Quando meu pai faleceu eu o via por toda parte. E naquela fração de segundo eu tinha a esperança de encontrá-lo. Nos segundos seguintes eu ia me conscientizando que eu jamais o encontraria na rua. Nunca mais. Aquela ausência ia ficando cada vez mais evidente e insuportavelmente fatídica.
Fui deixando de ver meu pai pela rua com o passar do tempo, o que também me aliviava de um enorme sofrimento em constatar novamente sua morte. Assim como sonhar com ele vivo foi ficando menos comum. Era terrível acordar e me deparar com a realidade.
Ontem eu vi um amigo cujo rosto conheço bem e há muito anos. Olhando-o nos olhos de repente senti um pouco de algum traço do meu pai. Ainda não sei precisar qual... talvez a ternura com que me via... talvez algo no brilho dos olhos. Mas desconfio que sejam marcas da idade. Ele vem envelhecendo como todos nós e abaixo dos seus olhos está formando uma certa bolsa causada pela flacidez nessa pele. Fixei os olhos ali por um momento e meu pai esteve presente naqueles olhos.
A saudade não me trouxe às lágrimas. De certa forma eu gostei de viver aquele momento. Eu não tive dúvidas de que, na verdade, não era meu pai. Eu não precisei relembrar que não poderia ser, da ausência do corpo. O que a experiência me trouxe foi o quanto meu pai está no meu olhar para as coisas. No meu mundo. E que posso ter sua presença em tanto do que eu sinto e vejo por aí. Ele vive em múltiplos fragmentos. Como numa pele que envelhece e se torna flácida junto ao olho, ou em formas paternais nos olhares. Em grandes barrigas duras masculinas. Na crítica que faço das tantas besteiras que escuto - crítica essa que também me silencia a fim de não ser tão tola. Na relação com meus filhos todos os dias. Enfim, poderia ir falando dos cabelos macios grisalhos, da voz - ah! Aquela voz... tomara que algum dia eu ouça algo assim que me lembre a voz dele com clareza... - o nariz parecido com o meu e as unhas dos pés de cascos de cavalo, de tanto traço, de tanto enlace, de tanta falta que ele faz.
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