Mais uma vez o corpo...
Luto por assumi-lo
Por não desejar ter os cabelos que não tenho
Nem em formato nem em cores
E também o nariz, os seios, a barriga
Hoje a bunda, coxas, braços...
Caramba!
Aproveito olhos
Mas não as olheiras, que são partes significativas de mim
Muito menos as sobrancelhas!
As orelhas, a boca, mãos e pés são ok.
As pernas também não
Nem o formato e nem cuido delas
Vivem marcadas das feridas dos mosquitos
Eu tiro as casquinhas e aí... Tudo roxo, cheio de marquinhas. Já esteve melhor...
Mas como não uso sutiã com bojo e não aliso nem pinto os cabelos sabe que eu me sentia assumindo o corpo?
Ah! Também incluo nessa lista o fato de tirar a roupa na frente de qualquer pessoa a fim de usufruir de praia ou cachoeira
É um trabalho mental exibir um corpo do qual não se orgulha e que foge aos padrões
Mas percebi, não faz muito tempo, como sou tola!
O quanto os cabelos precisam ter sido penteados
O quanto é sem bojo mas é com sutiã
O quanto exibo o corpo se for preciso, mas escolho uma calcinha alta,
No dia a dia nunca uso blusas curtas
Vejo se a roupa me cai bem ou mal
A roupa que mostra mais ou menos o corpo que tenho
E aprendemos assim: esse está ruim porque está marcando
Disfarço,
Apesar de ser impossível,
O corpo que tenho, que busco abraçar
Do qual tenho certa vergonha
Ou mesmo desconfiança
Que adoeceria sem me dizer nada
Que tiro pedaços se eles forem me matar
Que acontece lá dentro uma dança da qual sei pouco
E que é eu também
Outro dia estive numa viagem com um monte de pais da turma do meu filho
Depois de um dia inteiro sem ir ao banheiro, apareceu a vontade
Ponderei se segurava outro dia inteiro e optei por usar o banheiro - viva eu!
E quando fui evacuar estava com a maior prisão de ventre
Não sei quando informei meu corpo sobre meu desconforto
Não sei como
Mas ele soube bem
E respondeu de forma bem equivocada
Porque é bem verdade que eu não queria ir ao banheiro naquela circunstância
Mas igual eu aceito o cabelo e vou a praia
Se dá vontade, eu tento cagar
E se tá tudo preso é um desserviço
Ele tinha era que ajudar!
E a relação com o alimento?
Que desgraça!
Se ele precisa de bons alimentos certamente não me conta
Pelo contrário!
Os pensamentos, a ansiedade, os venenos que já experimentei
Tudo isso me leva para gostosuras
Que não nutrem o corpo - é o que dizem!
Que me deixam com imagem ainda pior de mim
Meu corpo nunca pede: coma salada!
Se pede, nunca ouvi...
E se a salada estiver cheia de agrotóxicos também não informa
Os resultados são vistos de fora pra dentro
Ou sob forma de dor, em geral sem aviso prévio
Então, como se vê decerto,
Vivemos um descompasso eu e ele
E vivemos assim, juntinhos e com intenso convívio
As partes que gosto menos não são inaceitáveis
São ok e aliás muito me servem
Mas a verdade é que sou uma montagem de mim
Me preocupo com minha imagem
Sou extremamente atravessada pelo social e pelo olhar do outro...
E fico sonhando com uma relação mais amorosa comigo
Onde eu me alimentaria melhor
Teria uma imagem que admiro mais
Compreenderia melhor minhas próprias mensagens
E viveria melhor comigo mesma