segunda-feira, 28 de março de 2022

Mais um dia

 Tem uma tristeza que me preenche de vazio. Uma lágrima presa, contida, que não desce por não saber pra onde ir ou por quê. E a sensação de não valia ou desvalia contra a qual luto dizendo quem sou aparece com força e me mostra: não és tu, nem eles. Que pouca coisa que somos, tão insignificantes. E a vontade de não ser me lembra de um tempo que eu tinha. E as crianças que por vezes me salvam por vezes condenam também me fazem vislumbrar essa incompletude desajeitada, um quebra cabeça cujas peças tem irregularidades. Talvez a vida seja um quadro de Van Gogh. Meus filhos que tanto amo e cujas vidas valem a minha, a missão de materná-los justifica minha existência e a valida, pois bem, esses mesmos filhos as vezes me cansam tanto e apesar de todo amor que sustenta a existência deles, penso que não os queria. Nem o caos e o trabalho que dão, o que nunca faço o suficiente ou bem feito. E meus olhos fecham sobre as letras, os sonhos sobrevêm me levando pra um outro mundo, onde as vezes eu me perco e queria nem me achar. Fora de mim um vento frio. Aqui dentro bem quentinho.

terça-feira, 8 de março de 2022

Liberdade e responsabilidade

 Tá aí duas palavras descombinantes. Uma aponta pra tudo quanto há, pro infinito de possibilidades. A outra pro encarceramento, pro compromisso na relação. 

Como a vida é uma só, às vezes sinto vontade de retomar minha vida de outro ponto, com outras cores, pleiteando outras demandas. E experimentar uma verdade longínqua: a de somos livres e escolhemos a vida que queremos.

Mas a responsabilidade me prende num escopo, me dá limites claros os quais eu mesma não transponho. Não viveria bem sem saber dos meus amores, sem ter a segurança de seus braços e sentindo-me os abandonando. A responsabilidade com seus afetos e até com a garantia do lugar deles em mim. E suporto alguns dias sem fim, sensação de querer fugir desse mundo. E penso: passa.

E quando passar eu sei bem: sentirei saudades do meu investimento, orgulho dos gritos que não dei, das brincadeiras que inventei fugindo do caos, das refeições com todas as cores por tantos dias e dias a fio. Dos nãos que ofereci, dos abraços que tudo acalmam. E me tornarei desnecessária. Não tenho dúvidas de que será assim. Um dia. Um dia.

E o mesmo tempo que quero atravessar logo esse momento, preciso vivê-lo com vivacidade. Esse momento não voltará. E hoje estou tão cansada. Até meu ouvido fica cansado. E as vezes também minha criança é chamada à cena. E preciso acalmar ela e também os meninos, meus filhinhos. E só queria ficar um pouco deitada. Ou tomar uma chuverada prolongada. Ou deixar o almoço pra lá e comer só uma batata frita. Mas todo dia, todo dia, todo dia, todo dia eu tenho os meus meninos pequenos fazendo lama, brigando por criancices e atenção, usando objetos de modo inadequado, fazendo coisas sem educação, pedindo leitura dos livrinhos, precisando de um bom banho, querendo mais um picolé que eu fiz,  falando peido e bunda aos montes, enfileirando carrinhos, pedindo água pra brincadeiras e comendo um almoço bem nutritivo. E mais um tanto de coisas e cansaço. E penso: cadê minha liberdade? E respondo a mim mesma: você escolheu a responsabilidade...

Dia da mulher

 Mulheres, oh! Mulheres...

Quanta ilusão, desilusão

Nossos corpos, nossa vida, nossos seres

Pedir por igualdade, coração?


Que igualdade, ora, como?

Se só de nós a vida brota

Se só por nós há um autônomo

Esse ideal é uma lorota


O aprendizado de uma casa

Da gestão do corpo e de uma vida

Escolhas duras, e só atrasa

E logo ali pensa: estou grávida!


E escolhe se vai ter tempo pra parar

Ou se entrega o filho ao sistema

Um dilema que nunca vai fechar

Que não se explica nesse poema


O que é dar tchau pro seu trabalho

Perder  poder, lugar, autonomia

Passar o dia com fraldas e chocalho

E quem sabe alguma alegria


Ou ainda ir pra rua trabalhar

Deixando aos cuidados de outros seu rebento

Ir embora sem pra trás poder olhar

Produzir sem um lugar pro sofrimento


E uma mulher sem filhos o que é?

Não sei ao certo o seu lugar social

Exigem dela filhos, marido, bunda em pé

Não tem voz, o seu lugar é desigual


Aliás qual a mulher que é ouvida?

Desequilibrada, louca varrida

Tem tpm, é frágil demais ou sapatona

O meu respeito às que passam a vida numa zona


E nossos corpos depilados e bonitos

Cujas formas nem sempre são aceitas

Apertados, sobre saltos, maquiados, infinitos

Exigências para parecermos direitas


Mas é isso, mulher não há direita, só esquerda

De uma forma ou de outra somos sinistras

Nossa história atravessada pela perda

Somos deusas, castas, monstras


Estamos entre as loucas e as santas

E entre as puras e as putas

Estas questões entre outras tantas

Nos faz emaranhadas, irresolutas


No entanto, apesar de tantas lutas

Vivemos em nossos corpos violências

E piadinhas e outras pautas

Que tenham cada vez menos conivência


Acredito que somos meio sequeladas

Pela vida e toda essa presepada

Mas transpomos tantos obstáculos

Somos Fênix, damos espetáculo


Merecemos todo o respeito do mundo

E também um silêncio profundo

E do nosso blablabla incessante

Que se veja uma produção interessante

Daquilo que somos e queremos dizê-lo

De um trabalho intenso e singelo