domingo, 29 de setembro de 2024

Cantando de novo

 Quando eu era bem pequena, algo entre 7 e 9 anos, morava de frente para um grande BNH. Com o olhar se hoje entendo que pros meus pais talvez fosse um certo desgosto, mas a verdade é que pra mim era interessantíssimo. Em algum momento das minhas brincadeiras eu entendi que ali estava o meu público. Era uma casa de dois andares e no sobrado havia uma grande varanda onde eu me punha a cantar em alt9 e bom som para todas aquelas pessoas. E cantava minhas músicas de criança. Por sorte, de todas as janelas havia pelo menos duas onde a luz ficava acesa e me aplaudiam. Eu não tinha acanhamento com aquele natural agradecimento. Cantava mais. Não me lembro bem como os meus shows noturnos tiveram fim... mas eu bem sei que segui gostando de cantar e até querendo ser cantora. 

Meu pai, coitado, se ele me incentivou de algum modo não me lembro. Só lembro do pior: ele reclamando de minha voz de taquara rachada. É... não sei o quanto minha queixa é justa. Hoje, adulta, estranho que meus pais não tenham coibido meus shows para a vizinhança. Também não me lembro de nenhum mal-amado que tenha se queixado. Ou simplesmente alguém que só tinha aquele pouco tempo para estudar para uma prova ou ouvir a sua novela e que não havia pedido ingressos pro meu show...

Enfim, o meu próximo passo musical foi a entrada no coral da Uerj, o Altivoz. Eu já admirava o trabalho deles pela minha cunhada ter participado, coral incrível, com pegada brasileira, com músicas exuberantes e sacadas inusitadas. Ali eu tinha bastante constrangimento. Cheguei nervosa, sem saber como me colocar. Fiz uma primeira experimentação de vocalize solo com o maestro. Foi um va-ô-vá no qual me senti péssima. Resultado: contralto. Já achei aquilo um mau sinal. As cantoras mais cantoras eram sopranos, isso eu sabia - não pensava nas Zelias Duncans ou nas Anas Carolinas... E eu queria aparecer! Pra piorar meu drama as contraltos em geral faziam a segunda voz e a verdade é que eu ficava completamente baratinada. Tinha uma senhora que cantava perto de mim e vivia com a mão tampando o ouvido do meu lado. Eu podia jurar que era pra que eu não a atrapalhasse. Depois relativizei e assumi que talvez fosse pra evitar o som que vinha das sopranos... fato é que com a minha rotina de estágios logo, logo eu perdi, mais uma vez, a minha chance de ser cantora.

Mas segui cantando mais. Reavivei um caderno de tive quando adolescente com letras de músicas. Naquela época era um caderno miúdo apenas com músicas do Cidade Negra. Agora teria de tudo e seria um caderno grande. Ele existe e eu o amo.

Tivemos um grupo chamado Sarau Itinerante. Eu cantava a capela. Cantava com amigos. Dedicava músicas. Era lindo. Hoje canto no coral da escola também.

Poucos sabem mas o nascimento do meu filho mais velho tem muito a ver com uma música que cantei para aplacar a dor de talvez estar gerando um bebê com microcefalia -tive zika na gestação. A música "Tempo Perdido" me trouxe todas as respostas que eu procurava dentro de mim numa tarde onde busquei abrigo na casa do meu amigo Diogo. Ele! Que cantou comigo numa madrugada em que não conseguíamos dormir, vivendo uma tempestade na montanha.

E hoje estou vindo contar que meu filho me pediu para repetir a noite de ontem, quando cantei apenas Gilberto Gil pra eles dormirem. A música dele tem umas letras complexas que eu não decorei e como, para eles adormecerem, canto de cor as músicas, acabo oferecendo pouco de Gilberto. Mas ontem abri as letras e hoje acabei repetindo o feito. Percebi que em algumas músicas eu me sentia insegura com o ritmo ou a métrica. Mas ia. Poucas eu não conhecia. Me ouço e acho bonito. Canto longo, canto cheio, canto de floreios. E termino essa rotina com eles preenchida da satisfação com esse cantar diário que é muito mais pra mim do que pra eles. 

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