Assim que botei os pés para fora do portão me transportei para um tempo tão jovem. Eu ia dizer leve, mas eu bem sei que não foi uma época exatamente leve. Embora tenha vivido muitos momentos importantes nessa época e muitos prazeres tanto intelectuais como no campo afetivo - época em que me casei e também fiz amigos que até hoje me acompanham - também foi tempo de uma depressão mais significativa e de muitas angústias e ansiedades.
Mas nesse tempo em que eu era uma mocinha, eu ouvia música no metrô e ela fazia aqueles momentos de desumanidade parecerem aceitáveis e até prazerosos. Era o tempo em que eu parava de servir à empresa e podia voltar a ter meu corpo para mim mesma. E cansada eu ia para a faculdade animada com algumas aulas e entediada de outras. Eu também ouvia música, e às vezes ouvia e estudava, no interminável trânsito da ponte Rio-Niteroi ou no retorno para casa. Eu tinha esses tempos de locomoção marcados pela música que me alcançava pelo fone. Era diário. Também foi a época em que ia pra Barra fazer minha terapia e falar sobre como a vida é um absurdo. É difícil se conformar... E eu ia e voltava ouvindo música. As vezes ouvindo e chorando. As vezes ouvindo e escrevendo. Eu gosto das músicas e de análise.
Mais recentemente eu olhava as pessoas com seus fones e as julgava auto-centradas. Cada loucura...! Eu praticamente esqueci o que é essa rotina da locomoção por condução. Desse silêncio ou dessas vozes, dessa monotonia do mesmo todo dia. E que nem sempre a gente quer mesmo ouvir o mundo. Hoje, esse momento no ônibus é pra mim também de liberdade, de paz, de estar em mim sem ter que dar conta dos meus pequenos. E coloquei meu som baixo para viver o caminho, as vozes, o ritmo da rua de forma mais presente. Experimentando um pouco do que sou e do que fui, se atualizando no meu agora, o meu presente.
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