segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Falas num coletivo

Você já foi lá?

Isso é do seu interesse.

Vem cá. Aí está muito sol.

Aí vai ser um negócio de cultura.

É no próximo!

É... não dá pra ficar assim não.

O problema ali é enchente. Quando chega o verão varre tudo.

Lá em casa esfriou à beça.

O quê que é isso!? Está se achando o dono da rua!

Espera aí, motorista!

É isso: o negócio é ganhar dinheiro.

Ela me empurrou em cima do banco mas aí eu fui pra cima dela e o celular caiu no chão. Tá funcionando a internet, tá bom.

Olha, ela tá grandona!

Tá bom, até mais tarde! Beijos!

Foi ou não foi? Foi, né?

O pior é que eu só vou achar no centro.

A menina não vai pegar o ônibus, ela está brincando. Acho que foi ao médico.

Eles estão limpando.

Ela não tem jeito. É o jeito dela.

Acho que ele mora aqui no terminal.



domingo, 18 de agosto de 2024

Meu pai

 Quando meu pai faleceu eu o via por toda parte. E naquela fração de segundo eu tinha a esperança de encontrá-lo. Nos segundos seguintes eu ia me conscientizando que eu jamais o encontraria na rua. Nunca mais. Aquela ausência ia ficando cada vez mais evidente e insuportavelmente fatídica.

Fui deixando de ver meu pai pela rua com o passar do tempo, o que também me aliviava de um enorme sofrimento em constatar novamente sua morte. Assim como sonhar com ele vivo foi ficando menos comum. Era terrível acordar e me deparar com a realidade.

Ontem eu vi um amigo cujo rosto conheço bem e há muito anos. Olhando-o nos olhos de repente senti um pouco de algum traço do meu pai. Ainda não sei precisar qual... talvez a ternura com que me via... talvez algo no brilho dos olhos. Mas desconfio que sejam marcas da idade. Ele vem envelhecendo como todos nós e abaixo dos seus olhos está formando uma certa bolsa causada pela flacidez nessa pele. Fixei os olhos ali por um momento e meu pai esteve presente naqueles olhos. 

A saudade não me trouxe às lágrimas. De certa forma eu gostei de viver aquele momento. Eu não tive dúvidas de que, na verdade, não era meu pai. Eu não precisei relembrar que não poderia ser, da ausência do corpo. O que a experiência me trouxe foi o quanto meu pai está no meu olhar para as coisas. No meu mundo. E que posso ter sua presença em tanto do que eu sinto e vejo por aí. Ele vive em múltiplos fragmentos. Como numa pele que envelhece e se torna flácida junto ao olho, ou em formas paternais nos olhares. Em grandes barrigas duras masculinas. Na crítica que faço das tantas besteiras que escuto - crítica essa que também me silencia a fim de não ser tão tola. Na relação com meus filhos todos os dias. Enfim, poderia ir falando dos cabelos macios grisalhos, da voz - ah! Aquela voz... tomara que algum dia eu ouça algo assim que me lembre a voz dele com clareza... - o nariz parecido com o meu e as unhas dos pés de cascos de cavalo, de tanto traço, de tanto enlace, de tanta falta que ele faz.

domingo, 11 de agosto de 2024

Dia dos pais

Pouco me preparei para o dia de hoje
As homenagens ao pai dos meus filhos ainda passa bastante por mim
Lembrei a data, propus que eles preparassem alguma surpresa
Mas não insisti, não estruturei nada, não me pus a trabalhar
Quer dizer... sabia que o almoço do dia dos pais contava comigo
E trabalhei bastante planejando, comprando coisas, preparando pratos para todos
Fiz pensando no pai dos meus filhos um empadão de queijo com gorgonzola e almondegas de soja
Fiz pensando no pai do pai dos meus filhos um escondidinho de carne e um feijão com paio que ele adora
Lá pelas tantas me lembrei do buraco desse dia
Da vontade de poder disputar umas horinhas para dedicar ao meu pai também
De tudo que fiz, lembrei que os morangos com chocolate da sobremesa poderiam agradar ao meu velho se fossem com creme
No final do segundo tempo fiz o creme
E pensei que oferecia a ele uma sobremesa de restaurante
Dos deuses, que ele lamberia os beiços
Que pediria: "morangos com creme" e seriam servidos
Se ninguém mais quisesse, eu comeria sozinha os morangos com creme
Fiquei satisfeita em acreditar que quem comeria seria o meu pai que habita em mim
Estavam gostosos
Mas se eu for falar a verdade
Se eu pudesse tocá-la
Eu contaria o quanto ainda dói
E dói estranho...
Porque na última semana eu fui prática
Consegui tocar a vida como se não fosse passar um dia dos pais - mais um - sem o meu
E sem chorar sua ausência, minhas saudades...
Sem contar histórias tortas a fim de dar aos meus filhos a dimensão de quem ele foi
Mesmo sabendo que nada que eu diga trará a consistência daquele corpo
E que depois de tantos anos uma boa parte de quem ele é foi criada por mim
Que não tenho a figura real para contrastar com a imagem que faço dele
Queria terminar essa noite vendo as estrelas cadentes
Hoje é o ápice da chuva de meteoros perseidas
Conhecidas como lágrimas de Sao Lourenço
Eu e as estrelas-lágrimas
Num dia dos pais a mais


terça-feira, 6 de agosto de 2024

Minha casa bagunçada 2

Esse assunto da casa realmente me ocupa
Certamente uma solução é ter a "secretária"
Secretária é o nome que alguns dão para empregada doméstica
Ajudante, outros dizem... faxineira
Não me vejo aderindo a esse serviço
Nunca vi essa relação com bons olhos
Talvez se fosse muito bem pago, serviria
Mas aí eu não posso pagar
É uma relação muito desigual
Sei que pensam que é apenas uma relação de trabalho
Não é fácil para mim não
Receber na minha casa para resolver as minhas coisas
Alguém em cuja casa não entro
Que limpará e cuidará de coisas que não são suas
Das quais desconhece valores e histórias
Observando as escolhas subjetivas que me causam minha bagunça
Julgando - quem nunca? - minha vida
Percebendo nossas idiossincrasias
Sem fazer parte 
Sem ser convidada senão para arrumar e limpar tudo do nosso jeito
Sem desejar se sentar junto à mesa
Sem ser prioridade na divisão apertada do finalzinho do feijão
Vivendo, aprendendo, percebendo
Aqui, presente sem alma
E se ficarmos amigas possivelmente sentirei vontade de pagar para que não venha
Vai viver sua vida
Curta, aproveite!
Cuida do seu corpo, surrado de trabalho pesado
Vai fazer a fisioterapia, cuidar da hérnia, fazer caminhada
Tenha uma tarde de qualidade com seu filho
... com o seu filho...
Vendo como trato os meus
Vendo o lugar que eles têm
Sentirá alegria? Raiva?
Não saberei...
E melhor não saber muitas vezes
Ela vem é pra arrumar e limpar
E só
Não pensa, não sente, não é gente
E eu não quero ninguém assim na minha casa
Eu queria era uma aldeia
Onde vivemos de apoio mútuo
Cozinhamos, arrumamos, cuidamos
E o que temos é cada um por si 
Espero que a casa esteja a contento para receber vocês
Com o que eu puder dar
Arrumo a casa um tanto
E vivo também
Mais vivo que arrumo a casa
E quem vier me ajudar que seja por afeto
Com alma pra dar


Minha casa bagunçada

Minha casa me incomoda
Não a casa em si
Que as vezes também me incomoda
Mas sim as coisas na casa
As coisas que se acomodam em todos os móveis
Que se mudam e retornam
Nunca melhoram
As coisas com as quais me acostumo
Coisas feias, amontoadas
Que contam histórias de exaustão e desamparo
E também de sonhos, de lembranças, das quais não quero me desfazer
Vai que preciso delas...
Vai que me vou pro lixo junto com elas...
Arrumo, sobrevivo, funcionamos
Tem roupas lavadas
Tem comida todos os dias
Tem onde servir a comida
E compramos frutas, legumes e tudo o mais
Tem armários as vezes lotados
As vezes ociosos
Do tanto que mora fora deles
Lixo a beça, sempre há o que não foi
E roupas jogadas pelo chão e pelos cantos
Um desânimo e tanto
Mas mesmo no meio do caos
Se me convidam a ver o verde das matas
Ou sorrisos sobre uma bicicleta
Simplesmente vou.
Se o amiguinho quiser vir brincar e tiver um cantinho pra sentar
Eu digo: vem!
Se alguém me chama pra cantar
Se podemos ir ver alguém
Lá vamos nós, vou esperar a casa ficar boa?
E vamos sendo felizes nesse viver
Mas quando vejo a casa e seu estado
Que desgosto, que chato
Precisamos te dar um trato
Mas não é por falta de tentativas
Passam os dias de aula
Aposto que vamos resolver nas férias
E passam os dias de férias
Voltam as esperanças nos dias com aulas
Porque mesmo com um fazer constante
Tem as coisas que precisam ser repostas
E refeitas
São várias refeições no dia, a roupa que torna a sujar, que precisa ser guardada
Ainda que só façamos às vezes
E fica uma sensação ruim
De que isso nunca tem fim