quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Frustração

O que é aquilo que se perde?
A gente vive a perder
E quando algo acontece
É preciso pagar pra ver
Pagar com nossa alma
Pagar com nosso dinheiro 
Pagar remediando a falta

A gente perde os dentes, o cocô, uma aposta
Aprende a dar tchau com certo lamento
Perdi minha vesícula há alguns anos
Achei que perderia a vida 
E aqui estou 
Perdi meu pai
Tive vontade de ir com ele
E aqui estou
Perdi o ingresso na residência 
E aqui estou
São tantas as perdas que é difícil elencar as mais significativas 
Também perdi quando o cão me mordeu
Já descobri o quê?
Hoje perdi uma fatia de um sonho
E olho pro meu lugar no mundo
Eu, tão cantante, num mundo ruidoso
Ou diante de tanto silêncio 

Procurei os olhos certos
Os tais que venero
E eles estavam fechados
Talvez estivessem meditando ou dormindo
Talvez estivessem olhando pra outros lados
E me faltou minha imagem naqueles olhos 
Fiquei apenas com a minha própria imagem
Aquela que me traduz mais pobre
Que diz que não valeu a pena
E me bateu uma tristeza
Há uns tempos seria um espancamento
Hoje dialogo: oi, tristeza! Que faz você por aqui?
Contingências acontecem... É chato pagar por isso.
Sua presença ocupa muitas ausências, eu sei...
E hoje dou as mãos a ela, que me acolhe
Para amanhã dar vez a novos sentimentos.


sábado, 16 de novembro de 2024

Amizades

Vem chegando uma data 
Que balança o meu coração 
Esse dia que não vale nada
Mas curto essa ilusão 
E a reunião para que me vejam
Que seja ao menos nesse dia 
Façamos uma comemoração!

Quero esses olhos para olhar
A esperança que tenho na amizade
Uma chance de aprofundar 
Um pouco da nossa verdade

E o degradê daquilo que valorizo
As multiplicidades das relações 
Os possíveis que construímos 
As palavras, olhares, emoções 
Estarão comigo nessa data
Os apresento, os alimento, os venero
Amigos para quem abro minha casa 
Minhas bagunças e meus possíveis 
Minha alma íntegra em suas partes
Dadas, lapidadas, (des)valorizadas
E espero que de alguma forma
Creditem valor aos pedaços do que sou

Que eu renasça nessa 38° chance
E que supere meus desconfortos
Arrisque mais ser quem sou
E encontre mais forças na minha jornada
Que sejamos esteio nessa estrada
Uns dos outros, façamos rede, união 
E se um dia eu tiver um lugar 
Certamente lá vocês estarão.





Neurose?

Quando uma pessoa adentra nossa casa 
Entra na nossa vida 
Em particularidades, intimidades
E quando essa entrada é para um serviço 
Ela continua entrando em nós 
Sabendo de nós muito além do que saberia.

E quem recebe?
Recebe uma pessoa
Com suas histórias, com seu modo de ser
Que passa o dia nesse universo outro
Totalmente adverso das suas vivências 
Da sua própria casa

E ela nos dá o que tem
Seu ser, seu corpo, suas palavras, sua força de trabalho e de existir 
As vezes uma hostilidade
Natural do fosso entre os seres e as realidades
Que coexistem a partir de um contrato financeiro

Tenho uma amiga que sublima a hostilidade
É um doce, tem uma entrega linda
E outro dia caiu um ímã da patroa em sua bolsa
Nunca sumiu nada - antes que o leitor identificado ao patrão desconfie
Mas sumiu um ímã de marcar as emoções 
Quadrinho da criança da casa
E estava na mochila dela
Achou, devolveu, poderia estar tudo certo
Sintomas: insônia, ansiedade
Vida que pára, o que eu faço? Como me vêem?
Poderíamos apenas dizer que é neurose dela
Ora bolas! Se ela sabe que não fez nada...
Mas como ocupar esse lugar?
De estar na casa do outro sem intimidade 
Sem que o outro saiba quem sou, minha verdade
Ocupando o lugar de quem quebra, quem rouba, quem perde 
Relação que já sai de um ponto de desconfiança 
De quem está lá por pouco, porque precisa
Que não é visto por uma troca justa mas por ser ajudado
Sendo que o injusto certamente é o valor pago 
Que não sustenta quando o corpo, gasto,
Precisa de remédios, médicos, descanso
Cuja realidade da qual se reclama
Se mantém também pela remuneração 
Que não permite que a pessoa
Mude também a própria realidade
Tendo a chance de ter um carro, se desejar
Passando a mais estudo, mais posses, mais proximidade 
Da casa na qual adentra pra trabalhar
Para poder fazer frente a essa relação desigual 
Mais segura de si e de seus direitos

Fique bem, minha querida!
É só mais uma linha torta na vida.



quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Contrapontos de um corpo

Mais uma vez o corpo...
Luto por assumi-lo
Por não desejar ter os cabelos que não tenho
Nem em formato nem em cores
E também o nariz, os seios, a barriga
Hoje a bunda, coxas, braços...
Caramba! 
Aproveito olhos 
Mas não as olheiras, que são partes significativas de mim 
Muito menos as sobrancelhas!
As orelhas, a boca, mãos e pés são ok.
As pernas também não 
Nem o formato e nem cuido delas
Vivem marcadas das feridas dos mosquitos
Eu tiro as casquinhas e aí... Tudo roxo, cheio de marquinhas. Já esteve melhor...
Mas como não uso sutiã com bojo e não aliso nem pinto os cabelos sabe que eu me sentia assumindo o corpo?
Ah! Também incluo nessa lista o fato de tirar a roupa na frente de qualquer pessoa a fim de usufruir de praia ou cachoeira 
É um trabalho mental exibir um corpo do qual não se orgulha e que foge aos padrões
Mas percebi, não faz muito tempo, como sou tola!
O quanto os cabelos precisam ter sido penteados
O quanto é sem bojo mas é com sutiã 
O quanto exibo o corpo se for preciso, mas escolho uma calcinha alta, 
No dia a dia nunca uso blusas curtas
Vejo se a roupa me cai bem ou mal
A roupa que mostra mais ou menos o corpo que tenho
E aprendemos assim: esse está ruim porque está marcando 
Disfarço,
Apesar de ser impossível,
O corpo que tenho, que busco abraçar
Do qual tenho certa vergonha
Ou mesmo desconfiança 
Que adoeceria sem me dizer nada
Que tiro pedaços se eles forem me matar
Que acontece lá dentro uma dança da qual sei pouco 
E que é eu também 
Outro dia estive numa viagem com um monte de pais da turma do meu filho
Depois de um dia inteiro sem ir ao banheiro, apareceu a vontade
Ponderei se segurava outro dia inteiro e optei por usar o banheiro - viva eu!
E quando fui evacuar estava com a maior prisão de ventre 
Não sei quando informei meu corpo sobre meu desconforto
Não sei como
Mas ele soube bem
E respondeu de forma bem equivocada
Porque é bem verdade que eu não queria ir ao banheiro naquela circunstância 
Mas igual eu aceito o cabelo e vou a praia
Se dá vontade, eu tento cagar
E se tá tudo preso é um desserviço 
Ele tinha era que ajudar!
E a relação com o alimento?
Que desgraça!
Se ele precisa de bons alimentos certamente não me conta
Pelo contrário!
Os pensamentos, a ansiedade, os venenos que já experimentei 
Tudo isso me leva para gostosuras 
Que não nutrem o corpo - é o que dizem!
Que me deixam com imagem ainda pior de mim
Meu corpo nunca pede: coma salada!
Se pede, nunca ouvi...
E se a salada estiver cheia de agrotóxicos também não informa
Os resultados são vistos de fora pra dentro
Ou sob forma de dor, em geral sem aviso prévio 
Então, como se vê decerto,
Vivemos um descompasso eu e ele
E vivemos assim, juntinhos e com intenso convívio 
As partes que gosto menos não são inaceitáveis
São ok e aliás muito me servem
Mas a verdade é que sou uma montagem de mim
Me preocupo com minha imagem
Sou extremamente atravessada pelo social e pelo olhar do outro...
E fico sonhando com uma relação mais amorosa comigo
Onde eu me alimentaria melhor 
Teria uma imagem que admiro mais
Compreenderia melhor minhas próprias mensagens
E viveria melhor comigo mesma