quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Um caro relato

 Estou trabalhando no IBGE e por esse motivo tenho contato diário com moradores de uma comunidade petropolitana. Tento ficar atenta ao que foge da rotina tradicional a fim de receber presentes que a vida queira dar. E o contato com gente de toda sorte nos traz algumas amarguras e alguns presentes.

As vezes imagino que moradores pensem que apenas estou no celular. Mas estou cadastrando ou alterando algum dado daquele local. Numa dessas me veio uma senhora a quem eu já havia entrevistado. Negra, de baixa estatura, boca desdentada e postura levemente arqueada começou a me dizer coisas em rápida velocidade e sem aviso prévio: "eu moro ali com o meu filho e eu ajudo ele porque ele precisa. As pessoas são o que são: uns melhores e outros piores cada um faz o que sente no seu coração. Eu tenho outros 3 filhos. Um deles é bem de vida, trabalha no banco. E todo mês ele dá um dinheiro pra nós. Pode ser 200 reais, 300 reais. Ele dá o que pode. E ele dá porque ele quer. Eu nunca peço nada nem cobro nada dele, mas ele dá porque está no coração dele. Acontece eu tive que trabalhar muito, e por isso eu não sei ler nem escrever. E o meu mais velho, esse que mora comigo, eu precisei muito dele. Era meu braço direito, trabalhou muito também, ele era o que me ajudava. Ele também não sabe ler e escrever, vive comigo e eu ajudo ele. E por isso esse outro filho pôde ir pra escola e sabe ler e escrever e tem um emprego bom. E ele sabe que ele conseguiu isso porque o outro não conseguiu nada e pôde dar apoio a ele".

As palavras não foram gravadas e transmito apenas a ideia com a imagem da senhora na minha cabeça. Lembro dela quase todos os dias. Deu uma lição sobre meritocracia e também me falou mais um pouco sobre as pessoas nascerem diferentes, precisando de olhares diferentes e podendo ofertar mais ou menos, cabendo a nós observar, acolher e fazer a nossa parte.

Não bastasse, ao saber que eu estava com dificuldades em encontrar uma moradora quis prontamente me ajudar também.

Os olhos dela me levavam a um mundo tão estranho e tão encantador. Um mundo escrito em seu corpo, tão sagrado, tão resiliente, ao mesmo tempo tão frágil, sensível.

O filho eu também conheci. Pouco articulado, com clara dificuldade intelectual pediu ajuda para responder às simples perguntas que eu fazia, sua fala me soava embolada. Veio a esposa, mãe de seus 3 filhos, super bem articulada, letrada, bonita. Eu me perguntava: o que faz ela aqui? E seguia perguntando...

Tem casas onde eu pergunto respondendo: "a agua chega encanada no domicílio... quantos banheiros com chuveiro e vaso sanitário tem na casa?" Ali eu perguntei: a água chega encanada dentro de casa? Sim, veio a resposta. Alívio.

E esse questionário dias depois tendo sido expandido qualitativamente pela entrevista não solicitada me causa a indignação do desamparo que, é certo, é pra todos nós. Mas pra alguns é muito desamparo. Quem pra amparar essa família? Quantos olhos como o meu passaram por ali e só passaram?  Quantos 60, 70 anos se passaram sem que ela aprendesse a ler? E hoje seu filho também, acostumado a essa realidade. A troca do mínimo do sustento e dos cuidados com os filhos pela possibilidade de se tornar outra pessoa. Ela vende tempero pra comida a base de alho. Quer?

Poderia ter sido apenas inconveniente no meio do meu dia de trabalho, mas foi um presente.

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