Um dia de comilanças e encontros
De fazer farra e dar risadas
Celebração do nascimento do filho de deus
E de ganhar muitos presentes de um homem barbudo que mora na neve
Aqui está calor, nunca vi neve
E a grana pros presentes não é farta
Não acredito num deus
As chances de briga são tantas que as risadas podem chegar atrasadas
E teremos mesmo muitas comilanças - que exigem uma dedicação enorme, uma casa para ajeitar... - e encontros também marcados por desencontros.
Que fazemos quando temos nossa mesa farta e finalmente nos vemos?
Lembro-me, nostálgica, da minha tia tão viva e atarefada,
do Sr Orlando contando suas histórias, risonho,
do meu pai, cansado daquilo tudo, pacientemente acompanhando nossos momentos,
da minha outra tia feliz, com uma vida estruturada, e nossas conversas carinhosas,
do meu avô tão forte e saudável...
dos jogos entre adultos e amigo-oculto tão engraçado
e dos melhores presentes que eu poderia ganhar, do lugar de princesa que eu ocupava
Meus quereres tão relevantes.
E as familias se juntavam
Quanta gente!
E hoje sei que esse universo não existe mais. Pessoas estão ausentes. Situações que aconteceram. Meus pequenos não tiveram essa chance. E sobra a família cindida, com um dia para cada lado. A exigência de um feliz natal que ajuda a esse natal não ser assim tão feliz.
Ainda que eu não acredite num deus, esse ideal de amor, de perdão e tolerância é muito atraente.
Mas esbarramos sempre naquela questão do bem. O bem! Que é um pra cada um. E o que se dá não é o que se quer. E faltam reconhecimentos. O que se queria não chegou. Há marcas da falta da vida. Irremediável. E uma dificuldade entre saber os limites da tolerância e do abuso do outro. Quem cede? Fica entre a falta de tolerância e da inflexibilidade do outro. Aparece o quanto não somos lógicos e, nas expansões de cada universo, é mais fácil pisar no calo do outro do que parece...
No meu natal perfeito eu teria quem me olha, me escuta, a quem olho e escuto. Ouvimos músicas. Mostro as minhas, conheço as suas. Preparamos juntos os pratos, nem tantos nem tão poucos. Alternamos trabalho e descanso. E o Natal vai acontecendo num espaço afetivo seguro, onde pensamos o mundo e planejamos pequenas ações para que ele seja melhor. Afinal, não reconheço um filho de Deus. E mesmo sua mensagem é tão atravessada. Mas o esforço de que sejamos melhores a cada ano é muito válido. Não em nome de um homem que morre crucificado para nos salvar numa ode ao sofrimento e à culpa, mas em nome das nossas próprias cruzes e da nossa humanidade, das incoerências e multiplicidades! Que as expectativas de alegria, amor e bem sejam reduzidas e nós nos olhemos com afeto hoje e sempre.
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