Uma folha em sua árvore resiste
Ao vento, ao sol, à chuva
E cai
Umas mais velhas, outras mais novas
Dependendo da folha
Dos bichinhos que a ocuparam
Da severidade das intempéries
Mas ela cai
Um ser humano vive sua vida
E ele nasce imaturo, muito cru
É ensinado mais ou menos
Pelos seus responsáveis
Pelo seu meio, instituições
O salvam mais ou menos dos perigos
Mais ou menos...
E, se tudo der certo, ele se tornará um adulto
Responsável por si mesmo
Terá aprendido uma série de coisas
E outras tantas seguirá aprendendo
Algumas não conseguirá mesmo após uma vida longa
Temos limitações
As limitações que temos são evidentes
Todos temos apesar de não querermos ver
E há vezes em que tocamos o trágico
O trágico muitas vezes cola no azar
Escorre pelas nossas mãos e acontece
E depois vivamos com isso
Quantos de nós não viveu o trágico por falta de azar?
O trágico do outro é sempre fácil de julgar
Nós que tentamos ser os peritos da vida
Que aprendemos a definir o que gostamos ou não
Que pensamos ter um certo controle
O controle sempre parcial
Ter todo controle adoece
Não ter o controle é um perigo
Uma pequena distração e podemos ser atropelados
Uma pequena distração e tropeçamos e quebramos um osso
Uma pequena distração e, ops! Vem uma criança
Uma pequena distração e lá se vai um casamento
Uma pequena distração e reprovamos o ano
Uma pequena distração e sofremos um abuso
Uma pequena distração e cometemos um abuso
Uma pequena distração e fomos levados por uma onda
Uma pequena distração e não percebemos uma doença
Uma pequena distração e erramos um diagnóstico
Uma pequena distração e perdemos uma parte do corpo, ou tiramos de outra pessoa
Uma pequena distração e tomamos uma decisão da qual nos arrependemos por uma vida
Coisas acontecem
Coisas acontecem.
E escorrem pelas nossas mãos
Nos fazem pessoas mais vividas
Que as vezes ficam mais experientes, as vezes mais petulantes, as vezes mais entristecidas
Coisas acontecem.
E aprendemos a viver com elas e apesar delas
Alguns aprendem com isso
Outros não
E alguns carregam a culpa
Pesada culpa
Insuportável
Culpa que não transforma
Que não engrandece ninguém
Que não cura
O limite do erro da vida é a morte
A culpa nos faz morto em vida
Pois paralisa
E diante da morte e do horror
Ao invés de superarmos, aprendermos e assumirmos
Ficamos ali, estatelados, olhando pra morte
Oh, a morte dançando comigo
A morte escorrendo pelas minhas mãos
Eu que sou vida e sou morte
A morte que é tão forte diante da vida
No fim ela sempre vence
E, honradamente, se assumo que o meu melhor foi pouco
Mas foi o que pude dar
Se assumo que o trágico tangencia minha existência
Que tem sua sujeira, sua praga
Com as quais pouco soube fazer
Quem sabe possa tentar de novo
E dar a mim mesma nova chance
De, diante do esfacelamento, criar
Fazendo contorno ao impossível da vida
E à morte que em mim habita
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