terça-feira, 30 de agosto de 2022

Quando o nada faz sentido

 Subindo a montanha com sentimento muito enorme de alegria e gratidão ao universo e a existência, olhando  a vastidão, a grandeza e a independência da montanha sentia o não-sentido da nossa forma de viver nesse mundo.

Compreendia, sem os pés no chão, forma de subsistência mais primitivas, meios de cortar vínculos com esse capitalismo selvagem e as neuroses inerentes aos meios urbanos de relações.

Evocava todo o espiritual, que ali já se presentificava, transcenderia toda complexidade, apenas observava o quanto tudo ali faz sentido. 

Senti dentro de mim que se por ventura a terra me tragasse, minha missão estaria finda e nenhuma pendência ou desejo teria ficado para trás. Eu-natureza junto a natureza-ela-mesma fazia todo sentido.

Até o momento em que me foi anunciada a tempestade. Muita chuva, ventania, incertezas mil para o nosso destino.

Estremeci, me humanifiquei, senti todos os sentimentos que podia, principalmente os piores. Lembrei-me de cada um dos meus amores tendo algo a me dizer. Lembrei-me dos meus filhos e marido, da minha presença estruturante em suas vidas - ou ao menos é assim que eu imagino.

Ativei meu senso de auto-proteção, julguei mal me perder na pedra e ali ficar. Não me vi em paz junto à chuva, aos raios, aos pássaros comedores de carne. Senti-me responsável de manter-me junto aos meus. Queria mais que o fim de mim.

Limiar

A folha estava ali no galho
O galho dela balançou
O sol a iluminou
A chuva molhou
A folha amadureceu
Dia após dia
Paulatinamente
Era difícil dizer exatamente quando ela foi se tornando uma folha mais gasta
Foi mudando de cor
O mesmo vento ventava
A mesma chuva molhava
O mesmo sol iluminava
Ela existia ali tão independente dos olhares e dos acontecimentos
Que por mais que fossem levemente diferentes, eram os mesmos por toda sua vida de folha
E ela amarelou, ficou mais frágil, perdeu um pouco do brilho, deu uma ressecada
E nada de muito novo aconteceu
Ela estava ali pendurada nessa sua nova forma
E já nem tão presa nem tão solta
Até que, quando algo atingiu o limiar, caiu
Ela não estava mais amarela
O vento que ventava era mais ou menos o mesmo
O sol igualmente...
Mas ela caiu naquele exato momento
Nem antes
Nem depois
Com dia, mês e ano precisos
E também horas, minutos e segundos
Naquele agora único
Ela não era mais uma parte daquela árvore
Se desprendeu
Voou um pouco
Desceu rodopiando
E ficou no chão
Misturada a tantas outras folhas
Que mal se sabia quem era ela
Juntou-se às folhas que atravessaram o limiar do desprender-se
Cada uma no seu momento único
Algumas mais coletivamente em meio às ventanias
Todas ali pelo chão do entorno das árvores
E juntando-se a elas, a nova folha que acabara de cair,
Tornar-se-ão parte do chão
 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Um caro relato

 Estou trabalhando no IBGE e por esse motivo tenho contato diário com moradores de uma comunidade petropolitana. Tento ficar atenta ao que foge da rotina tradicional a fim de receber presentes que a vida queira dar. E o contato com gente de toda sorte nos traz algumas amarguras e alguns presentes.

As vezes imagino que moradores pensem que apenas estou no celular. Mas estou cadastrando ou alterando algum dado daquele local. Numa dessas me veio uma senhora a quem eu já havia entrevistado. Negra, de baixa estatura, boca desdentada e postura levemente arqueada começou a me dizer coisas em rápida velocidade e sem aviso prévio: "eu moro ali com o meu filho e eu ajudo ele porque ele precisa. As pessoas são o que são: uns melhores e outros piores cada um faz o que sente no seu coração. Eu tenho outros 3 filhos. Um deles é bem de vida, trabalha no banco. E todo mês ele dá um dinheiro pra nós. Pode ser 200 reais, 300 reais. Ele dá o que pode. E ele dá porque ele quer. Eu nunca peço nada nem cobro nada dele, mas ele dá porque está no coração dele. Acontece eu tive que trabalhar muito, e por isso eu não sei ler nem escrever. E o meu mais velho, esse que mora comigo, eu precisei muito dele. Era meu braço direito, trabalhou muito também, ele era o que me ajudava. Ele também não sabe ler e escrever, vive comigo e eu ajudo ele. E por isso esse outro filho pôde ir pra escola e sabe ler e escrever e tem um emprego bom. E ele sabe que ele conseguiu isso porque o outro não conseguiu nada e pôde dar apoio a ele".

As palavras não foram gravadas e transmito apenas a ideia com a imagem da senhora na minha cabeça. Lembro dela quase todos os dias. Deu uma lição sobre meritocracia e também me falou mais um pouco sobre as pessoas nascerem diferentes, precisando de olhares diferentes e podendo ofertar mais ou menos, cabendo a nós observar, acolher e fazer a nossa parte.

Não bastasse, ao saber que eu estava com dificuldades em encontrar uma moradora quis prontamente me ajudar também.

Os olhos dela me levavam a um mundo tão estranho e tão encantador. Um mundo escrito em seu corpo, tão sagrado, tão resiliente, ao mesmo tempo tão frágil, sensível.

O filho eu também conheci. Pouco articulado, com clara dificuldade intelectual pediu ajuda para responder às simples perguntas que eu fazia, sua fala me soava embolada. Veio a esposa, mãe de seus 3 filhos, super bem articulada, letrada, bonita. Eu me perguntava: o que faz ela aqui? E seguia perguntando...

Tem casas onde eu pergunto respondendo: "a agua chega encanada no domicílio... quantos banheiros com chuveiro e vaso sanitário tem na casa?" Ali eu perguntei: a água chega encanada dentro de casa? Sim, veio a resposta. Alívio.

E esse questionário dias depois tendo sido expandido qualitativamente pela entrevista não solicitada me causa a indignação do desamparo que, é certo, é pra todos nós. Mas pra alguns é muito desamparo. Quem pra amparar essa família? Quantos olhos como o meu passaram por ali e só passaram?  Quantos 60, 70 anos se passaram sem que ela aprendesse a ler? E hoje seu filho também, acostumado a essa realidade. A troca do mínimo do sustento e dos cuidados com os filhos pela possibilidade de se tornar outra pessoa. Ela vende tempero pra comida a base de alho. Quer?

Poderia ter sido apenas inconveniente no meio do meu dia de trabalho, mas foi um presente.