o chão se abria sob nossos pés. Faltava ar, a pressão meio baixa, uma criança pequena muito ativa e feliz exigindo atenção pela casa e um bebê sendo amamentado. Quem nos apoia? Com quem podemos contar? Ligamos para aquele que sustenta tudo, supera tudo, olha para tudo com olhar positivo, tendendo ao melhor aspecto possível. Precisávamos daquela escuta.

Ele quis saber o quão certos estávamos da informação. Estávamos certos. Nos disse o que podia de melhor, nos garantiu que enfrentaríamos juntos o que houvesse pela frente. E, depois de desligar, a fortaleza se desfez, chorando sozinho nos fundos da casa.