segunda-feira, 16 de novembro de 2020

O que importa

Certa vez relatei sobre um rapaz que levara seu gato ao veterinário. Ele foi icônico pra mim e me deixou um presente.
Outro dia, na praia, vi outra cena que inspirou o mesmo sentimento. A cena foi a seguinte: a praia num dia de sol, as pessoas que se arriscam em exibir seus corpos, umas mais ousadas outras porque não se privam de usufruir da vida. Todos comportados, em homeostase. As crianças fazendo criancices, a barraca do milho passando. Casais namorando. Mulheres pegando sol. Pássaros voando, pousando, mergulhando... e perto da água um homem de quatro, de sunga, cheio de areia, andando como um cachorro. Naquele momento, apesar de totalmente patético, ele aparentava ser o homem mais feliz do mundo. E seguindo o seu olhar apaixonado vejo sua menina, tão miúda e linda. Ele engatinhava, ela tentava. Ele ria. Ela ria. E toda a praia parecia invisível. E todo o ridículo perdia seu sentido porque o único sentido era o amor. Nada mais importava. Isso é o belo.

Maria Carla

Nasceu, nasceu! Uma menina linda!
Melhor sair da maternidade com brincos, é marca de feminilidade. Ajeita o vestido... não arranca o lacinho! Ai! O cabelo podia ter puxado ao da mãe mas, tadinha, tudo crespo. Tá ficando bagunçado. Tá parecendo um moleque. Prende isso.
Quer uma boneca? Veja... ela é super maternal. Vamos ver de novo a história das princesas? Olha os modos, fecha a perna, seja mais delicada. Isso são modos pra uma moça?
Ta meio magra. Ta meio gorda. Olha essas coxas, vai ter um pernão.
Menstruou, pessoal, Maria Carla está mocinha!
Agora segura ela, já pensou se engravida?
Maria Carla vamos tirar os pêlos do suvaco e da virilha e das pernas e, de repente, dos braços, melhor tirar um pouco da sobrancelha, você está tão desleixada. Coloca um batom, alisa esse cabelo, bunda pra fora, barriga pra dentro. Existem realçadores e alongadores para cílios, sabia? Você não vai tirar os pêlos da coxa? Melhor pelo menos descolorir, né?
Bela, recatada e do lar.
Sexy sem ser vulgar.
Não vai dar pra todo mundo, vão te taxar de puta.
Com essa roupa capaz de ser estuprada...
Um dia, na rua, um estranho lhe passou a mão.
Maria Carla era uma moça pra casar, mas antes da hora embuxou.
Coitada. Será que vai casar? Quem é o pai dessa criança?
Nasceu. Era pra ser lindo, mas foi horrível. O nome é violência obstétrica, já ouviu falar? Maria Carla achou que era assim mesmo, nascer e parir era coisa de castigo divino, a dor é o preço da existência da mulher. Ao menos o médico teria a salvado e ao bebê.
Amamenta, chupeta, mamadeira, choradeira. Não sabe mais o que fazer com a casa e com o jantar daquele cara vendo televisão. Estava esgotada.
O cara foi embora e ficou com uma moça bem nova. Maria Carla se pergunta se é bela, se tem bom sexo, se deu o que tinha que dar, se o bebê atrapalhou... agora está só. Ela que era só desde sempre e não disseram a ela.
Perdeu o emprego. Adaptação na creche dá doença ela disse, mas o chefe não aguentava mais dispensá-la por causa da criança.
Em casa ela e a criança, fazia comida pra vender. Saia com o filho, andava nas praças, tinha vontades ainda. Ela era toda vontade.
E nasceram os cabelos brancos. Ela pintou. E as primeiras rugas e ela não sabia mais o  que fazer, precisava ser alguém. Uma mulher precisa ser alguém.

Reflexões para um sem mim

Fui vivendo até que agora há pouco tempo, de uns meses pra cá voltei a menstruar. Estranhei. Depois de 2 filhos e 4 anos sem sangrar, estranhei. Mas a estranheza foi virando desconfiança. Era sangue demais, será possível? Pólipo no útero foi o que descobri na ultrassonografia. E aí... poxa, poxa... lá vou eu pra um procedimento cirúrgico. E se não o fizer, o pólipo vai tomando conta de mim e o sangramento vai aumentando... e lá me vou daqui (?). Talvez seja um pouco dramática essa forma de ver as coisas.

Ja quis tanto não estar mais com vocês. Essa vida meio sem sentido... meio sem graça... meio sofrida. E hoje, dando alguns contornos, tive filhos com enfoque nas partes boas: o amor, o belo, a arte, a natureza.

E como no mar, as ondas vem e vão. Grandes e pequenas, ressaca ou calmaria. E assim me pergunto: qual será o tamanho do meu ciclo? Estará a morte me rondando pra um fim breve, lutarei contra doenças que insistem em ocupar meu corpo ou produzirei males em meus órgãos que, sem saber como fazê-lo tampouco saiba desfazê-lo? Ou viverei ainda um tanto e verei morrerem ao meu redor os meus queridos até que sobre eu e os pequenos, que cresceram. 

Queria escolher partir, e num lampejo de consciência maior dizer tchau ao corpo ao qual ocupo, a vestimenta que me apresenta. E penso: poderiam enterrar-me nua, assim: chocante. O corpo que me é tão estranho quanto familiar e que cubro, enfeito, envolvo. Se ele em si não significa nada, menos ainda suas roupas. 

Quando eu tiver conseguido ir não tenham pena de mim. Nem do corpo. Nem das histórias. Nada mais. E se não restar corpo, apenas cinzas, pode escolher: ponha-me num balão grande e dê para as crianças brincarem sobre a terra. E quando ele estourar, que se esvaia. Ou jogue de um voo de parapente, suje as casas ou alimente as árvores. E se nada tiver a ser feito, que os carniceiros dêem conta dos meus restos, eu não estarei mais ali. E meu corpo, mesmo antes desse momento, não é lá tão belo aos olhos envenenados, domesticados a venerar outros formatos. A quem me quer bem não fica nada. Quem sabe um tufo de cabelos meio ressecados e com frizz, quem sabe algumas palavras, nem  tantas assim. Minha vida importa mesmo é pra mim.