Era um dia como outros dias
Chovia como em muitos dias
Estava muito muito frio e eu subia pesada das muitas roupas que vestia
Acompanhava-me uma tristeza característica daqueles tempos e uma esperança de um futuro que, de certa forma, eu já saboreava
Eu estava só
Eu era tão só
Eu sentia que estava atrapalhando por toda parte
Minha existência incomodava
Uma existência que exige uma prática, um olhar e um sustento
Existência inconveniente a minha
Até que eles correram até mim
Sentaram-se à minha frente
Fitaram-me nos olhos em silêncio
E me atacaram
Os dentes cravados em meu braço acolchoado de roupas
E latidos ensurdecedores e contínuos
O que fiz pra eles? Me perguntavam.
Existi. Passei por ali. As vezes eu mesma me perguntava: por que eu? Se a manhã toda eles latiram para outros aos quais não atacaram?
Devo mesmo ter feito algo. Talvez o meu silêncio, talvez a inconveniência do meu olhar ou da minha quietude e passividade.
Nunca saberei o que eu fiz...
Mas fui para o hospital, atrapalhando a rotina
Ala de mulheres e eu sozinha
Pois algumas rotinas sequer foram atrapalhadas
Respondi por mim, eu sabia me falar
Só estava no lugar errado
E também por isso permaneci só
Algumas paredes ao lado estava ele
Que não podia entrar
Até ele eu caminhava, me punha a andar
Com ele fui me vendo e tendo para onde querer ir
Esse é um retrato de como sobrevivi até então e apesar de.
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