terça-feira, 24 de junho de 2025

Risco de vida

Aconteceu uma morte em trilha
Assim sendo, trilhas são arriscadas
Melhor não fazer trilhas?

Aconteceu um abuso a uma mulher que viajava sozinha
Mulheres viajando sozinhas são alvos mais fáceis 
Melhor nao viajar sozinha?

Aconteceu um atropelamento numa avenida principal
Em grandes avenidas temos muitos carros 
Melhor não irmos para grandes avenidas?

Aconteceu de uma senhora que procurava uma vivência espiritual torcer seu pé no caminho
Os caminhos podem trazer riscos para pés, pernas e tornozelos
Melhor evitarmos os caminhos? Todos ou apenas os que levam a vivências espirituais?

Aconteceu de um instrumentista ter uma lesão por movimentos repetitivos
Tocar um instrumento pode causar problemas de saúde 
Melhor que não tenhamos mais música?

Aconteceu de uma criança nascer com uma síndrome genética 
Ter filhos pode ser uma caixinha de surpresas
Melhor não termos mais filhos?

Aconteceu de eu sair para me divertir mas choveu
O que era pra ser uma diversão pode virar um grande desconforto
Melhor não sairmos mais para nos divertir?

Aconteceu de um delicioso jantar trazer uma intoxicação alimentar 
Comer coisas fora de casa pode ser bem arriscado
Melhor comermos apenas em casa?

Aconteceu... Aconteceu... Aconteceu...
O trágico acontece
Podemos evitar, podemos nos preparar, podemos aprender a julgar melhor
Podemos contratar um guia, olhar o caminho atentamente, buscar informações de segurança, fortalecermos nosso corpo, fazermos bons pré-natais, olhar a previsão do tempo, termos cuidado ao atravessar a rua, comer em locais que pareçam mais confiáveis, etc, etc....
Nem sempre vai ser o suficiente.
Coisas acontecem.
Devemos, apesar disso, arriscar viver, ousar apostar nos nossos desejos, pagar pra ver. 

Que saibamos tirar do trágico a beleza. De insistirmos na vida apesar de. 
O que parece um risco de vida não deveria virar um risco de morte em vida. Vivamos sabendo arriscar no que pra nós seja a medida certa.  Vivamos sabendo respeitar e apoiar os investimentos do outro no que toca sua própria existência.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Entre guerras e sonhos

Eu sei bem por alto, de forma bem alienada, que tem uma guerra acontecendo. A guerra tem como uma característica a matança de quem não importa a fim de tentar atingir os poderosos. 

Outras guerras acontecem todos os dias diante dos meus olhos. No microcosmo. Dessas me ocupo, me preocupo, busco saídas. Especialmente dentro de mim. Busco as palavras, as possibilidades. Não concordo com a anulação de quem quer que seja.

Recentemente eu li que, se eu não me ocupar da guerra, a grande guerra, em breve serei eu quem estará na mira dos que guerreiam. 

Num primeiro momento pensei em como me safar. Quem pode faz um ambiente seguro, protegido, um buraco onde se enfiar aguardando que o caos tenha fim.

Pensei nisso também quando falamos em aquecimento global ou, enfim, os problemas ecológicos mil - aos quais eu tenho algum acesso e controle praticamente nenhum - que nos levarão ao fim do mundo.

A seleção natural há de escolher os melhores, quero crer. E, de repente, me vejo desejosa de estar entre os melhores e, quem sabe, ter um plano incrível de sobrevivência. 

Ora bolas, justo eu que venho pensando há muito não num plano de sobrevivência mas num plano de morte. Farão um favor em não permitir que minha vida chegue ao seu natural fim, sendo interrompida de forma mais ou menos brusca antes que eu me depare de forma ainda mais brutal com a minha própria falência.

E volto a paz interior na certeza de que sigo na busca ética e tentando resolver as guerras cujos atores estão bem por aqui. Não sou muito bélica, e, nesse caso, oscilo entre a covardia de não me envolver e a realidade de me ocupar daquilo que de fato está ao meu alcance. 

Por outro lado, me encanta a beleza de uma nova forma de vida onde a sobrevivência tem outro valor, em que tudo que já esteve pronto já não é mais garantia e as pessoas serão obrigadas a conviver de outro lugar, colaborativamente, tendo uma função social relevante uns pros outros.

É só um sonho. Mais um sonho. Ter um lugar no mundo ou um mundo com lugar pra mim é mesmo algo que me faz sonhar.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Eu?

Eu fiz meus projetos
Projetos de mim
Também fui projetada 
Pensada e não pensada

E se eu tiver dado errado?
Se chegar o tempo em que
Não há mais tempo 
Para novos projetos 

Meu tempo acabou
Insisti pouco demais
Insisti demais e foi pouco
E eu não fui

Fiquei aqui
Assim, insossa
Sem um lugar
Sem uma imagem
Sem 

E se eu...?
Eu?
.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Açú

Caminhei mais uma vez até os castelos. Senti que meus passos dessa vez estavam mais pesados. Mas sempre que olhava pra trás parecia ter sido fácil. A cada passo pra dar, uma labuta. A cada passo dado, satisfação. E andando sempre pra frente sabemos que vamos chegar.

A filosofia da vida vai acontecendo dentro de mim: não importa qual a distância se o caminhante segue sua caminhada. Mas é bem verdade que se escolhe caminhos mais fáceis vai ter caminhada mais leve.

Ainda sinto um frio existencial e uma sensação de não estar pronta para sustentar, de forma absoluta, a falta de vontade de viver. E  sei que serei confrontada por questões que virão dos meus filhos, que as vezes já chegam. Quero conseguir dizer a eles que é bonito e que vale a pena. Mesmo sabendo que dentro de mim tem algo que diz: se a sua coragem e a sua vontade de desistir forem grandes demais, vai! Quero ser o vínculo com isso que fica, sabendo que algo em mim também vai, também foi, também quis e quer.

Chego. É apaixonante estar aqui. Um encontro tão verdadeiro. Parece que essa minha casa me aguardava chegar. E eu, saudosa, emocionada em estar aqui de novo. A casa que é minha hoje. Tão minha. Minha e de outros tantos viajantes. Minha hoje e ontem de tantos outros. E anteontem de outros. E é só chegar, estabelecer seu espaço, ser aqui. Como outros foram. O valor que está em não ser nem só meu e nem só deles. É profundamente nosso. E sinto como se eu realmente fosse desse mundo e esse fosse o meu mundo. O pertencimento que me falta no sistema do capital, onde vivo a questionar meu valor e lugar de existência. Parece que estou em outro mundo. Aqui o valor são umas pedras e seus mistérios. O sol poente, frio cortante, registramos tentando capturar o impossível. A minha roupa pode estar rasgada ou os cabelos desarrumados. Foi um galho. Foi o vento. 

É um chão. O chão. Onde existo sentindo que existo. Os bons dias do caminho, os olhares que hora estimulam, hora testemunham, que procuram o sol que está vindo no horizonte. Alguns são capazes de ofertar mantimentos, outros buscam alguma ajuda. 

Retorno realizada. Contando que em breve posso voltar. O que senti pouco consigo descrever. Que os Castelos abriguem a todos que vierem, que sigam nesse espírito grandioso, imutável, mágico. E que os visitantes consigam aproveitar essa energia. Que sintam que essa é sua casa. Como deveria ser todo resto, casa-planeta, homem, mulher, habitante. Veneradores do sol, dos ciclos, da vida.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Castelinho rapidinho

 Caminhei com calçados inadequados mas sentia a tranquilidade de estar num chão já conhecido. O caminho era curtinho, a terra pouco escorregadia, os declives com condições de me adequar. 
E seguia, seguia, rumo ao cume, o Castelinho. 
Os raios de sol aproveitavam as brechas da mata para me alcançar. Me invadia a sensação do belo. 
De repente passamos por uma senhora com quem sabe um neto e um guia. Subiam lentamente, a cabeça totalmente branca destoava da dos visitantes que costumamos receber.
Quase lhes desejei boas vindas mas me limitei ao sincero "bom dia" que desejo a quem também foi viver. Minha segunda casa, sempre tão acolhedora.
Chegando nas pedras vou observando se tudo está como eu deixei: arrumadinho. Vejo que ali não tem as minhas marcas. Como saberão que estive ali, fui recebida, recebi, que dormi bem ou que o sol estava forte e eu esqueci o chapéu? 
Como saberão da ventania que passou, da água que ensopou meu tênis, das vezes que me preocupei com as crianças pulando pelas pedras? E ali penso que poucos querem saber... Muitos chegam, são bem recebidos, se deslumbram. Vem e vão, não deixam marcas e saem marcados pela montanha. Outros levam tinta, levam materiais para ferir as pedras, sujam minhas paredes, violentam o sagrado que ali habita. E lamento cada nova marca de um lugar já tão marcado.
Por outro lado, naquela grama tem o meu espaço. Ali, perto da pedra, ponho minha barraca aguardando que o sol nasça naquele ponto. Na gruta, naquela pedra, na outra, nos cantos... É um lugar que me conta um pouco de caros momentos vividos por mim. Oculta restos de mim, das minhas alegrias e momentos de reflexão, como hoje.
Um agradecimento.
Meus pés beijam aquele chão.
Meus olhos recolhem um presente.
Minha pele sente o abraço.
E me despeço já com saudades de voltar.