segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Maria Carla

Nasceu, nasceu! Uma menina linda!
Melhor sair da maternidade com brincos, é marca de feminilidade. Ajeita o vestido... não arranca o lacinho! Ai! O cabelo podia ter puxado ao da mãe mas, tadinha, tudo crespo. Tá ficando bagunçado. Tá parecendo um moleque. Prende isso.
Quer uma boneca? Veja... ela é super maternal. Vamos ver de novo a história das princesas? Olha os modos, fecha a perna, seja mais delicada. Isso são modos pra uma moça?
Ta meio magra. Ta meio gorda. Olha essas coxas, vai ter um pernão.
Menstruou, pessoal, Maria Carla está mocinha!
Agora segura ela, já pensou se engravida?
Maria Carla vamos tirar os pêlos do suvaco e da virilha e das pernas e, de repente, dos braços, melhor tirar um pouco da sobrancelha, você está tão desleixada. Coloca um batom, alisa esse cabelo, bunda pra fora, barriga pra dentro. Existem realçadores e alongadores para cílios, sabia? Você não vai tirar os pêlos da coxa? Melhor pelo menos descolorir, né?
Bela, recatada e do lar.
Sexy sem ser vulgar.
Não vai dar pra todo mundo, vão te taxar de puta.
Com essa roupa capaz de ser estuprada...
Um dia, na rua, um estranho lhe passou a mão.
Maria Carla era uma moça pra casar, mas antes da hora embuxou.
Coitada. Será que vai casar? Quem é o pai dessa criança?
Nasceu. Era pra ser lindo, mas foi horrível. O nome é violência obstétrica, já ouviu falar? Maria Carla achou que era assim mesmo, nascer e parir era coisa de castigo divino, a dor é o preço da existência da mulher. Ao menos o médico teria a salvado e ao bebê.
Amamenta, chupeta, mamadeira, choradeira. Não sabe mais o que fazer com a casa e com o jantar daquele cara vendo televisão. Estava esgotada.
O cara foi embora e ficou com uma moça bem nova. Maria Carla se pergunta se é bela, se tem bom sexo, se deu o que tinha que dar, se o bebê atrapalhou... agora está só. Ela que era só desde sempre e não disseram a ela.
Perdeu o emprego. Adaptação na creche dá doença ela disse, mas o chefe não aguentava mais dispensá-la por causa da criança.
Em casa ela e a criança, fazia comida pra vender. Saia com o filho, andava nas praças, tinha vontades ainda. Ela era toda vontade.
E nasceram os cabelos brancos. Ela pintou. E as primeiras rugas e ela não sabia mais o  que fazer, precisava ser alguém. Uma mulher precisa ser alguém.

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