segunda-feira, 29 de julho de 2024

8M

A mulher não existe, dizem uns por aí.
Essa mulher que não existe é A Mulher, ser total. Diferente do homem com H maiúsculo, que cada vez mais mulheres dizem que não prestou... Coitados. Acreditaram nessa falácia da masculinidade.
Mas a mulher com M maiúsculo a gente vem procurando por aí. E não acontece mesmo. E até as próprias mulheres ficam ali ditando as faltas a ser mulher. Ainda me lembro, na minha análise, eu procurando a substância que me garantia o meu lugar feminino...
E hoje é o Dia da Mulher, que se acha e se perde reforçando o seu lugar. Existe, pede garantias, se empodera, luta pela vida. A sua e a de seus filhos. Povoa o mundo.
Mais um ano se passando. E a minha busca também é a delas. Alguns mesmos lamentos. Uma luta.
Nesse vir a ser, penso que eu queria ter...
a fé da minha mãe
o capricho da tia Neiva
a liberdade da tia Ivone
a organização da tia Sandra
a noção do próprio lugar da tia Clara
a elegância da avó Emília
a dedicação da sogra Natercia
a entrega profissional da cunhada Tatiana
a sensibilidade da cunhada Biah
a musicalidade da tia Bluettinha
a praticidade da Aline
a sensatez da Angelita
a autenticidade da Juliana a articulação da Janete
a força da Luciana
o companheirismo da Larissa
o comprometimento da Rosana
a disposição da Monika
a maternagem da Josi
a receptividade da Michelle
o humor da Patrícia
a persistência da Lyla
a segurança da Jaqueline
a disciplina da Bruna
o acolhimento da Rebecca
a inquietação da Camila
a cultura da Sônia
a sagacidade da Cristiane
a oratória da Denise
a clareza da Bianca
a sinceridade da Rosi
a gentileza da Sabrina
a ética da Ivana
a resiliência da Erediana
a alegria da Priscilla
o olhar da Maria
a delicadeza da Marianna
a firmeza da Carol
a serenidade da Lélia...
E tantas outras queridas eu poderia citar com suas características marcantes. E como que não cabe num ser toda essa potência e multiplicidade do feminino, busco meu caminho meio torto, meio lindo. A gente vai se descobrindo. Pensando o que fizeram de nós e conosco e o que queremos de nós no mundo. Tenho tirado umas fotos minhas. Só minhas.
08.03.2024

Cachoeira da Macumba

Quando eu era menor meu pai me levava nessa cachoeira. Sempre que estou aqui estou com ele. 

E, tambem por esse motivo, trouxe para conhecê-la muitos dos meus amigos, que -de algum modo- vivem minha infância, meu pai, inspirações. E hoje ela carrega em suas águas os sorrisos desses amigos, olhos fechados, meditativos, os corpos dos meus filhos e suas agitações por entre as pedras.

No grupo da escola de caminhada pelas montanhas viemos aqui algumas vezes. E como a caminhada é curta subimos mais e mais. Descobri como chegar na queda d'água -sempre sonhei- mais um pouco descobri a janela do céu e mais ainda uma fazenda de bela paisagem, outra cachoeira e bois soltos. Hoje fui ver seu véu mais cheio. Levamos conosco outros corações para compartilharmos vida. Rostinhos felizes sprayados dessa energia. 

Seguem as águas sem parar. Anos e anos. Seguem as pedras no mesmo lugar. E passamos por elas até passarmos nós. E ficarem elas.

29.03.2024

Uma flor entre pedras

Pedras sobre pedras
Formam escadas, vãos, paredes 
Montanha alta, bela, árida 
Poucas plantas, poucos pássaros 
Muito céu, secura, aspereza 
E num pequeno vão entre pedras 
Faz-se flor na natureza 
E me pergunto a cada passo 
Em que traço dali me enlaço 
O coração batendo forte 
O cansaço e um sinal da morte 
Ali meu corpo tão singelo
Tão frágil, estranhamente belo 
Batendo vento, sentindo o frio 
E seguindo em frente no meu vazio 
Como viver essa rede do humano? 
Num limiar entre a dependência e a independência 
Entre a autonomia e confiança em si 
E entrega ao outro, ao que o outro tem que eu não tenho 
Como ofertar esse saber adquirido? 
E receber também com confiança... 
Construir no mundo esperança 
No meu mundo Construir
Uma flor no meio das pedras áridas

25.07.2024

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Sem especialidade

 Venho querendo dizer ao mundo: sou psicanalista

Seria uma vitória e tanto conseguir subsistir disso que é a minha paixão

Algumas pessoas sabem que sou psicóloga e que quero trabalhar com isso. 

Outro dia, a fim de me ajudar, imagino, uma pessoa perguntou a respeito de eu ter uma especialidade

Fiquei assim tão encucada

É bem o problema da minha verdade

Não há em mim nada de muito especial. Nada a ser anunciado, vendido, ofertado. Talvez um pouco do meu vazio, do meu percurso. Coisas tão não palpáveis.

Ou, por outro viés, que assunto eu dominaria? Querem que eu saiba sobre TDAH e autismo, sobre transtornos mil: ansiedade, depressão e pânico.

E como é difícil para mim dizer que minha maior oferta é minha escuta, um lugar que fui aprendendo a ocupar, uma possibilidade de saber do outro a partir do meu não-saber... 

Como explicar que a formação em psicanálise se dá no caminhar da própria análise? Coisa que fiz com bastante seriedade. 

Resta cantar a música: "você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui"... e não fiz curso de transtorno. Não é o que eu faço. Não é parte do meu sentido de existência. Meu caminho é outro e eu não o fiz a fim de ganhar dinheiro. Eu quis ganhar a vida. A minha própria. Primeiro a gente coloca o oxigênio na gente mesmo, depois cuida de quem nos acompanha.

A verdade é que eu sou muito angustiada com o que eu farei nesse encontro com meus pacientes. Com tudo que não sei, inclusive. E, ao mesmo tempo, sigo investindo há anos em como "não saber" com mais qualidade, com mais capacidade de escuta a fim de poder acompanhar uma jornada absolutamente particular. 

E com tudo isso acho difícil divulgar o meu trabalho. Quero. Como faço?

Fiz uma página no Instagram. Ela poderia estar cheia de arte. Vou insistir, eu gosto. Mas falando em análise: o medo de dar errado é tão grande quanto o medo de dar certo. As lógicas não funcionam. É um transtorno só!