sábado, 28 de dezembro de 2024

Perseidas ventaniadas 2024

Faz a pose de que vai pegar a lua!

Eu faço, faço sim

Era noite de chuva de meteoros

Não perco mais. Eu ia! 

Tem quem não perca mais:

Éramos 4 adultos e 3 crianças 

A chegada foi triunfal

Um pôr do sol por entre nuvens

O belo tão acessível 

Mar de nuvens coloridas 

Tons pastéis, aquarela viva

Embevecidos vamos chegando 

Libera o peso

Escolhe o lugar menos desconfortável 

Monta a barraca, arruma as coisas

O melhor lanche do mundo

Um vento frio que nos faz esquecer que é quase verão 

Agasalha as crianças 

Deita na pedra

Respira

Piquenique farto

Energia boa

Passou ali uma fraquinha

Uau! Você viu? Aquela foi grande.

Mas estava devagar

O céu claro pela lua cheia

E com nebulosidades

Mais aberto, mais fechado, olha que lindo!

Vamos dormir? Já é tarde, no meio da madrugada a gente volta!

Volta nada, um vento danado 

Pouca visibilidade 

Curtimos a noite difícil quentinhos na barraca 

Será que a barraca resiste?

Dormimos mal

Rimos do desconforto

O sol nascente estava esplêndido 

O vento era tanto que atrapalhava a guardar as coisas

Guardamos e, pesados, descemos 

Um vento que quase nos levava

Impossível de explicar

Só vivendo na pele

E todos atentos e fortes

Temendo e respeitando

Chegamos cansados

Eu estava descabelada

Mas com beleza nos olhos

Aprendi a olhar que aqueles cabelos

Não são tão apresentáveis 

Daquele jeito não são belos

Mas é essa uma das minhas melhores verdades

Mesmo preso

Uma verdade presa?

Aparece beleza no meu não aceitável 

Eu que tenho tantos inaceitáveis 

Vou tentar pegar a lua!

E observar as estrelas que caem

Sentir o vento que balança a casa

Balançar no vento, me leva!

Não leva não! Me ancoro

Base forte perto do abismo

Me alegro e me salvo

E depois nos vemos

Nos rimos

Há um caminho possível 

Apesar dos impossíveis 

Com tropeços, com riscos

E com belezas mesmo nos embaraços 

Nos arrepios do cabelo e da alma

Estou viva, com beleza no olhar

E tenho uma cama para descansar.

Caminhos divergentes

Um cheiro bom
Um bolo saindo
Um desejo de bolo
Um bolo no prato 
Um gosto esperado

Um encontro bom
Um encontro que vai acontecer
Um encontro muito esperado
O encontro é hoje
Não sei bem o que vai dar

O bom encontro é o que esconde o fosso
No bom encontro o fosso do outro é longe do nosso
O encontro bom tem concordâncias 
E discordâncias que não nos ofendem
No bom encontro há mistério e surpresa 

Nos desencontros as feridas são reabertas
Nosso valor é posto em xeque 
As dúvidas de quem sou emergem
E o que se faz com isso?

Nos bons encontros feridas são cuidadas
Algumas dúvidas são respondidas
As palavras trazem conforto e entendimento
Sorrisos se abrem, declaramos afetos

Quando a diferença do outro desqualifica a nossa diferença 
Ou quando no ideal do outro o nosso possível não foi o bastante 
Parece que a relação vai escorrendo entre os dedos
As vezes falta um olhar, uma palavra, um silêncio, escuta 
Abismo entre eu e você, que se faz com isso
Apesar dos afetos ...?

Quando o que é pra mim um grande valor
Em você é uma grande falta
E o que você tem como conquista
Eu penso que não vale nada

Como conseguir valorizar o outro apesar das apostas em direções tão distintas?
Como conseguir saber  ouvir os valores e conquistas do outro pra além das próprias questões e das ambivalências que nos ocupam? Sem que a inveja atrapalhe ou entendendo que não dá pra ter todas as escolhas. Fazemos um caminho. Cada um o seu. Vivemos um misto entre honrar o caminho escolhido e lamentar os caminhos que não percorremos? 






quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Trágico

Uma folha em sua árvore resiste
Ao vento, ao sol, à chuva
E cai
Umas mais velhas, outras mais novas
Dependendo da folha 
Dos bichinhos que a ocuparam
Da severidade das intempéries 
Mas ela cai

Um ser humano vive sua vida
E ele nasce imaturo, muito cru
É ensinado mais ou menos 
Pelos seus responsáveis 
Pelo seu meio, instituições
O salvam mais ou menos dos perigos 
Mais ou menos...
E, se tudo der certo, ele se tornará um adulto
Responsável por si mesmo
Terá aprendido uma série de coisas
E outras tantas seguirá aprendendo 
Algumas não conseguirá mesmo após uma vida longa
Temos limitações 

As limitações que temos são evidentes
Todos temos apesar de não querermos ver
E há vezes em que tocamos o trágico 
O trágico muitas vezes cola no azar
Escorre pelas nossas mãos e acontece 
E depois vivamos com isso
Quantos de nós não viveu o trágico por falta de azar?

O trágico do outro é sempre fácil de julgar 
Nós que tentamos ser os peritos da vida 
Que aprendemos a definir o que gostamos ou não 
Que pensamos ter um certo controle
O controle sempre parcial
Ter todo controle adoece
Não ter o controle é um perigo 

Uma pequena distração e podemos ser atropelados
Uma pequena distração e tropeçamos e quebramos um osso
Uma pequena distração e, ops! Vem uma criança 
Uma pequena distração e lá se vai um casamento
Uma pequena distração e reprovamos o ano
Uma pequena distração e sofremos um abuso
Uma pequena distração e cometemos um abuso
Uma pequena distração e fomos levados por uma onda 
Uma pequena distração e não percebemos uma doença 
Uma pequena distração e erramos um diagnóstico 
Uma pequena distração e perdemos uma parte do corpo, ou tiramos de outra pessoa
Uma pequena distração e tomamos uma decisão da qual nos arrependemos por uma vida

Coisas acontecem

Coisas acontecem.

E escorrem pelas nossas mãos 

Nos fazem pessoas mais vividas

Que as vezes ficam mais experientes, as vezes mais petulantes, as vezes mais entristecidas

Coisas acontecem.

E aprendemos a viver com elas e apesar delas 
Alguns aprendem com isso
Outros não 
E alguns carregam a culpa 
Pesada culpa
Insuportável 

Culpa que não transforma
Que não engrandece ninguém 
Que não cura

O limite do erro da vida é a morte 
A culpa nos faz morto em vida
Pois paralisa
E diante da morte e do horror
Ao invés de superarmos, aprendermos e assumirmos
Ficamos ali, estatelados, olhando pra morte
Oh, a morte dançando comigo
A morte escorrendo pelas minhas mãos 
Eu que sou vida e sou morte
A morte que é tão forte diante da vida 
No fim ela sempre vence

E, honradamente, se assumo que o meu melhor foi pouco
Mas foi o que pude dar
Se assumo que o trágico tangencia minha existência 
Que tem sua sujeira, sua praga
Com as quais pouco soube fazer
Quem sabe possa tentar de novo
E dar a mim mesma nova chance
De, diante do esfacelamento, criar
Fazendo contorno ao impossível da vida
E à morte que em mim habita

É Natal!

Um dia de comilanças e encontros
De fazer farra e dar risadas
Celebração do nascimento do filho de deus
E de ganhar muitos presentes de um homem barbudo que mora na neve

Aqui está calor, nunca vi neve
E a grana pros presentes não é farta
Não acredito num deus
As chances de briga são tantas que as risadas podem chegar atrasadas 
E teremos mesmo muitas comilanças - que exigem uma dedicação enorme, uma casa para ajeitar... - e encontros também marcados por desencontros.

Que fazemos quando temos nossa mesa farta e finalmente nos vemos?

Lembro-me, nostálgica, da minha tia tão viva e atarefada, 
do Sr Orlando contando suas histórias, risonho,
do meu pai, cansado daquilo tudo, pacientemente acompanhando nossos momentos,
da minha outra tia feliz, com uma vida estruturada, e nossas conversas carinhosas,
do meu avô tão forte e saudável... 
dos jogos entre adultos e amigo-oculto tão engraçado
e dos melhores presentes que eu poderia ganhar, do lugar de princesa que eu ocupava
Meus quereres tão relevantes.
E as familias se juntavam
Quanta gente!

E hoje sei que esse universo não existe mais. Pessoas estão ausentes. Situações que aconteceram. Meus pequenos não tiveram essa chance. E sobra a família cindida, com um dia para cada lado. A exigência de um feliz natal que ajuda a esse natal não ser assim tão feliz. 
Ainda que eu não acredite num deus, esse ideal de amor, de perdão e tolerância é muito atraente.
Mas esbarramos sempre naquela questão do bem. O bem! Que é um pra cada um. E o que se dá não é o que se quer. E faltam reconhecimentos. O que se queria não chegou. Há marcas da falta da vida. Irremediável. E uma dificuldade entre saber os limites da tolerância e do abuso do outro. Quem cede? Fica entre a falta de tolerância e da inflexibilidade do outro. Aparece o quanto não somos lógicos e, nas expansões de cada universo, é mais fácil pisar no calo do outro do que parece...
No meu natal perfeito eu teria quem me olha, me escuta, a quem olho e escuto. Ouvimos músicas. Mostro as minhas, conheço as suas. Preparamos juntos os pratos, nem tantos nem tão poucos. Alternamos trabalho e descanso. E o Natal vai acontecendo num espaço afetivo seguro, onde pensamos o mundo e planejamos pequenas ações para que ele seja melhor. Afinal, não reconheço um filho de Deus. E mesmo sua mensagem é tão atravessada. Mas o esforço de que sejamos melhores a cada ano é muito válido. Não em nome de um homem que morre crucificado para nos salvar numa ode ao sofrimento e à culpa, mas em nome das nossas próprias cruzes e da nossa humanidade, das incoerências e multiplicidades! Que as expectativas de alegria, amor e bem sejam reduzidas e nós nos olhemos com afeto hoje e sempre.