O que é aquilo que se perde?
A gente vive a perder
E quando algo acontece
É preciso pagar pra ver
Pagar com nossa alma
Pagar com nosso dinheiro
Pagar remediando a falta
A gente perde os dentes, o cocô, uma aposta
Aprende a dar tchau com certo lamento
Perdi minha vesícula há alguns anos
Achei que perderia a vida
E aqui estou
Perdi meu pai
Tive vontade de ir com ele
E aqui estou
Perdi o ingresso na residência
E aqui estou
São tantas as perdas que é difícil elencar as mais significativas
Também perdi quando o cão me mordeu
Já descobri o quê?
Hoje perdi uma fatia de um sonho
E olho pro meu lugar no mundo
Eu, tão cantante, num mundo ruidoso
Ou diante de tanto silêncio
Procurei os olhos certos
Os tais que venero
E eles estavam fechados
Talvez estivessem meditando ou dormindo
Talvez estivessem olhando pra outros lados
E me faltou minha imagem naqueles olhos
Fiquei apenas com a minha própria imagem
Aquela que me traduz mais pobre
Que diz que não valeu a pena
E me bateu uma tristeza
Há uns tempos seria um espancamento
Hoje dialogo: oi, tristeza! Que faz você por aqui?
Contingências acontecem... É chato pagar por isso.
Sua presença ocupa muitas ausências, eu sei...
E hoje dou as mãos a ela, que me acolhe
Para amanhã dar vez a novos sentimentos.
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