segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Responsabilidade pela vida

Há um caminho mais certo que a verdade?
A verdade nos enlouquece...
Não queremos, sabemos que há um limite
Um limite que não é assim tão claro

Queremos mais o caminho que a verdade
Vale a pena essa vida de meios tons?
Sem sabermos ao certo um quando
O ponto de entrega das vidas por um sentido

Vivo minha vidinha insossa
Em nome da paz não faço guerra
Mas sem a guerra a verdade não se impõe 
Como fazer valer nossas verdades?

Em que momento desviamos 
Sabendo que seremos fustigados 
Pelo sistema, pela vida, por um todo
Harmonia na desarmonia que reina

Questões a respeito da covardia
Comigo mesma, com o outro, na vida
Um limite tênue entre o silêncio 
E a violência em que a verdade se imponha

Violência em mim
Violência de mim
Violência da própria verdade
Violência em ter que escolher

E as nuances são tantas 
Entre a paz e a guerra
Entre o fazer e o inerte 
É fundamental saber ser

domingo, 12 de janeiro de 2025

Iuri, meu segundo filho

Pra você guardei um mundo melhor
Uma mãe já existia para te receber
E nós pudemos ter menos trabalho no nosso encontro
Eu esperava você sabendo mais da vida

O peito já não doía tanto
E eu sabia mais sobre amamentação
E assim, você pôde mamar na minha tranquilidade
E receber de mim uma paz que te habitará para sempre

Em psicanálise o S1 é o primeiro nome
Ele é o significante primordial 
Que não tem sentido algum mas é a base pra todos os sentidos 
Ele é marcador da origem

E o S2 é o sentido, as múltiplas possibilidades
Ele fala de algo que se amplia
Que traz tudo quanto há 
Ele mostra a realidade variável e o quanto podemos "escolher" as palavras que nos situam 

E penso como essa condição de primeiro e segundo filho podem se articular nesses conceitos. 
Cada um com sua importância, sua distinção, seus valores. 
Não há segundo filho sem primeiro filho. 
E nessa segunda experiência, a primeira é a base

Se na minha primeira experiência eu fiz de tudo para um nascer bem
Na segunda chance eu refinei as escolhas
Você foi aquele que me acompanhou nessa minha chance de parir 
De ressignificar e perceber no meu corpo que há de se ter esperança 

Fizemos essa dança da vida de forma plena
E te protegi ainda mais de algumas adversidades 
Tivemos a chance de um mundo tão bonito
Em casa, olho no olho, aprendendo a andar na grama

E com você eu estava mais inteira
Estava calejada, torneada
Eu só precisava saber dar conta de dois
Só...
Mas uma parte do caminho eu já sabia

Eu te dei banhos de um jeito diferente 
E quando te vestia era tão mais fácil 
Eu resistia ao seu choro com resiliência 
E você também foi um bebê tão afável 

Mas a vida para nós também nem sempre é fácil 
E descobrimos dificuldades e peculiaridades
Com você eu aprendi a contornar o buraco 
Olhar pra ele, respeitar, e seguir sem cair

O seu jeito doce e sorriso fácil me ajudam
Você é um menino tão esperto
E a cada ano que atravessamos eu sempre lembro
Como a vida precisa ser bem vivida
O valor que temos no nosso amor
O quanto somos fortes para atravessar as intempéries 
Ou mesmo o quanto uma vida justifica uma morte
Já que todos nós teremos esse destino 
Sem sabermos o momento preciso
Sem aviso prévio dos atravessamentos e dificuldades 
Que saibamos usar as muitas palavras a que temos acesso
Para dar sentido
Para viver bonito
E para atravessar tudo o que é uma vida 


quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Confusões afetivas

A- Você deveria ficar conosco
B- Eu gostaria de estar lá 
A- Mas lá não é bom
B- Eu amo estar lá 
A- Eu quero você comigo
B- O meio em que você está não me cabe
A- Tudo bem.
B- Tudo bem?
A- É melhor você ficar aqui.
B- No meu bem eu sou infeliz?
A- É perigoso ir pra lá 
B- Me faz bem estar lá e mal estar aqui.
A- Queria você feliz conosco.
B- É melhor para mim estar lá.
A- Aqui é um lugar seguro e lá perigoso.
B- Aqui estou a beira da morte e lá eu vivo.
A- Você não me ama?
B- Para amar preciso abrir mão de mim?
A- Que loucura!
B- Você não me ama?
A- Amo! Só quero o seu bem.
B- Estarei bem se eu for
A- Uma tristeza... Então vá.
B- Sim, eu vou. Você há de tolerar me ver feliz?
A- Lá, sem mim?
B- Lá, em mim!
A- Vai.
B- Vou.


Classificados

Procuro pessoas que saibam menos
Que não respondam rapidamente o que devo fazer
Que percebam a complexidade das minhas escolhas
E não me façam parecer uma tola 

Procuro pessoas que viveram menos
Que asssistiram menos
Que encontrem no que conto alguma autenticidade
E que não me façam parecer absolutamente desinteressante

Procuro pessoas que façam menos
Que não estejam tão ocupadas com o sucesso
Ou com a sobrevivência 
E, por isso, não consigam olhar para nós em tempo algum
E que não me façam parecer tão desimportante 

Procuro pessoas que sejam menos
E que possam dividir comigo suas faltas
Que tenham vivências atormentadoras
E consigam rir das próprias idiossincrasias 

E por último mas não menos importante 
Procuro pessoas que queiram mais
Que topem mais
E que tenhamos paciência uns com os outros
Para construir com delicadeza e afeto
Isso a que chamamos a amizade!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Ano novo

 A gente está muito acostumado com o espaço junto ao chão. Presos à terra, nos submetemos ao sol, ao vento, à tempestade. Enquanto vivemos a tempestade é difícil pensar que acima das nuvens segue existindo o sol. Ou mais nuvens. e acima de mais nuvens, o sol. 
O nosso acima é o céu. 
O nosso céu, tão distante. 
Nosso mundo é no chão. 
Nosso mundo não é tudo. 
Ensimesmados, temos dificuldade com o universo do outro. 
Outro? 
E outros universos. 
Dançando e caminhando no universo, com riscos de colisões dramáticas e mantendo distâncias magnéticas saudáveis. 
Seguem os ciclos.
Cumprimos um calendário. Concordemos com ele ou não, compactuamos as datas, acordamos funcionamentos. 
Ontem foi o dia dos fogos. Terminamos 2024 e iniciamos 2025. Há 100 anos nascia meu avô: 1925. O tempo. Ele passa. Comemoremos ou não. Ele passa. 
Nossos corpos ocupando esse espaço da forma como conseguimos. Vivendo mais ou menos intensamente de acordo com o que chamamos vida. Compreendendo mais ou menos nosso lugar nesse todo. 
Reclamando conjunturas, percebendo -ou não- nossas liberdades e prisões dentro de nós.
Mais um ano começando. Criamos um ponto para chamar de começo e nos dar a chance de deixar coisas para trás a fim de reiniciar. Enquanto o tempo nos dislapida.
Quero aceitar meu tempo passando 
Percebendo em mim o lugar que ocupo
Presente na minha própria história 
Conseguindo deixar para trás o que é preciso 
Para me encontrar comigo
Menos emaranhada em mim mesma
Dançando magneticamente
Sem muitas colisões dramáticas 
Aproveitando o tempo, presente
Para em outro tempo
Não ser em paz