quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Pedras

Há pedras, pedrinhas coloridinhas e bonitinhas
E pedrinhas mais comuns, miúdinhas fazem meu chão 
Pedras um pouco maiores sinto pontudas sob meus pés 
As um pouco maiores fazem ilhas onde saltito seguindo caminhos
E tão, tão maiores que as escalo e sento para descansar

Sinto que sou pesada
Muito pesada, muito mesmo
As roupas GG mal me servem
Sou grande, enorme, muitos lugares comuns nem têm roupas pra mim
Devo ser quase gigante
Praticamente uma aberração 

E, assim sendo, quem me aguentaria ao me dar a mão?
Pedras me aguentam, e olho pra elas pensando quem será mais pesada: eu ou ela?
Em geral, nelas eu confio
Sua força e solidez são capazes de dar-me suporte
Seguro em suas agarras confiante 
Muitas são tão estáveis que, mesmo estranhamente apoiadas, sei que meu peso em nada interfere 
Mas algumas, apesar de grandes, cedem como gangorras e me assutam com sua instabilidade 
Outras, escorregadias, apesar da capacidade de me terem, traiçoeiras, não me querem

Fui subindo o rio observando essa companhia tão variada e presente
Pedras por todo lado
Quais as pedras escolho por meu caminho?

Voltei pensando que moro entre duas grandes pedras
Numa tem se alojado muitas árvores e, mais cedo ou mais tarde, essa floresta deslizará no escorrega de pedra, ou seja, a montanha
Do outro lado vejo a pedra mais bruta e uma sorte de centenas de bromélias a enfeitando 
O chão da minha vila tem pequenas pedrinhas menores que as britas, onde meus filhos adoram derrapar de bicicleta 
E do lado de fora colocaram paralelepípedos, nada mais são que pedras retangulares... 
Percebo uma ampliação da minha percepção: o mundo é sobre pedras

Excentricidade

 Tenho uma amiga querida que gosta de cobras e lagartos. Mais cobras que lagartos. E aranhas.
Quando os outros escutam isso, muitas vezes não têm pudor em expressar seu descontentamento, incômodo, nojo. Parece que ela veio de outro planeta. 
Mas há uma chave que vira se eu mostro uma foto minha com a aranha na mão. Ou quando ela quer mostrar como a aranha se alimenta ou faz sua teia. Há logo interesse e admiração.
A amiga, muito paciente, se ri dessas mudanças de perspectiva. Observa o preconceito com tolerância ao que de fato é um pré-conceito, uma ideia sem vivência.
A curiosidade sobre o universo do outro é sempre vantajosa. Mas comer grilo, como alguns orientais, já passa dos meus limites.

domingo, 7 de setembro de 2025

Comida é pasto, você tem fome de quê?

Uns alimentos são inflamatórios. Muitos. Outros, oxidantes. Há ainda os cancerígenos e seus graus de malignidade. A cada salsicha a mais, dias a menos de vida... Comer frutas com qualquer sinal de fungo é risco de infecção grave e bombardeia o fígado. O álcool, o fumo, as drogas, tudo nos levando mais cedo ou mais tarde pro destino final.
E a lista segue crescente com tudo que devemos fazer para termos uma vida plena, saudável e longeva. E há uma lista maior ainda do que não podemos fazer.
Fico me perguntando: e se vivermos muito, muito, muito, fazendo tudo de certo, não fazendo nada de errado, ficará o nosso corpo inabalável para sempre? Comendo os alimentos certos, nossa pele seguirá com o mesmo brilho e mesma textura? Ou, na verdade, é uma conta que não fecha?
Somos um dos povos com paladar mais doce do mundo. Ou seria o paladar mais amargo e, de tanto amargor, precisa de doces para adoçar a vida?
A cada salsicha que como, eu desejo que o câncer não venha e sei que, se vier, sentirei culpa pelas salsichas comidas. Lembro do prometido câncer e me pergunto, sabendo que é um alimento cancerígeno e o comendo mesmo assim, se ele é mais cancerígeno ou eu mais responsável...
Serei também responsável -culpada?- pelos alimentos refinados que consumi e ofereci? Ou serei longeva como minha avó paterna e meu avô materno? Ou morrerei cedo e por doenças graves como minha avó materna e meu pai? 
Não dou conta das demandas alimentares e tão positivas que são menos acessíveis e menos culturais. Fiz o bolo de aveia e sem açúcar para meus pequenos. Sigo gostando do bolo farinhento e açucarado. Confesso que diminuí os açúcares das receitas. Não pela ameaça da morte mas porque eu não precisava mais de tanto doce e meu filho pedia por menos doce.
Quero viver bem com os alimentos aos quais tenho aceso. Cheios de agrotóxicos legalizados, alguns ultraprocessados, mas principalmente alimentos que eu mesma faço com os ingredientes disponíveis e acessíveis.
Você é o que você come. Quem é você?
Eu não sou o que eu como. Eu sou a Ana. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Indignos

Procuro um lugar pra mim. Há momentos em que não me acho feliz em nenhum lugar. As pessoas que fazem sentido pra mim também estão vazias de mim. Os lugares que fazem sentido pra mim não fazem sentido em si. Os sentidos, esvaziados, os lugares desencontrados e as pessoas despessoalizadas.
Minha clinica está crescendo. Faço supervisão e com ela vejo que há mesmo um valor no meu trabalho.
Meus filhos estão crescendo e, mesmo com minhas inseguranças, os vejo muito interessantes e articulados. Ao menos uma parte disso me diz respeito.
Minhas amizades são boas amizades e as pessoas com quem troco me trazem alegrias de conviver.
E a vontade de deitar numa pedra e ali me manter una com o chão, às vezes é bastante grande.
Se a vida conquistada não faz tanto sentido, a busca de novas vidas, menos ainda. O corpo que pede mais, que quer mais e mais vida. O desencontro dos corpos, as doenças que existem, limitações das mentes. Mentem. Minto. Omito.
A morte é um fim pra carne. Uma boa morte é a dignidade de uma vida. Procuro dignidade. Intensidade é colocar uma verdade onde não há sentido? Ou uma mentira tentando que haja sentido? Morreremos todos indignos?