Agora, após toda a situação vivida, consigo olhar o cômico ao lado do trágico.
Da última vez que fomos a Paraty éramos apenas um casal e a vida sem filhos sempre foi muito mais suave. Sabendo da distância maior e dos problemas que chegam com ela, optamos por aproveitar o primeiro dia fazendo paradas pelas praias do caminho. Fiz as pesquisas, preparei um roteiro e na primeira parada todos estavam eufóricos. Mas a praia era dentro de um condomínio onde o carro não podia ficar, nos obrigando a fazer uma descida a pé que se transformava numa subida de retorno. Apesar desse detalhe, o caminho era bonito, passava por uma linha férrea e, por sorte, o trem passou bem quando estávamos atravessando. Passamos logo e esperamos do outro lado, ouvindo o som ensurdecedor de seus intermináveis vagões de carga. No caminho tinha um corredor de floresta, o trem, um parquinho colorido, casinhas simples e praianas, tudo bem bonitinho e, finalmente, o mar. Para meus meninos não era perfeito pois tinha poucas ondas mas certamente dava pra aproveitar muito. Entraram logo, e eu fiquei animada em pegar uma pequena trilha pro topo da pedra lateral da praia mas após poucos passos percebi aguas vivas na areia. Voltei avisando do risco e acabou a graça da praia, voltamos pro carro após a tal subida de retorno.
Optamos por pular a segunda parada e investir na terceira, comemos no carro e em menos de uma hora estávamos prontos para a próxima. A parada era dentro de um resort e ele contava com uma piscina natural feita de pedras. Mais uma vez o carro precisava ficar na porta e essa descida era ainda maior que a primeira. Apesar de ter valido muito a pena, mal chegamos lá embaixo observamos que os óculos de piscina haviam sido esquecidos no carro. E eles eram muito importantes para a proposta. Passamos sem eles. Foi incrível nadar entre os peixinhos, pegar onda na praia - dessa vez esse quesito foi aprovado - e, depois de tudo, tinha banheiro e ducha de água doce. Tudo isso por zero reais e uma ladeira responsa.
Muito satisfeitos e tendo ficado mais tempo que o planejado, seguimos viagem lamentando ter que sair. A próxima parada já estava comprometida pelo avançado da hora mas mesmo assim demos uma olhadinha. Era a praia do laboratório, uma praia quentinha, com água aquecida pela Usina Nuclear. Já sabíamos que não daria para entrar, apreciamos a beleza e seguimos viagem. Nesse momento entrei em contato com o rapaz da hospedagem para saber se seguia sem luz - eu já sabia do problema e tinha fé de que resolveriam pois era o terceiro dia. Nada! Sem luz ainda eu tinha como plano b seguir até Ubatuba, onde contamos com hospedagens mais baratas. Enquanto encaminhava a reserva, um dos filhos reclamava do cansaço do dia e de querer dormir. Ponderei a distância a mais e optamos por tentar algo por Paraty mesmo. Aqui começam problemas mais complicados. Um local aceitável para ficarmos e apenas um pouco mais caro cobraria taxa de limpeza e só fazia sentido pegarmos todo o período de hospedagem com eles. Agendei as três noites, coloquei o endereço no gps, indiquei que estávamos próximos e com crianças cansadas no carro e, nada do endereço! Rodamos, procuramos, nada de achar o número. Entrei em contato mais uma vez, nada de me mandarem a localização. Como eles pediram um depósito calção para possíveis perdas materiais, eu estava desconfiada de golpe. Felizmente eu não havia feito o calção e cancelei a reserva. Com as crianças cansadas segui para nova tentativa e fiz nova reserva, dessa vez para uma diária. Mais uma vez entrei em contato informando as crianças cansadas no carro e, dessa vez, a pessoa me respondeu muito solícita mas informando que não poderiam receber pois estavam sem luz. Rolou um desespero. Duas reservas presas no cartão de crédito, nenhum lugar pra dormir, dois pequenos exaustos. Não fosse um destino em que o centro possui diárias com cifrão de 4 dígitos, resolvíamos entrando no primeiro quarto que aparecesse, mas era preciso respirar e encontrar algo possível. Na terceira tentativa conseguimos o contato no google e fomos para lá sabendo que havia luz e pagaríamos diretamente à hospedagem. Chegamos já era mais de 21h. Descarregamos as coisas, crianças tomaram banho e dormiram. Já haviam comido no carro e também tínhamos passado numa padaria para comprar o pão do dia seguinte. Foi tenso. Dormimos com duas contas penduradas e uma hospedagem que custava mais de 2/3 do nosso total de 3 noites.
Acordamos tentando resolver as hospedagens no cartão enquanto os meninos ficavam na piscina. A moça da hospedagem foi de grande ajuda, muito solícita. Sem retorno definitivo, arrumamos nossas coisas entendendo que voltaríamos para casa embora meu pequeno dissesse: "mas eu arrumei quatro roupas", reivindicando os quatro dias prometidos. Quando estávamos quase terminando tudo recebi mensagem do rapaz da primeira reserva, a luz havia voltado e, embora ele já havia me devolvido o dinheiro, sabia da nossa situação e disponibilizou a casa ainda que pagássemos depois e quando pudéssemos. Ficamos felizes e aceitamos a oferta. Passamos o dia na praia tendo pagado apenas por água e os 40 reais de estacionamento - isso! 40 reais para deixar o carro numa grama e tomar uma ducha ao final do dia. Felizmente eu estava bem organizada e ainda tínhamos fartura de petiscos. Como tivemos que arrumar as coisas na pousada, chegamos na praia mais tarde do que desejávamos. Fizemos trilha pra uma primeira praia e mais uma trilha para a piscina natural. E na volta as ondas estavam perfeitas. Ficamos lá o resto do dia e tivemos dificuldade em aceitar que era hora de ir embora. Foi um dia de bastante chuva, mas o calor nos ajudava a ficar. Quando conseguimos partir, usufruímos da ducha tirando todo sal e areia e, como tinha porta, trocamos de roupas, fomos ao mercado reabastecer suprimentos pensando nos próximos dias e fomos numa farmácia comprar pomada para auxiliar com as pernas assadas. Eu já sabia que era preciso uma caminhada do carro para a casa, mas não sabia o quanto. Vimos o vídeo de como chegar e ponderamos se a dificuldade era aceitável. Chovia muito e eu morro de medo de deslizamentos e sei que é uma área bem comprometida, assim como Petrópolis, então perguntei sobre riscos de deslizamento e alagamento e como ele nos disse ser seguro, fomos ver. A chuva era muita e a subida também. Longa subida de asfalto, um medo danado, as ruas que cruzamos jogavam fora aquela água toda barrenta e a subida que não terminava. Não estivéssemos de noite, com duas crianças e a 5 horas de casa, certamente iríamos embora. Gastar mais dinheiro com acomodação não era cogitado.
Chegamos. Ele sugeriu deixarmos o carro na porta do sítio mas quisemos avançar um pouco para andar menos na chuva. De fato o piso era para um 4x4 e tivemos que voltar de ré. A distância para a hospedagem era razoável e não havia iluminação. Com muita chuva pegamos as capas de chuva, separamos o fundamental para que os meninos pudessem tomar banho, comer e dormir e o resto decidiríamos depois. Nos pusemos a andar naquele piso irregular com a lanterna do celular. Depois de poucos metros chegava uma ponte, ponte pensil. Conferimos o cabo de aço que a sustentava, o barulho do rio bravo pelo excesso de águas, mas antes do meio da ponte desistimos. "Vamos voltar, vamos pra casa! Está demais!" Ainda retornando pensamos no caminho de volta, chegaríamos por volta de 1 da manhã passando pelo Arco Metropolitano, onde sabemos que é arriscado passar de noite. Ponderamos: meninos cansados, ponte, chuva, bagagem ou Arco Metropolitano de madrugada, 5 horas de eles dormindo no carro... Voltamos decidindo que era definitivo e enfrentaríamos o medo e as dificuldades de estar ali. Passamos pela ponte decididos, ouvindo o rio urrando para nós e entoando o mantra da normalidade: "é assim mesmo. Aqui é assim mesmo..." Prometi que eles não passariam mais pela ponte com chuva e de noite. Nos perdemos um pouco pelo caminho mas nos achamos logo depois. Chegamos aliviados e... Estava sem água. Nem uma gota. E, para além do banho, que era muito desejado, não compramos água sabendo que havia filtro e água de mina. Tínhamos suco, água de coco, achocolatado, tinha leite e café, tinha uma coca na geladeira e angariei com uma vizinha algo entre 150 e 200 ml de água, a última que ela tinha saindo pela torneira. Seu Beto disse que tentaria resolver a questão já que sabia ser um entupimento nos canos pelo excesso de chuvas. Não deu. Ficamos sem água. Comemos pizza e bebemos o que tínhamos, coletei água da chuva para enxague bucal após escovação dos dentes e pequenas lavagens. Todos fizemos xixi fora da casa e tentamos segurar o cocô para o dia seguinte. Enquanto eu agradecia a ducha da praia e colocava os meninos para dormir, André voltou no carro sozinho para buscar outra parte da bagagem para minimamente passarmos a noite. Os meninos foram incríveis. Corajosos, compreensivos, de bom humor. Iuri demorou mais para dormir, reclamou que a minha orelha que ele gosta mais estava do outro lado. Davi apagou rapidamente.
7h da manhã tinha água. Foi um alívio. Tinha também sol, galinhas no quintal, um pessoal trabalhando massa para subirem paredes. Assim que nos viu, o vizinho avisou que resolvera a falta d'água. Já sabíamos. Falou de um laguinho, nos deixou bem a vontade. Ainda precisávamos pegar a mala principal. Pegamos um carrinho de mão,
Passamos a porteirinha, subimos um pouco, descemos, chegamos na ponte, vimos. É estranho passar numa ponte de noite com chuva, ouvindo as águas e passar. Ver era tão fundamental. Vimos a ponte com clareza, as águas correndo sob ela com o sol acima de nós, ouvimos o som, já mais ameno. E atravessamos. Subimos mais um trechinho de chão de terra e pedras, chegamos no carro e pegamos a mala. Voltamos pra casinha com ela, nos arrumamos pra praia e fomos ver o laguinho, a descida pra cachoeira, o vão entre nossa forma de viver e a deles. Voltamos pro carro e fomos pra praia. Mais 35 reais de estacionamento. Na terra. Com uma ducha única e aberta.
Pelo menos a praia era linda, os meninos não gostaram tanto porque não tinha ondas. Mas a peculiaridade era um rio largo que chegava nela, tinha bancos de areia e uma tranquilidade que nos abraçava. Aproveitamos o dia ali o mais que pudemos. Atravessamos o rio, brincamos com barquinho atracado, brincamos nas ondas do banco de areia, depois do rio caminhamos pro final da praia, onde não ia mais ninguém e vivemos uma solidão diferente, a insegurança de estar onde a gente nunca está e onde raramente alguém está. Combinamos que não íamos chegar de noite na casinha e precisamos ir embora, mas não conseguimos ir direto, passamos no centro histórico para os meninos conhecerem. A quantidade de ambulantes era imensa. Iuri escolheu um cordão de pedra que brilha no escuro e segue com sua preciosidade noite e dia. Davi preferiu um carrinho e julga que ele é de colecionador e muito especial embora tenha fricção. Repus pães e sucos e chegamos com muito pouca luz. Foi ótimo, estávamos bem, a chuva ainda não tinha chegado, na casa tinha luz e água. Foi uma ótima noite, pena que o dia seguinte já era o último. Depois de os meninos dormirem já iniciamos a arrumação e logo fomos descansar.
O dia amanheceu chuvoso, terminamos de arrumar tudo. Entregamos nossas cascas de frutas pro Seu Beto dar aos porcos e os meninos se divertiram dando pães aos patos. Já estava tudo bem esquematizado e pegamos o carrinho de mão para levar as bagagens. Fizemos duas viagens cansativas e divertidas, com disputas de quem leva o carrinho de mão. Todos num misto entre lamentar ir embora e festejar o retorno ao lar.
Combinamos voltar parando pelas praias mas dessa vez eles queriam ondas. Ondas de verdade, segundo eles. A primeira parada -praia de São Gonçalo- foi evitada por ter o custo alto de estacionamento. Como se pode ver, fico indignada em pagar caro para deixar o carro ali. Ainda mais num dia chuvoso e para ficar pouco tempo. Seguimos e a segunda parada também não funcionou. Era a Praia Vermelha, mas embora as vagas fossem gratuitas estavam todas preenchidas... Acabamos parando na Praia Brava, dentro de um complexo para moradores que trabalham na Usina. Foi ótimo. Eles pegaram muita onda e não queriam ir embora. Mas tínhamos que ir.
Seguimos com o propósito de ir na praia do laboratório e no observatório da Usina. Mas após a ótima visita ao observatório, vimos que a praia tinha ficado pra trás. Deixamos pra próxima. E, para não pegar o Arco Metropolitano de noite, optamos por seguir sem paradas e chegamos em casa pouco antes de 20h. Foi ótimo, as dificuldades trouxeram uma beleza à viagem pois nos exigiram um certo rebolado e o companheirismo para passar por elas e pudemos estar naqueles lugares lindos, usufruindo, vivendo e contando mais essa história. Uma história sem restaurantes ou porções na praia. Mas comemos pizza caseira, empadão, lasanha, pão com linguiça... Enfim, uma série de organizações prévias que nos garantiram bem estar por lá. Resta ainda resolver os pagamentos presos no cartão. Todos parecem bem intencionados, mas ainda não consegui resolver o extorno dos pagamentos de onde não ficamos...
E penso como existe beleza...! Tirando esses valores presos no cartão eu repetiria tudo, tudinho. Valeu muito a pena. E crescemos enquanto família vivendo intensamente esses quatro dias.
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