quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Ypuca

Chegamos com chuva e tivemos dificuldade de finalizar o dia. A previsão era de pouca chuva mas choveu a noite toda e fomos acordados às 5 com a água entrando no colchão. Essa talvez seja a pior forma de contar que eu gostei muito da experiência de camping do final de semana. E se eu começar assim fico pensando em como o leitor me julgará insana. Mas além de gostar da ideia de causar um certo impacto, não quero que pareça que há apenas méritos e prazeres na vida. Digo também porque é verdade: dormi muito mal cuidando do excesso de água dentro da barraca para manter meus filhos dormindo bem e mesmo assim às 5 não dava mais pra ficar ali. 
Dito isso, sinto-me leve para contar o que de tão maravilhoso pode acontecer em três dias de camping que possa justificar esse desprazer e alguns outros incômodos inerentes. 

Estávamos sobre o chão e sob o céu. Assim que levantamos, tocamos a grama molhada e vivemos as cores do amanhecer, dessa vez tons de cinza. Lindos tons de cinza com espaços cada vez mais brancos e que foram abrindo buracos de janelas azuis e a chegada do sol. O rio que ontem era transparente, estava cheio e barroso. Os meninos viveram o rio logo depois de comerem um pouco de laranja lima, iogurte natural batido com morango e bolo de cenoura com brigadeiro. Na beira do rio tinha um balanço, onde primeiro sentaram e só colocaram o pezinho na água. E de pouco em pouco ficaram, "sem querer", ensopados dos pés aos cabelos e roupas e tudo. As risadas eram as mais encantadoras e mesmo que eu tivesse apenas aquela roupa, teria valido a pena.

Banho, balanço, brincadeira. Aos poucos o dia foi acontecendo enquanto todos acordavam. A segunda parte do café da manhã foi de pão e corpo, conhecendo gente e contando história. Quem dormiu bem, quem dormiu mal, vivências, gente que usou o mesmo prato que eu no dia de ontem. Partilha de geladeira, fogão e utensílios, de vida, compartilha, convive. Talvez nunca mais nos veremos, mas no café de hoje somos uma família. Não temos a intimidade nem pro bem nem pro mal. Ganhei goiaba do pé da casa deles e carreguei o celular com o carregador dele, que encaixava na tomada, já que só levei carregador de pino chato. No dia das crianças outro grupo distribuiu doces e chamou pra brincadeira de sabão na lona. Não que eu goste disso em si, mas gosto desse viver junto sem hierarquia. Das diferenças postas mas que criam laço. Na arte de comungar de um tempo juntos.

Fizemos um almoço simples e delicioso, apesar do que cada um leva, existe troca. E assim enriquecemos nossa alimentação que também tem algo de encontro. Eles aprenderam que requeijão com alho é uma iguaria super simples de ter à mesa. E olhando com compaixão nossa guriazinha com o rosto picado de mosquitos, me ensinaram a fazer repelente natural com cravo e canela. Vou tentar!

Secamos todas as coisas para um descanso merecido.

A noite daquele dia foi mais desafiadora pra mim. O mais novo tinha sono e foi dormir num horário ótimo. O mais velho tinha mais vontade de brincar que sono e me prometia avançar madrugada a dentro. Junto das outras crianças, correu muito, eles fugiam, se escondiam. Lanternas faziam seus rastros ou anunciavam presenças. E gritos e risadas! Eu fiquei velando meu pequeno, que dormia pleno na barraca. O mais velho ia e vinha, com outras crianças e outros adultos. Olhei por ele menos do que gostaria. Dentro de mim um misto de realização por sua alegria e liberdade mas também uma sensação de risco, de estar abrindo espaço para que coisas nem tão boas assim chegassem até ele. Orientei, confiei nos quase nove anos de ensinamentos e curti aquele momento tão sublime que ele estava experienciando. Chegou em casa contando tudo com brilho nos olhos. Eles receberam, no domingo, um dinheirinho para irem comprar cebolas pro almoço. Foram em um conjunto de quatro crianças. E poderia ser só isso, mas era tudo isso. Essa experiência foi relatada com muitas palavras e ampla gama de viviências. Apesar da autonomia, ainda eram crianças indo comprar cebola. Tão simples, tão possível, tão raro.

No último dia, fomos acordados às 5 com a vontade do pequeno de fazer xixi e a sinfonia de passarinhos. Tentei que ele dormisse de novo em vão, o que acordou o mais velho. Embora ele não tenha aguentado ficar até a madrugada, foi dormir tarde. No último dia vivemos música, circo, rio, encontros, arrumações e voltamos pra nossa casa. Querida e confortável casa, com meu marido, pai dos meus filhos, dentro. Que maravilha! E quanta vida levo pro meu próximo ano aguardando pelo Festival Ypuca.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Ingratos

O problema da ingratidão é que ela já é, de saída, retroativa. Ela vem de uma ação anterior à qual se deveria ser grato. E mais do que isso: mover-se no sentido de reconhecer aquele benefício ofertado.

Como  funciona a relação entre as pessoas de modo que a ingratidão seja aposta à mesa? Me parece que em geral a ingratidão vem de uma dívida não declarada ou de uma doação acima do regular, do possível, do aceitável. Quem dá, dá mais do que tem para dar e quem recebe, recebe achando que está tendo uma oferta de doação. No entanto, o que acontece é que o contrato não assinado estava implícito. Mas apenas para uma das partes. Ele foi considerado óbvio. Quem doa se sente onerado ou entende que o outro deveria fazer da mesma maneira. Mas o que eu tenho para dar não é o que você tem para dar. O que você tem para dar nem sempre eu terei. Inclusive se preciso é porque pouco tenho para dar, no entanto, se dou é preciso que seja de coração.

Quem dá de coração o faz por autorrealizacão. A realização está no ato da oferta, que sai natural, que não pede troco.

Acontece de não querermos receber algo que para o outro seria simples pressupondo o contrato do impossível. O contrato que não tem como ser pago e, mesmo que o outro diga que não há contrato, a gente recusa a oferta de modo a não contrair uma dívida.

Toda relação é desigual e sempre há um que dá mais e o outro que dá menos. Também é preciso notar que há os que sempre acreditam que deram muito muito muito e criaram dívidas enormes dentro de si. 

Existem as marcas de cada uma das pessoas: há quem muito dê por circunstâncias da vida e há quem muito retenha também por circunstâncias da vida e quando percebemos que podemos usufruir da relação que a pessoa faz com a sua própria falta deixamos de enxergar o outro pensando apenas em nós. Não é uma equação simples afinal o universo do outro é sempre misterioso.

Posso agora lhes desejar uma boa noite. E, se você nada me disser de volta, irei dormir em paz, minha oferta, mesmo tão singela, consegue vislumbrar que a essa hora você já estava em outra. Um beijo. Um beijo já é uma oferta um pouco mais avançada... Se mando-lhe um beijo que tipo de retorno me dará? Mandarei beijos fácil demais? Deveria escolher momentos mais certeiros? Quantas formas de amor medimos nos nossos encontros? Ingratos, depois de tudo que fiz...!


Prof Girafales: a senhora é tão simpática 
D. Florinda: o senhor também é tão simpático
Prof Girafales: a senhora é tão linda 
D. Florinda: o senhor também é tão simpático

Música: é isso aí - Casuarina

sábado, 4 de outubro de 2025

Né?

 Lá vou eu falando do meu pai. 16 anos sem ele e outro dia eu recebi um vídeo meu. O vídeo de eu falando da escola dos meus filhos, uma generosidade a fim de alavancar novas matrículas. E aí tem muitos desconfortos nesse encontro comigo mesma falando publicamente. Mas tem algo que absolutamente me atropelou. Eu fiquei muito, muito impressionada que eu repetia "né?" no lugar das vírgulas e pontos. Não era um detalhe era uma aberração. Imediatamente eu pensei o quanto eu seria uma pessoa melhor se meu pai vivo estivesse. Ah! Eu podia talvez não falar nada, mas falar daquele jeito inseguro e cheio das marcas dessa insegurança não. Ele me escutaria no dia a dia e apontaria o absurdo. E a cada momento ele criticaria. E eu ficaria indignada e irritada, mas perderia um pouco daquele mau gosto. Seria incômodo, mas não sei se o incômodo era ser exatamente do jeito que ele falava ou da crítica acirrada. Tudo que eu queria, ao ver aquele vídeo, era que ele tivesse me doutrinado o suficiente para me aperceber do inaceitável.
Não bastasse a sensação de vergonha de existir aquele vídeo e a ampliação desse sentimento para a minha própria existência, quando mostro pro meu marido ele não compreende qual é o grande problema do vídeo. Não consigo acreditar. E, ao final, ele reconhece como uma forma usual minha de comunicação. Oh, céus! Que horror!
E agora não sei o que é pior: o marido não acusar o absurdo ou achar tal vício de linguagem aceitável. 
Enfim, estou tentando me ouvir mais e precisar menos que o interlocutor concorde comigo. Né?

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Amor e Ódio

 Houve um tempo em que eu acreditava no amor. Esse tempo é o meu presente. Eu abro o presente e vejo que havia, ali dentro, amor.
 Houve um tempo em que eu acreditava no ódio. E olhando pra ele eu pensava: isso não é amor. E, pela negativa, o amor estava ali.
 Amor e Ódio eram nomes próprios. Eles me foram apresentados encorpados, sob uma forma, com uma roupagem.
 Aos poucos eu olhava praquela forma, aquela que me fazia reconhecer o Amor e o Ódio e elas se apresentavam diferentes, um pouco confusas. É como se os adereços estivessem trocados. Olhava sem reconhecê-los com clareza. E quem estava ao meu lado dizia: é amor. Ou então, é ódio.
Até que tudo ficou confuso de vez. As formas,.de fsto, não eram tão evidentes assim. Percebi que alguns presentes, onde o amor sempre estava, não eram assim tão bons. Esqueci de dizer: o Amor é bom e o Ódio é mau.
 Comecei a perceber que olhando de um lado parecia amor. Mas de costas ou de lado, mudava. Quando recebemos o presente, cheio de um amor que consome e que, como resposta amorosa, é preciso tudo suportar, já não faz bem, não é bom. 
Bem de quem ou bom pra quem? O bem não é quando faço a ti o que gostaria que a mim fizesse? Você não sou eu... E eu não sou você. E nosso sentir bem é tao diferente. Se respondo amorosamente ao seu presente, resta saber se tive amor próprio. E se o amor a ti, no verso, não é uma violência a mim. E se a violência a mim é amor ou ódio.
Fui conhecendo Amor e Ódio. Ambos me fazem muito bem, me dão sinais de mim mesma. Eu que também não sei bem quem sou, o que quero e pra onde vou. Dançam com uma beleza inigualável. E ficam muito bem quando ocupam, cada um, o seu lugar. A roupagem os define menos, embora às vezes ainda me confunda. As vezes se engalfinham como criança, rolando, uma confusão. Eu vou lá tentar separar. Nem sempre consigo. Claro que ficam umas marcas... E das marcas, marcos, limites.